terça-feira, 19 de maio de 2009

Hora Cívica

Às quintas-feiras, na E.E. Carlos José Ribeiro, em Atibaia, todas as turmas perfilavam no pátio da escola, separadas em filas de meninos e meninas, por ordem de altura, do menor para o maior. A diretora discursava e transmitia alguns informes e, às vezes, havia alguma apresentação de professores ou alunos. Em seguida, ocorria a execução do hino nacional brasileiro e o hasteamento da bandeira. Era chamada de "Hora Cívica". Herança dos tempos da ditadura militar, das aulas de educação moral e cívica, já extintas àquela altura.

O tempo passou e hoje creio que já não exista tal procedimento nas escolas públicas paulistas. O hino nacional, em minhas lembranças, ficaria mais restrito às datas comemorativas, eventos e solenidades, como no dia de minha formatura.

Isso porque faço um grande esforço para ignorar uma lei de autoria do deputado estadual Vitor Sapienza (PPS), que vigora desde 2001, que institui a obrigatoriedade do hino nacional brasileiro antes de qualquer evento esportivo no Estado de São Paulo (pela redação atual, "em todos os eventos esportivos com público acima de 5000 espectadores"). Penso sobre a matéria e não entendo a razão "cívica" desta legislação.

Talvez por efeito daquelas quintas-feiras, nunca fui entusiasta de nosso hino, que considero demasiado parnasiano, mas sempre respeitando aqueles que o consideram o "mais importante" símbolo nacional. No entanto, não vejo motivo algum para tocá-lo antes de competições ou partidas entre clubes de âmbito local ou nacional, seja num São Paulo x Palmeiras, Atibaia x Red Bull Brasil, Paulistano x Pinheiros, Finasa x São Caetano, ou mesmo, Garça x Botucatu, em copas de futsal promovidas por emissoras de TV. Soa ainda mais estranho e incoerente em partidas internacionais envolvendo times paulistas, pois apenas o hino braileiro é executdo e o do país do time visitante não. Por vezes, ainda inventam de colocar Ivete Sangalo ou Zezé de Camargo e Luciano para interpretá-lo.

Não se trata de banalização, mas somente de uma causa desnecessária. O que está em jogo envolve apenas clubes, interesses particulares, práticas esportivas envolvendo atletas amadores ou profissionais, buscando algum reconhecimento ou só mantendo a forma física, além dos espectadores que estão lá por divertimento e lazer. Não envolve qualquer ideal de país ou nação e tampouco influi sobre o conceito geral que se tem de civilidade. Afinal, o mesmo sujeito que canta o hino com louvor à pátria é o mesmo que mais tarde vai emporcalhar o estádio e as ruas com lixo, brigar com a polícia, parar o carro na vaga de pessoas com deficiência (ou portadoras de necessidades especiais), desrespeitar o acento preferencial de idosos nos coletivos, impedir o fechamento das portas do trem para não ter que esperar pelo próximo.

Antes das partidas bastaria a entrada das equipes, um cumprimento entre os jogadores, a troca de flâmulas. Excetuando as partidas ou competições envolvendo uma seleção brasileira em qualquer modalidade, essa execução exaustiva e "totalitária" é um retrocesso. Mas acredito que ainda há muita gente por aí com saudade dos militares e das horas cívicas.

2 comentários:

Andre de Paula Eduardo disse...

O Brasil adora essas coisas, tudo está na lama mas posamos pra inglês ver (em sampa está o caos, mas agora somos civilizados com a "lei anti-fumo"...).
O hino é o retrato de um Brasil imperial, uma velha ordem, mesmo escrita já na república pelo Duque Estrada..."ó pátria amada idolatrada salve salve"... salvar o quê?

Cláudio Coração é jornalista disse...

A pior interpretação foi a do Exaltasamba....