sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O “fenômeno” Zina e a tragédia humana

O torcedor corinthiano Marcos da Silva foi assistir à partida entre Corinthians e Botafogo-SP, válida pelo Campeonato Paulista, no estádio do Pacaembu. Estava na praça Charles Miller, no meio da multidão que aguardava o horário do jogo. Lá também estava a equipe do programa Pânico na TV, em campanha por uma entrevista com o jogador Ronaldo “Fenômeno”, e que naquele dia colhia declarações dos torcedores para a estréia do atacante no Timão. Quis o destino que Marcos fosse um dos entrevistados pelo Pânico e, quase sem querer, surgiu mais um “fenômeno” midiático para a turma de Emílio Surita.

Marcos transformou-se em celebridade instantânea com apenas uma frase: “Ronaldo” (e a espécie de subtítulo “brilha muito no Corinthians”). Virou hit no You Tube, toque de celular, estampa de camiseta. O hit “Ronaldo” tornou-se uma espécie de interjeição na linguagem cotidiana, turbinado pela exposição massiva do vídeo no Pânico na TV. Uma espécie de Susan Boyle brazuca. De maneira indireta, Ronaldo, o jogador mesmo, ganhou ainda mais popularidade.

Mais curioso ainda é pensar que Marcos fez sucesso por meses sendo um anônimo, sem que ninguém soubesse seu nome, quem era, de onde surgira. Era só o cara que dizia “Ronaldo”. Mas a fama estava só começando. Depois de seguidos insucessos na tentativa de falar com Ronaldo, a turma do Pânico resolveu ir à procura da pessoa que, indiretamente, era responsável por injetar ainda mais notoriedade ao jogador (e ao programa, por tabela). O personagem Alfinete foi à periferia da zona norte de São Paulo para tentar encontrar o “desconhecido” mais famoso do país e levá-lo para um encontro com Ronaldo. Achá-lo não foi difícil, dada a “popularidade” de Marcos. E, pela primeira vez, foi possível conhecer quem era aquele rapaz da frase famosa.

Marcos da Silva é mais conhecido como “Zina” e trabalha como vigilante e guardador de carros em seu bairro. Sua mãe, que tem problemas de saúde, pagava o aluguel do pequeno quartinho onde morava. A fala de Zina combina momentos de lucidez com devaneios, altos e baixos, e seu aspecto cômico aparece justamente nos instantes de menos brilho e mais fantasia (não sabemos se a “galera da xurupita” realmente existe, mas o rapaz se recorda perfeitamente de um lance do jogo entre Corinthians e Palmeiras pela Libertadores). Aparenta ter problemas psiquiátricos, talvez decorrentes do uso de álcool ou drogas. Por vezes, os tragos no cigarro são seguidos de um silêncio profundo.

Alfinete, estereótipo de torcedor corinthiano, estilo “mano” falando gírias, e Sabrina Sato, mulherão, torcedora do Timão e integrante da Gaviões da Fiel, encontraram em Zina o torcedor mais caricato possível para compor o trio nos quadros do programa. Pobre, feio, maloqueiro, sem lugar para morar, de fala truncada, meio louco, o corinthiano ‘perfeito’ para quem está assistindo, seja pela identificação com a Fiel, seja pelo reforço do preconceito e estigmatização presentes no imaginário coletivo das outras torcidas.

Contudo, mesmo com o talento da trupe de Emílio, a espécie de humor do Pânico na TV é bem duvidosa, pois beira o sadismo, sem limites a serem respeitados. Não é o sensacionalismo de Gugus, Ratinhos e Datenas, parece ainda mais cruel, pois, além de não ter a dimensão do que ocorre a sua volta, Zina precisa ‘sangrar’ para render audiência ao programa e esse sangramento significa render piada em todos os domingos. Nesse giro, o rapaz conheceu Ronaldo e Pelé, já encontrou com vários artistas, foi à quadra da Gaviões, ficou conhecido entre os torcedores, foi em treino no Parque Ecológico, foi despejado, arrumou outro quarto para morar de favor, passeou de helicóptero. Entretanto, a exposição de sua imagem no programa o qualifica como um personagem, fora da realidade e esvaziado enquanto sujeito. Junto ao público, tende a se confundir com Alfinete e Sabrina, embora estes últimos sejam personagens. A tragédia de Zina é real.

A última campanha do Pânico consistia em arrecadar fundos para a compra de uma casa ao rapaz, e durante semanas percorreram diversos eventos para levantar a verba. Por fim, o presidente da Redetv!, Amilcare Dallevo, comprou a casa para Zina e ainda arrumou emprego para ele no programa. Fora a preocupação com a audiência (o Pânico ficou em primeiro lugar no último domingo), poderia ir além disso e se preocupar também com a saúde dele, arranjando-lhe um médico, um psicólogo, um tratamento. Não é nada se comparado à audiência proporcionada pelo cara da frase "Ronaldo".

Zina enquadra-se nas categorizações que discuti recentemente com os amigos Cláudio e Luiz, considerando que uma pessoa pode estar "na moda", "na mídia" ou "nas ruas". Zina era só mais um anônimo, perdido entre a massa em um jogo de futebol, e por um acaso da vida foi parar diante das câmeras do Pânico. Ganhou "a mídia", está "na moda". Como a maioria dos fenômenos midiáticos, quando sua imagem se desgastar, será esquecido aos poucos, sairá "da moda" e voltará "às ruas". Em que condições não sabemos. Que São Jorge o proteja.

9 comentários:

Andre de Paula Eduardo disse...

Não posso comentar muito porque não assisto esse programa e nunca tinha ouvido falar no tal Zina.
Mas pelo que vc descreveu, é mais uma triste amostra de uma tendência não tão nova de transformar seres humanos em bichos, em explorar seus aspectos mais pitorescos e até miseráveis; está na mesma onda dos reality show que abusam da imbecilidade, da crueldade e tem como capital maior a profunda falta de sentido da vida de quem participa. Reflexo óbvio de quem vê. Abraços!

Andre de Paula Eduardo disse...

Só pra completar: acabei de entrar no site da uol e li

"A Fazenda"
Dado é falso e bebia cerveja em xícara de café, diz Carlinhos.

Nunca vi esse bagulho, tenho subsídio infinito pra dizer que é um bagulho, sei lá quem é Carlinhos e Dado imagino que seja o Pitboy que brigou com o Gordo.

Meme chose, nes´t pas?

Falando nisso, já foi ver o Elogio do amor? Assim o senhor me deixa muito triste hehe.... com ou sem legenda, veja os últimos 20 minutos. Inesquecível.

Amanhã tem Kékis Góis. E Tchau Radar!

Luiz disse...

Caro amigo. Não acompanhei o fenômeno Zina, mas sua descrição foi suficiente para compreensão do mesmo. Acho que seu texto demonstra o resultado da apropriação mercadológica (capitalista) dos mídias em relação a personagens socialmente frágeis. Essas apropriações estão generalizadas em programas de domingo como o gugu, o programa do netinho de paula, enfim... Que dão mostras do uso de um humanitarismo-blefe que de sincero só tem o deboche. Parabéns, mais um texto completo, uma análise cortante, com ritmo melancólico que beira poesia!

Andressa disse...

O pior é pensar que esse encontro entre Rede TV e Zina (mídia e personagem) não tem nada de casual. A crueldade é tamanha que a mídia vai em busca de personagens como esses todos os dias, existe um interesse desumano em histórias como a de Zina, principalmente nas emissoras de televisão, anciosas em contar dramas da realidade.
Parabéns pelo post. Excelente reflexão.

Verônica Lima disse...

"A tragédia de Zina é real". Não é preciso dizer mais nada. E ser integrado a uma lógica midiática vil, sádica e que faz questão de reforçar preconceitos (de cunho econômico e social) só completa a sua tragédia. Mas tragédia maior é quem consome isso tudo, sem nem perceber o sadismo como estão sendo tratados os seres humanos. Obrigada pelo texto, Pedrones.

guto disse...

Bela análise, Pedro. Que São Jorge realmente proteja o Zina, porque a mídia quer muito mais do que um simples "Ronaldo!".

Sheila Moreira disse...

e ai pedrones, tudo bem? parabéns, sensacional o seu texto. olha só, o Zina mora no jaraguá, bairro vizinho a Perus, onde eu moro. Juro que eu seria capaz de apresentar mais uns dez "Zinas" para a Rede TV! Ele não é um fenomêno, ele é um morador da periferia, parece que o Pânico não entedeu isso. è a espetacularização da pobreza...

Mudando de assunto... vamo toma uma velho barrero com sprite..kkkk... ecaaaaa

Bjus

Pedro Leonardo disse...

André, meu querido.

Você não assite o Pânico? Não perde muita coisa, além da tragédia do pobre Zina. Há gente talentosa ali, como o Ceará e o Carioca, mas como disse no texto, eles fazem um humor mais que duvidoso. Sua descrição sobre o programa está correta. Ainda não consegui assistir o Elogio do amor.

Luiz

Sua descrição também está perfeita. Valeu pela indicação no seu blog (eu postei lá).

Andressa (se importa se eu te chamar de Andressa?)

Casual foi apenas o Zina estar no 'lugar certo, na hora certa'. Afinal, ele podia não ter ido àquele jogo. Mas o Pânico iria à procura de outros Zinas. Obrigado pelo elogio e indique temas para este blog.



Apenas descrevi a sensação que temos ao ver a exploração de mais uma 'tragédia humana'. Pior ainda é pensar que muita gente observa o Zina como mais um personagem do Pânico. Como falamos aquele dia, o coitado nem deve saber que agora é um 'contratado' da Redetv!. É a tragédia real. Obrigado pelo elogio.

Guto

São Jorge é guerreiro e deve protegê-lo. Pois o Pânico não o fará.

Sheila

Eu sabia que ele era da Zona Norte, mas não exatamente de onde. Tem um vídeo no You tube em que o Zina está no trem que vai para Francisco Morato. Acho que todos nós conhecemos vários Zinas. Grato pela atualização e obrigado pelo elogio. E vamos marcar um dia para tomar um Velho?

Anônimo disse...

Qual será o verdadeiro valor do Zina para rede TV?