sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Velocidade nas ruas de São Paulo?

Esta semana a Prefeitura de São Paulo anunciou oficialmente que Sampa receberá a primeira etapa da Fórmula Indy em 2010, que ocorrerá em março. O Brasil já tinha sido confirmado no calendário da Indy para o ano que vem, mas ainda pairavam dúvidas sobre a realização do evento. Cogitaram Ribeirão Preto, Salvador, Rio de Janeiro, mas nada concreto, faltou dinheiro. Eduardo Paes, prefeito do Rio, pulou fora na última hora. Já era dado como certo que não haveria prova. Mas eis que chegaram a um acordo os representantes da Indy no Brasil, os donos do grupo Bandeirantes (ou Band) e o prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, para que a corrida aconteça em São Paulo em um surpreendente "circuito de rua".

Por forças contratuais, Interlagos não pode receber uma categoria internacional que não seja a Fórmula 1. E como não há outro espaço destinado à corrida de carros (não estou falando de ‘rachas’) que não seja o bom e velho Autódromo José Carlos Pace, a Prefeitura terá que se virar para arranjar um espaço nas suas tumultuadas ruas e avenidas para abrigar a etapa.

E não se trata apenas de escolher um trajeto de pista para os treinos e corrida. Será necessário fazer toda uma 'remodelação' da área escolhida, fechando vias, rebaixando calçadas, criando zebras, derrubando árvores, montando guard hails, alambrados e arquibancadas, quebrando asfalto velho, fazendo asfalto novo (e desta vez precisará ser decente) e sistema de escoamento de água que funcione realmente, fora a estrutura dos boxes, área de imprensa etc. São só algumas das obras, mas todas estas demandam tempo e são apenas mais três meses até a corrida. E a cidade não vai poder parar para a realização das obras.

Parece coisa mal planejada, de última hora mesmo.
Bem diferente da situação de 1990, quando o Brasil corria sério risco de perder seu GP de F-1 e a ex-prefeita Luiza Erundina* topou o desafio de reformar Interlagos, mas com dinheiro do setor privado. Não se usou dinheiro público.

Pior é imaginar uma única área em São Paulo que comporte o GP. Alguém consegue imaginar um único traçado pelas ruas paulistanas que acomode carros de corrida transitando a 250, 300 km/h? Marginais, Avenida Paulista, 23 de Maio, Radial Leste, Rodoanel, 25 de Março, Rua Augusta? Parece irônico falar de alta velocidade e carros de corrida nas ruas de Sampa. E se for para se prevenir das chuvas, o traçado deve passar longe do Aricanduva e Avenida do Estado.

Seja marketing eleitoreiro, seja lobby da emissora paulista (bandeirante), o fato é que aqueles que já reclamam do trânsito lento e dos intermináveis congestionamentos terão que se preparar para o fechamento de importantes vias por um grande tempo. Para receber a Indy, os paulistanos vão ter que aturar um caos a mais. Creio que a Prefeitura poderia investir melhor o dinheiro que desembolsará para fazer a corrida.

Como deixei São Paulo há tempos, não tenho carro e quando por lá estou sempre utilizo o transporte coletivo, não me incomodo nem um pouco com a Indy. Não sou dos maiores fãs de corridas de carros, tampouco simpatizo com grandes obras viárias que privilegiam o transporte individual, espécie de ‘malufismo’ ainda presente nas campanhas políticas para conquistar o eleitorado paulistano. Não me incomodaria se as ruas de São Paulo fossem remodeladas para a Indy, mas também para os ônibus, táxis, trólebus, trens de superfície. Devo dizer também que não sou contra transporte individual. Adoro bicicletas.


P.S. Deixo a cargo dos leitores o trabalho de imaginar o traçado da pista nas ruas de São Paulo, se isso for possível, claro.


*A deputada federal Luiza Erundina participou dos três dias da 1ª Conferência Paulista de Comunicação, realizada nos dias 20, 21 e 22 de novembro, e é representante titular do Poder Público na Comissão Organizadora da 1ª Conferência Nacional de Comunicação, que ocorrerá em dezembro, em Brasília. Emocionou a todos em seus discursos e foi, com certeza, a campeã de aplausos na etapa paulista. Fica aqui uma homenagem à nobre deputada e ex-prefeita. Sim, São Paulo já teve uma grande representante no poder executivo.

domingo, 8 de novembro de 2009

Allons enfants de la Patrie

O Doutor Sócrates já havia cantado a bola algum tempo atrás: a seleção francesa só conseguiu fazer frente às grandes seleções quando teve um jogador muito acima da média. Que, quando precisasse, jogasse pelos outros dez. Foi assim com Fontaine, Platini, Zidane. O primeiro levou a França a uma inédita terceira colocação na Copa de 1958, na Suécia. Não pode disputar a final porque no meio do caminho tinha uma 'pedreira', com Pelé, Garrincha, Didi e cia. Os outros dois foram além, conquistando uma Eurocopa cada um. Zizou foi mais além, disputando duas finais de Copa do Mundo e conquistando o primeiro título da França em mundiais.

Destes três, sou contemporâneo apenas de Zizou, mas concordo com a tese do Doutor. Fontaine foi o precursor, colocou a França no mapa do futebol, sendo até hoje o maior artilheiro em apenas uma edição de Copa do Mundo. Depois, um vácuo até Platini, craque que disputou duas semifinais de Copa, em 1982, na Espanha, e 1986, no México, mas não deu sorte contra os alemães nas duas oportunidades. Após Platini, um vácuo de duas Copas sem a participação da seleção francesa, perdendo a vaga para a Escócia em 1990 e Bulgária em 1994.

Contudo, surgiu Zidane para recolocar a França novamente na elite do futebol. Foi o maestr
o da seleção francesa campeã do mundo em 1998, campeã européia em 2000, vice-campeã do mundo em 2006. E mesmo que estas equipes contassem com bons jogadores, dependiam de Zizou para conduzir o time, organizar o jogo, ser referência (com certeza, um dos melhores que vi jogar, talvez o melhor). Era o dono do time; sem ele, era dificuldade à vista. Foi assim em 1998, após pisotear um árabe e ser expulso, quando ficou fora de dois jogos da Copa - contra o Paraguai, a salvação veio em um 'gol de ouro' no segundo tempo da prorrogação. Em 2002, com o maestro machucado, eliminação dos campeões do mundo na primeira fase. Nas Eliminatórias da Copa de 2006 a classificação só chegou após Zizou reverter sua decisão de não jogar mais pela seleção.

Que me perdoem Kopa, Giresse, Tigana, Deschamps, Henry, todos excelentes jogadores, mas, se a França hoje é considerada uma potência no futebol, isto se deve ao trio Fontaine-Platini-Zidane. Sem estes, creio que os gauleses teriam conseguido resultados bem mais modestos, talvez nem fossem campeões continentais ou mundiais. E olha que a França ainda conta com jogadores oriundos de suas ex-colônias na África e América para incrementar o elenco (olha o Zidane novamente!).

O fato é que os franceses novamente passam por maus bocados nas Eliminatórias. Para ir à Copa de 2010, a França precisa passar pela Irlanda na repescagem (jogos de ida e volta na próxima semana), pois ficou em segundo lugar em seu grupo, perdendo a vaga direta para a Sérvia (e isso sem contar com o craque Petkovic!). Tenho certa simpatia pela seleção francesa e, assim, vou torcer para que os ótimos Henry e Ribery conquistem essa vaga, joguem estas partidas da repescagem como uma final de Copa, façam uns de seus melhores jogos da carreira, arrebentem mesmo, honrem a tradição desta camisa de Fontaine, Platini e Zidane. Porque a Irlanda.... a Irlanda ninguém merece.


*Abaixo, um pouco dos últimos momentos de brilho de uma seleção conduzida pelo último de seus gênios