sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Pelé Santana

Em comemoração dos seus 40 anos, a TV Cultura vem presenteando os telespectadores com o melhor de sua memória televisiva, incluindo também grandes momentos e personagens do esporte brasileiro. Semana passada (28/08), foi a vez de reprisar o programa Roda Viva com o mestre Telê Santana, exibido em 1992.

Não conhecia muito sobre Telê e o que pensava sobre o futebol. Foi ótimo para reviver um pouco daquilo que um dia tivemos. Entre os diversos assuntos tratados, fazendo um apanhado geral, podemos tirar algumas conclusões e dizer que Telê era um sujeito que:

1) não aceitava que um jogador viesse da base sem saber o básico, que era saber chutar, passar, dominar e cabecear uma bola;

2) se envergonhava, por exemplo, ao ver um jogador como Cafu errar um cruzamento jogando pela seleção brasileira, pois se sentia responsável pela formação do jogador;

3) não ficava feliz ao vencer uma partida quando seu time não fazia por merecer (disse que ficaria envergonhado se sua equipe ganhasse uma partida aos 47 minutos do 2º tempo, com um gol de mão, em posição de impedimento);

4) cobrava o bom estado dos gramados para poder cobrar dos jogadores;

5) achava que conseguiu extrair o máximo de Sócrates e Raí;

6) achava que Neto era um jogador de grande qualidade, mas que precisava melhorar;

7) gostaria de ter dirigido a Holanda de 74 (admirava a movimentação dos jogadores que atuavam em qualquer posição);

8) não preferia jogar bonito e perder ou jogar feio e ser campeão;

9) era a favor "de quem sabe jogar, de quem tem técnica";

10) não voltaria a ser técnico da seleção brasileira, pois sofreu demais;

11) perdeu muitos amigos enquanto foi técnico da seleção;

12) ganhou medalha no Uruguai por reconhecimento ao futebol apresentado pela seleção brasileira na Copa de 1982;

13) sentia-se magoado pela falta de reconhecimento dos brasileiros pelo seu trabalho na seleção;

14) não se considerava um "pé frio";

15) se emocionava bastante;

16) não se sentia realizado, achava que ainda faltava muita coisa, queria sempre mais;

Foi possível entender um pouco da mentalidade de Telê. Seu pensamento estava além das vitórias justas ou derrotas injustas. Queria sempre o máximo de seus jogadores e sua felicidade era ver o resultado dos treinamentos convertidos em qualidade para o time. Recordamos claramente dessa qualidade ao rever os jogos da seleção de 82 e da felicidade ao recordarmos o sorriso do treinador após o gol de Raí contra o Barcelona. E por levar o trabalho muito a sério, não foi capaz de perdoar Renato Gaúcho no episódio que envolveu o corte do jogador antes da Copa de 1986, quando a seleção brasileira ficou sem um dos seus melhores atacantes.

A parte mais emocionante do programa foi quando Telê falou de seu desapontamento com o futebol. Pela primeira vez contava publicamente que, ao retornar para o Brasil após a Copa de 1986, seu pai encontrava-se com problemas graves de saúde e veio a falecer. E em uma partida do Atlético Mineiro, já como treinador do Galo, ouviu das arquibancadas que ele havia matado o próprio pai de desgosto. Foi a desilusão de Telê com o futebol.

Definitivamente, não sabemos valorizar e reconhecer o que temos ou tivemos de melhor. Mas aqui fica uma ótima lembrança "produzida" pelo mestre Telê e seus discípulos, que para muitos foi a última expressão coletiva do que costumavam chamar de futebol.





2 comentários:

Andre de Paula Eduardo disse...

Muito bonito, sempre, lembrar do Telê, ainda mais no hodierno momento, de terninho Armani e cabelos pintados. O vídeo aí é uma covardia.
Viu como o Telê sabia das coisas e lia muito bem o futebol de Cruyiff e Neeskens (tão mal-tratado nesse blog boleiro, não obstante os milhares de apelos hehe).
Na verdade, o vídeo aí mostra um Brasil que lembrava algo da Holanda, com a marcação precisa e contra-ataques rápidos.

Abraços!

guto disse...

Mestre Telê. É uma pena não ter sido valorizado o suficiente enquanto estava vivo.