sábado, 1 de agosto de 2009

Meninas, eu vi

Vi, sim. Era um sábado, lá pelas dez horas da manhã. Passeava pelos canais sem nada encontrar, até que parei na Rede Vida, que transmitia o jogo entre Juventus e São Bento, na Rua Javari, válido pelo Campeonato Paulista Feminino. Confesso que nunca dei atenção ao futebol feminino, mesmo aos campeonatos envolvendo seleções. Claro que jamais encontraria padrão de jogo e nível técnico igual ao futebol masculino, dadas as diferenças de musculatura, biotipo, treinamento e nível de desenvolvimento da modalidade entre homens e mulheres. Mas aquela partida me fez pensar muitas coisas, não só sobre a desigualdade de condições existentes no futebol feminino no Brasil, mas também sobre um ponto em que as meninas estão muito avançadas em relação aos homens: mentalidade.

São Bento e Juventus eram as duas piores equipes do Grupo 2, sendo que o time da capital paulista ainda não tinha vencido na competição. Após a expulsão da jogadora Pâmela, do São Bento, o time da Mooca passou a jogar com tranquilidade e abriu o placar com a meio-campo Bruna, ainda no primeiro tempo. Terminada a primeira etapa, o repórter da emissora foi atrás das protagonistas da partida e as palavras das meninas demonstravam muito mais que o esforço promovido dentro de campo.

Não havia reclamações, lamentações, queixas com a arbitragem, com a vida. Sobravam simpatia, lucidez, consciência. Eram meninas orgulhosas por estarem estudando, fazendo faculdade, cursando administração, marketing, educação física, ou ainda terminando o ensino médio (as mais novinhas tinham apenas 15 anos). E estavam felizes simplesmente por praticarem o esporte. As jogadoras do São Bento entrevistadas demonstravam calma e tranquilidade, e nem parecia que tomaram sufoco das adversárias no 1° tempo. Se houve lamentação, era pelas companheiras que não puderam viajar para aquela partida. Nem parecia que as duas equipes tinham as piores campanhas do grupo.

Na segunda etapa, as meninas do Juventus voltaram a dominar o jogo e fizeram mais três gols, dois de Fran e um de Thais, finalizando o jogo em 4 x 0 para o Moleque (?!) Travesso.

Ao final do jogo, o treinador da equipe de Sorocaba exaltava a determinação das jogadoras. Apenas lamentava a ausência de várias delas naquela partida. Motivo: tinham que trabalhar na manhã daquele sábado e não puderam viajar com a equipe. Outras tinham que retornar para Sorocaba logo após o jogo, pois entravam no trabalho no período da tarde. Essa foi a rotina da equipe no campeonato. Mantido pela prefeitura (o São Bento emprestava apenas o nome), o time recebia auxílio de R$ 1700 reais por mês para as despesas com viagem e alimentação das atletas e chegou a ter em uma partida apenas uma atleta no banco de reservas.

No Juventus a realidade é um pouco melhor. O clube tem tradição no futebol feminino, já foi campeão paulista em 1987, costuma revelar jogadoras para a seleção, como a jovem Carol, de apenas 15 anos. Era uma situação atípica estar na última colocação do campeonato, mas finalmente as meninas da Mooca puderam comemorar a primeira vitória.

Mas não foi a precarização da modalidade entre as mulheres que me chamou a atenção, até porque o Brasil é um país que não leva qualquer esporte a sério, a não ser para levantar candidaturas a sede de Panamericano ou Jogos Olímpicos. O que aquelas garotas demonstraram é que a vitória ou derrota ali não afetaria a consciência delas, pois conheciam bem as dificuldades que envolvem a carreira no futebol, ainda mais no feminino. E como a realidade não permite deslumbramento, a maturidade chega mais cedo. Algumas pensam em se formar e crescer no futebol, outras apenas na atividade física e no prazer que o esporte proporciona. E sabem que o estudo é a condição fundamental para a evolução de cada uma. No futebol masculino nos deparamos com um universo de jogadores que não tem idéia do que fazer após encerrar a carreira, pois não possuem formação alguma.

As meninas do São Bento e Juventus deram um show, não só de empenho, mas de dignidade. Não faço idéia do que representa estar em campo para aquelas garotas. Existem aquelas partidas que nos marcam por alguma coisa e essa, com certeza, será uma delas. Acho que essa foi pelo fator humano. Altamente desenvolvido.


*Procurei por fotos e notícias desta partida na internet sem muito sucesso. No site de Federação Paulista havia apenas uma pequena nota. A súmula da partida estava indisponível. No site da Rede Vida só havia a chamada para o jogo. Até no site do Juventus só havia uma pequena nota sobre a partida que sequer mencionava o nome das jogadoras autoras dos gols. A escalação das duas equipes foi impossível conseguir. No site da federação havia somente o registro das jogadoras, com as fichas atualizadas de cada uma. Com certeza, essas meninas mereciam mais.

4 comentários:

Cláudio Coração é jornalista disse...

Belíssimo texto!

guto disse...

Essas meninas realmente mereciam mais...deram um exemplo de comportamento e de amor ao esporte.

ótimo texto

Welyton disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Welyton disse...

levíssimo texto

belo