sábado, 31 de outubro de 2009

Gringo

A fala é de tom baixo, o sotaque é carregado. Para um jogador do leste europeu, fala um português excelente. Mas isso não aconteceu de uma hora para outra. Saiu do Estrela Vermelha, da ex-Iugoslávia, para ir jogar no poderoso Real Madrid. Jogou ainda no Sevilla e Racing Santander antes de chegar em terras brasileiras. Chegou e logo se adaptou ao futebol brasileiro jogando pelo Vitória, conseguindo uma quarta colocação no campeonato brasileiro de 1999. Foi para o Rio de Janeiro. Aí, não teve jeito, gostou.

Deján Petkovic, jogador sérvio de técnica apurada, foi o grande nome do time do Flamengo do começo da década. E é o grande nome do time do Flamengo neste final de década. Neste hiato, jogou por outros times brasileiros, como Vasco, Fluminense, Santos, mas sem o mesmo brilho que apresentou no rubro-negro. Podemos nos perguntar por que um jogador sérvio, e agora considerado velho para o futebol, fez e faz sucesso no Brasil. Talvez porque a formação de base dos jogadores brasileiros é fraca, só sabem driblar. Não sabem dar um passe, bater um escanteio, cobrar uma falta, fazer um lançamento. E Pet reina absoluto nestes quesitos. Tem qualidade suficiente para jogar no Real Madrid e desbancar Guti, Drenthe e outros que lá estão. Infelizmente, agora não é mais possível.

Mais interessante que o sucesso de Pet no Brasil é sua trajetória. Dificilmente um jogador europeu sai da Europa para ir jogar em outro continente (e no Brasil!), ainda mais alguém com passagens por grandes clubes. No futebol brasileiro vários estrangeiros fizeram sucesso e podemos lembrar de Pedro Rocha, Figueroa, Darío Pereyra, Fillol, Rodolfo Rodríguez, Rincón, Gamarra, Tévez, todos sulamericanos. Não me recordo de nenhum estrangeiro vindo de outro continente que tenha jogado tanta bola como Petkovic.

Também são poucos os jogadores sérvios que me recordo: Mijailovic, Mijatovic, Savicevic, Kesman, Stankovic. Com certeza, Petkovic poderia ter jogado muito tempo na seleção sérvia, disputado Copas, pois é um jogador diferenciado. No Brasil, são dos poucos que ainda nos fazem assistir partidas para prestar atenção no jogador em si.

Como bom estrangeiro que é, encantou-se pela cidade maravilhosa e por lá pretende continuar. Virou cidadão carioca. Pelo futebol até engana, mas o sotaque não nega: é gringo.


5 comentários:

Andre disse...

Que texto belíssimo, Pedro.
Ainda mais porque o Pet está no meu seleto rol de ídolos do ludopédio. Desde o Vitória da Bahia. Alguém foi mais importante que ele pro Mengão na década? duvido...
Sobre seu talento, Pet é muito mais jogador que Miraitociti, que Estankoviti (os dois referenciais). Mas é um exemplo de que caras com personalidade fazem escolhas Em-Conjunto: se podem escolher entre um time, também optam por um lugar pra morar, por um povo pra conviver. Não é como o jogador brasileiro*, um Keirrison da vida, só pagar que leva. Pet consegue o milagre de não se fazer mercadoria. É muito melhor, hoje, velho, que quase todo o Real (joga numa boa com Kaká, Ronaldo e Benzema).
Confesso que Pet é até igual ou melhor que Bergkamp.
Aliás, talvez melhor que Riquelme, mais objetivo e menos chorão (risos).

Continuo e continuarei a criticar o colOnista Pedro Buriti por sua omissão ao futebol dos Países Baixos. Pois é, ao que parece a súcia do PiG Esportes não se emenda mesmo!!

*Jogador brasileiro: designação genérica para tipos (recentes, de 20 anos pra cá sobretudo)semi-rastejantes que adoram pular da favela pra Ferrari, pra frutífera loura-da-vez e tem obsessão por ganhar da Argentina (merece um estudo psicanalítico). A definição parte, evidentemente, de alguém com terrível preconceito de classe e torcedor do Clube de Regatas Santos Paulista.

Andre disse...

Que maradona que nada.
Futebol-arte é esse aí.

http://tvuol.uol.com.br/#view/id=como-perder-um-gol-04023264CCA96366/user=kzh89dhau3a2/date=2009-10-30&&list/type=tags/tags=138/edFilter=all/time=week/

Roberto disse...

Concordo com vocês... Vi uma matéria sobre o Maxi Lopes... vi sua família (uma mulher bonita, mas que não transparece interesse), um carro magnífico e uma casa sublime... no Brasil... não joga muita bola, mas já esteve no Barça e outros times de destaque. Não possui a soberba dos brasileiros, joga com vontade e não "pipoca" diante de desafios. Longe de compará-lo ao Pet, mas é um jogador que se adaptou bem ao nosso país.


Obs: Gostaria de um comentário seu, Pedro, sobre a possível convocação de Vieri para o Botafogo de Ribeirão Preto...

Andre de P.Eduardo disse...

Vieri no Fogão Ribeirão? que sandice é essa Roberto?

Alias, caro Roberto, quando o Sr. irá disponibilizar ao público amplo seu blogue "Vida do samba", que tem realizado um resgate formidável de memórias do samba dos últimos 218 anos pra cá??? Todos queremos ver... estou cansado de ser seu único fã.

Pedro, massa essa foto tirada lá em São Tomé das Letras, ô sardade!

Luiz disse...

Sotaque da alma é feito bafo de cachaça, reconhece-se o olor que é testemunho de uma sedução. É feito paixão doída ou amizade que não se compensa pelo perdão.