domingo, 28 de junho de 2009

Boleiros (ou Era uma vez o futebol)

Era uma vez um tempo em que jogadores tinham personalidade, pouco se importavam com a imagem, falavam abertamente com a imprensa, chamavam a responsabilidade do jogo e, acima de tudo, jogavam muita bola.

Domingo passado, o programa Grandes Momentos do Esporte, da TV Cultura, reprisou partidas históricas envolvendo Corinthians e São Paulo ocorridas nas décadas de 70 e 80. Além do bom futebol jogado, via-se nitidamente que a atmosfera era outra. Havia Serginho, Sócrates, Dario Pereira, Casagrande, Oscar, Wladimir. Até a pancadaria, como a que ocorreu no confronto entre as duas equipes no Campeonato Paulista de 1979, tinha ares românticos. Não era uma briga qualquer: eram Serginho e Wladimir trocando sopapos. Algo que não ocorre, por exemplo, ao rever a briga entre Edilson e Paulo Nunes, ocorrida 20 anos depois. A percepção é diferente porque antes havia uma categoria de jogadores com as qualidades descritas no começo deste texto e que, hoje, praticamente deixaram de existir. Eles mesmos: os boleiros, figuras abundantes no futebol brasileiro nas décadas de 70 e 80*.

Personagens do futebol brasileiro que nos anos 90 já eram escassos, mas que ainda carregavam a tradição. Com a ajuda da mídia, tornaram-se célebres as fanfarronices de Viola, as provocações de Túlio Maravilha, as brigas de Edmundo, as insinuações do "deus" Romário (autointitulado), os churrascos e as mulheres de Renato Gaúcho. Eles faziam um bem enorme ao futebol no sentido de deixá-lo menos sisudo, mais verdadeiro. Nesta década, apenas o goleiro Marcos, do Palmeiras, consegue honrar as gerações anteriores, num cenário onde parece não haver mais herdeiros.

Hoje, mesclam-se falta de personalidade e superproteção aos atletas que, desde as categorias de base, já estão munidos de empresários e assessores para restringir declarações, bem como assuntos e pautas tratados com a imprensa. Restam aos repórteres ouvirem as respostas óbvias de sempre. Ao espectador, futebol e jogadores sem sal. A proteção é até válida para jovens jogadores que chegam totalmente despreparados ao futebol profissional, visto que fama e dinheiro trazem deslumbramento a uma molecada que antes não tinha nada e passa a ter tudo. Entretanto, acostumados que éramos aos boleiros de outrora, dificilmente conseguimos ouvir palavras que valham a pena da 'boleirada' de hoje, se é que podemos chamá-los assim. Com boas atuações em campo já ficaríamos satisfeitos.

É fato que os jornalistas que cobrem o dia-a-dia do esporte hoje também são outros. As pautas não são tão interessantes, pois temos jogadores pouco interessantes. Os bons personagens para entrevistas continuam sendo os do passado. Em São Paulo, principalmente, a cara do futebol é cada vez mais ranzinza. Um Renato Gaúcho faria um bem enorme por aqui.


*As décadas de 70 e 80 foram citadas por conta do vasto material audiovisual disponível para relembrar os boleiros do passado. Caso tenha esquecido de algum, a caixinha de comentários está disponível para as devidas citações.

6 comentários:

Luiz disse...

Considero um tratado de futebologia e que confirma a tese que o futebol morreu, agora só resta o video-game.

Andre de Paula Eduardo disse...

Que droga esse mundo da bola hein... Só puxa-saco, Lixoburgo, esse neobom-mocismo dunguista. Não se esqueça do Muriçoca. Aliás, queria saber sua opinião sobre sua demissão (eu achei uma estupidez).

Esse Pocahontas é um mala mesmo hehehe! Zizou 10 x 1 Zico!

Andre de Paula Eduardo disse...

Angelo x Adenonis.

http://www.youtube.com/watch?v=NLtzYGnNPaE

Cláudio Coração é jornalista disse...

O muricy era um meia-direita arretado!

mari disse...

Pelo menos ainda temos alguém que vale a pena...

Raphael Carvalho Gimenes disse...

gente boa, futebol ainda é bom, só é diferente. adaptem-se aos seus tempos ou vão acabar como velhos irritados hehe. apesar de que, claro, também prefiro o futebol dos anos passados... mas consigo apreciar o de hoje em dia sem esforço