quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Fomos surpreendidos novamente

No meio da tarde, chegava-me a notícia de que o TP Mazembe, da República Democrática do Congo (antigo Zaire), ganhara do Internacional de Porto Alegre por 2 x 0 e, assim, pela primeira vez, uma equipe africana se classificava para a final do Mundial Interclubes da FIFA, despachando o favorito time brasileiro. Já tinha sido uma façanha o time congolês eliminar o mexicano Pachuca, que já era dado como adversário certo da equipe gaúcha na semifinal do torneio. São as agradáveis surpresas do esporte. São as situações que nos permitem sair do conforto do pensamento mais simples para conhecer, enxergar, aprender sobre aqueles de quem pouco sabemos ou pouco demos importância durante determinado período.

O TP Mazembe não é tão desconhecido assim. É o atual bicampeão africano e jogou a edição passada do Mundial. No entanto, naquela oportunidade, não ganhou um jogo sequer e saiu do torneio sem disputar as partidas de maior destaque, sem chamar atenção. Ainda era mais figurante que protagonista. De fato, costumamos mudar nossa percepção quando somos surpreendidos, positivamente ou negativamente. No caso do Mazembe, foi necessário eliminar um adversário “mais tradicional” e chegar, pela primeira vez, à final do Mundial de Clubes para que o mundo direcionasse o olhar aos seus jogadores, a sua grande proeza.

Por causa desta maior repercussão, aprendemos diversas coisas sobre o TP Mazembe. Trata-se de um clube bancado por milionários do ramo da mineração daquele país, que possui jogadores com passagens fracassadas por equipes europeias, que vem desbancando o Al Ahly, do Egito, da “supremacia” do futebol africano. Informações que surgem apenas quando novos personagens passam a disputar hegemonia de um processo.

Assisti aos melhores momentos da semifinal, aos dois belos gols do time congolês, à dança do goleiro Kidiaba. Foi uma atuação razoável, sem “encher os olhos”, objetiva, simples. Uma partida que chamou mais atenção pelo seu aspecto simbólico, pelo rompimento com a “ordem” estabelecida.

Guardadas as devidas proporções, de imediato, lembrei da seleção de Camarões na Copa de 1990, de algumas vagas memórias daquele time de camisas verdes, daquele jogo de estréia no Mundial contra os argentinos, que eram os atuais campeões, com o craque Maradona em campo. Aqueles homens de verde eram rápidos, tocavam bem a bola, gostavam de um bom drible e sabiam ser objetivos. Havia um veterano, um tal de Milla, que jogava como um garoto, sorrindo pra bola.

Aqueles homens de verde surpreenderam argentinos, romenos, colombianos, o mundo. Em uma Copa bem “chocha”, os camaroneses viraram a sensação do torneio. Lembro bem da partida contra os ingleses, a que melhor guardo na memória, um jogaço. Os ingleses saindo na frente do marcador, os camaroneses jogando muito, virando o placar, perdendo gols, os ingleses empatando no final, aquela batalha na prorrogação, até o gol de pênalti de Lineker encerrar a participação daqueles valentes homens de verde nas quartas-de-final do torneio. Houve ali uma ruptura. Aquele surpreendente time regido por Milla abriu caminho para que jogadores e seleções da África se tornassem mais conhecidos, mais respeitados. Hoje, com a globalização mais que presente no mundo do futebol, as gerações mais novas talvez não tenham a dimensão do feito de Camarões na Copa de 1990. Um time que rompeu com a antiga ordem do eixo América do Sul-Europa e colocou a África definitivamente no mapa do futebol.

O TP Mazembe também merece reconhecimento pelo seu feito. Quebraram o protocolo e se tornaram protagonistas deste Mundial. De certa forma, a “dancinha” do goleiro Kidiaba representa o mesmo gesto da dança de Milla junto à bandeira de escanteio. Gestos de certa graça, simples, para serem lembrados juntamente com as façanhas de cada um.

domingo, 14 de novembro de 2010

O futebol e o fim de um império

Os tempos de domínio das Organizações Globo na tevê aberta podem estar chegando ao fim. E o fator que pode determinar uma grande mudança nos próximos anos é o futebol. Renato Rovai explica os motivos

Os últimos anos de um império chamado Globo

Por Renato Rovai

Há elementos bastante sólidos para se afirmar que as Organizações Globo estão vivendo seus últimos anos de império e que para breve ela será apenas mais um grupo de comunicação no Brasil. A audiência da TV aberta, que é o carro chefe da emissora vem caindo de forma constante há algum tempo.

Além disso, a Globo tem perdido telespectadores tanto para a concorrência como para a Internet. Os jovens já passam mais tempo no computador do que na frente da TV. Além do que, na Internet a Globo é mais uma. Seu portal não é nem o maior do país.

Agora, há dois novos elementos que são pilares fundamentais do poder da Globo que podem torná-la ainda mais fraca nos próximos anos. O primeiro tem relação com a decisão recente do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cadê) que tirou da emissora a preferência pela renovação dos direitos do Campeonato Brasileiro das temporadas de 2012 a 2014.

A Rede Record está em polvorosa com a notícia. E há apostas de que o grupo do bispo pensa em dobrar o valor pago hoje pelos Marinhos, de 500 milhões ano para 1 bilhão.

Se isso vier a acontecer e a emissora paulista, que já venceu a concorrência pela transmissão dos Jogos Olímpicos de 2012, passará a ter a hegemonia da cobertura esportiva. No caso do Campeonato Brasileiro, se a Record vencer mais essa ela passa a ter condições objetivas de derrotar a Globo no horário nobre.

O melhor horário para os jogos da semana é o das 20h, 20h30. Mas por conta do Jornal Nacional e das novelas, a Globo faz com que eles se iniciem cada dia mais tarde. Antes eram 21h15 e agora já estão começando às 22h. Isso diminui consideravelmente o público nos estádios.

A Globo também só transmite um jogo por semana. Se a Record vier a ganhar o Brasileirão, ela vai fazer exatamente ao contrário. Transmitirá os jogos no horário nobre tanto para poder vender publicidades por um preço melhor, quanto para tirar audiência da sua principal concorrente. E empurrar as novelas para segundo lugar no horário.

Além disso, ao invés de transmitir apenas um jogo por semana, vai tentar fazer o maior número possível de partidas. Ou seja, vamos ter jogos nos canais abertos nas quartas e quintas e talvez em até dois horários nesses dias. Algo como o jogo das 19h e o das 21h. Além disso, o campeonato da série B provavelmente vai ser negociado com alguma parceira, como SBT ou a Rede TV pra ser transmitido nas terças e sextas em horários também nobres. E vão arrancar alguns pontinhos das novelas nos outros dias.

Boa parte da audiência e dos lucros da Globo tem relação com o futebol. Ele é uma das galinhas dos ovos de ouro da emissora. É quem paga boa parte das contas. O núcleo de novelas também é o responsável por uma considerável parcela das receitas e da audiência da emissora. Ou seja….

O segundo elemento que pode levar a derrocada da empresa dos Marinhos ser mais rápido do que o imaginado é que pela primeira vez desde 1964 que há indícios claros de ela não vai ser a toda poderosa do Ministério da Comunicação.

Há muitas articulações tanto no meio empresarial, quanto na sociedade civil e na classe política para impedir que novamente o futuro titular da pasta seja pau-mandado do Jardim Botânico.

Um importante dirigente partidário disse a seguinte frase que resume o animo da tropa governista: “Dessa vez eles perderam mesmo. Quando decidiram apoiar radicalmente o Serra fizeram uma opção. Vão ter o direito sagrado de ser oposição, inclusive no ministério da Comunicação”.

Amém!

sábado, 30 de outubro de 2010

Maradona, 50

Diego Armando Maradona, El Diez, ou "D10s" para os argentinos, completa meio século de vida neste sábado. Certamente, não será um "cumple" dos mais felizes para Diego. Em entrevista concedida ao diário esportivo Olé, Maradona disse que não festejará o que considera "el cumpleaños más triste" da vida porque lhe doi ter perdido o comando seleção.

Maradona viveu e continua vivendo o futebol intensamente. Um bárbaro dentro de campo. Um "hincha" fora dele (foi mais "hincha" do que treinador na seleção argentina). Um legítimo argentino exagerado. Um apaixonado pela bola, que vive a alegria absoluta nas conquistas e a tristeza infinita das derrotas. Alguém que sofreu na vida e passou a sofrer pelo futebol.

Alguém que vive assim tão intesamente também tem seus "infernos", suas loucuras, seus problemas. E não será por isso que o desprezaremos.

Maradona é tudo isso. Um pé esquerdo mágico. É paixão pura. Nunca o compreenderemos.


segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Pelé, 70

Nossa "majestade", o "rei" Pelé completou 70 anos de vida. Não há muito o que explicar. Apenas a admiração, a contemplação daquilo que chegou mais perto da perfeição. Estará para sempre numa categoria à parte, inalcançável, muito distante dos pobres mortais do mundo da bola. Podemos categorizar os bons jogadores, os craques, os gênios, os "deuses", mas Pelé estará sempre num patamar acima, solitário, sendo eternamente a personificação do inexplicável.

Reproduzo abaixo um dialogo interessante do vereador bauruense Roque Ferreira (apanhado do Facebook) numa breve citação sobre o que "significa" Pelé:

- Roque: Pelé... só isso basta.
- Daniel: Foi ministro do FHC, heim? Tudo bem que Orlando (Silva Júnior, Ministro dos Esportes do governo Lula - destaque meu) jogando deve ser uma desgraça, mas foi, heim?
- Roque: Quem foi ministro foi o Edson Arantes do Nascimento. Pelé foi perfeito como jogador de futebol.

Sim, é preciso saber separar os dois, mas não é minha pretensão ficar explicando aqui. Nada melhor que as imagens falando por si mesmas. Pelé não precisa de explicações. Ele é inexplicável.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Há tempos: crônica de um alienado

Não tinha interesse por nenhum time específico. Mas a molecada da escola onde estudava já decidira desde cedo por qual time torcer. A maioria era de corinthianos, os “populares”. Havia também muitos são-paulinos, herdeiros da geração dos “Menudos” e da ótima fase do time do Telê. Alguns raros palmeirenses, que amargavam anos e anos de uma ingrata fila. Santistas eram os mais incomuns, quase um “achado”. Mas ainda não tinha me convencido a seguir por um lado. Gostava da cor azul do Cruzeiro, do craque Denner da Portuguesa, do “vovô garoto” Júnior do Flamengo. Eram muitas as opções. Ficava confuso. Um dia, fui com minha mãe lá no Bom Retiro para tentar escolher uma camisa de time. Já estava na hora de decidir. Voltamos com três camisas: uma do Internacional, uma do Fluminense e uma do Vasco. A decisão fora adiada por tempo indeterminado. Por que as pessoas torciam por apenas um time?


* * *

Até que um dia fiz amizade com um vizinho, o Bruno. Morávamos no mesmo prédio, no Centrão velho, na Boca do Lixo. Ele era corinthiano e tinha um irmão mais novo palmeirense. Eu, ainda sem time. Tínhamos a mesma idade, mas ele era muito mais fanático por futebol do que eu. Ele que me ensinou que os escudinhos dos times deviam ser colados por cima do botão, e não por baixo, do lado que desliza na mesa, como havia feito com todos os meus times. Era meu adversário no jogo de botão, meu parceiro de futebol na Princesa Isabel, no Largo do Arouche, no Liceu Coração de Jesus. Sempre dizia que eu devia torcer pelo Corinthians, tentava me convencer a todo custo. Até que um dia, motivado pela quantidade de corinthianos que havia na escola, disse para Bruno que eu ia “ser” corinthiano. Foi assim, de uma hora para outra, uma decisão rápida. Creio que me tornei corinthiano mais pela amizade dele do que por gosto pelo time, jogadores ou qualquer outro motivo. Foi assim que tudo começou.

De repente, já me via torcendo de verdade. Acompanhávamos juntos os resultados do Timão, que seguia bem naquele Campeonato Paulista. A final seria contra o Palmeiras, da “Era Parmalat”, um timaço com Roberto Carlos, Edilson, Edmundo, Evair. Mas o Corinthians tinha Ronaldo, Neto, Paulo Sérgio, Viola, jogadores de respeito. O primeiro jogo da final não ia passar na tevê, então fomos jogar bola no Largo do Arouche, aproveitar o domingo de sol. Jogamos algumas partidas até que um grito de gol ecoou numa das bancas que vendiam flores ali perto. A molecada toda correu até a banca para saber qual time havia marcado. Disseram que foi gol do Neto. Saímos todos comemorando. Um senhor passou com um rádio colado ao ouvido e gritou “Viola, Viola, Viola”. Afinal, quem marcara o gol: Neto ou Viola? Não demos muita importância e reiniciamos a partida interrompida. Ao voltarmos para casa, descobrimos que o gol foi mesmo do Viola, com imitação de porco e tudo.

O segundo jogo estava marcado para o sábado seguinte. Foi um dia nublado, bem frio. Era Dia dos Namorados, me recordo dos muitos casais passeando, vestidos com as cores do Corinthians. A impressão era de que só havia corinthianos naquela cidade. Era uma festa só. Aguardávamos ansiosos o horário da partida, que desta vez seria transmitida pela tevê. Estávamos confiantes, seria o primeiro título do Timão que eu acompanharia como torcedor. Mas algo deu errado. O time estava nervoso. Henrique foi expulso, Ronaldo também. Depois veio o massacre. Cada gol do Palmeiras era um duro golpe para a gente. Assim como o time dentro de campo, perdemos o rumo, perdemos a esperança do resultado ser revertido. No fim, não conseguíamos nem olhar mais para a tevê. Tivemos que aguentar a comemoração do irmão palmeirense. Foi a derrota mais dolorida de todas que já acompanhei. Foi o meu primeiro contato de torcedor com uma dura derrota. Mas agüentamos firmes, a vida seguia. Um dia ainda comemoraríamos um título.

Poucos meses depois, minha família se mudou de São Paulo. Nunca mais vi o Bruno, seu irmão, sua família. Não tenho a menor ideia de onde ele possa estar hoje. Recordo-me dele nas derrotas ou vitórias do “nosso” time. Saudades do tempo em que eu invertia o lado de colar os escudinhos no botão.


* * *

À medida que meu fanatismo aumentava, eu aprendia mais sobre a história do clube, sobre seus jogadores. Claudio, Luizinho, Rivelino, Sócrates. Sobre a fundação por operários naquele mesmo bairro do Bom Retiro, o tabu contra o Santos de Pelé, os quase vinte três anos sem títulos, a torcida que não parava de crescer, a “invasão corinthiana” no Maracanã em 1976, o movimento da Democracia Corinthiana. Era uma história interessante. Gostava dessa identificação com os setores populares, de também torcer pelo “time do povo”, de estar ao lado dos “sofredores”. Tudo tinha uma base de realidade.

Fui pouco aos estádios. Faltava companhia, um pouco de coragem, dinheiro. A maior das aventuras foi, com certeza, numa final contra o Brasiliense. Eu e um colega de trabalho. O jogo era no longínquo Morumbi, metrô e ônibus para chegar lá, ingressos comprados de cambista para o pior setor do estádio, aquela multidão toda, a polícia descendo o sarrafo naqueles que queriam passar para as numeradas subindo pelo placar eletrônico. O jogo foi bem fraco, 2 x 1. Mas a sensação de estar ali era indescritível. Depois, a sofrida volta para casa, nada de ônibus depois da meia-noite, somente vans clandestinas, itinerários que pouco nos ajudavam. Tínhamos que ir para algum lugar, não tinha jeito. Van até a Praça do Correio e depois mais uma hora “flanando” pelo Centrão até o Tietê. Mais quatro horas esperando, nos contorcendo, naquelas duras cadeiras da rodoviária até o horário da partida do primeiro ônibus para Atibaia. E oito horas da manhã deveríamos bater nosso ponto no serviço. Éramos sofredores mesmo.


* * *

Acompanhava o time pelo rádio, pela tevê, pelos jornais. Fiquei viciado em futebol, tornei-me um torcedor fanático. Convivia entre a alegria, a tristeza, a raiva. Tudo pelo joguinho. Às vezes, pensava que o futebol e o fanatismo me faziam mal. Então, veio a vontade de ser jornalista, movido pelo interesse nas reportagens e colunas do meio impresso, nas jornadas esportivas do rádio, nas matérias da tevê. Gostava de tudo aquilo, achava que poderia fazer igual um dia. O lado profissional poderia “neutralizar” o lado torcedor e, aos poucos, me entregaria a outros conhecimentos, outros gostos. Conheceria outras pessoas, outras paixões.

De fato, encontrei pessoas fantásticas, vivenciei momentos incríveis, conheci coisas novas, adquiri mais conhecimento, mais cultura. Fui “beber em outras fontes”. Foi bom. Mas não sei o que acontece. Quando tudo parece estar tranquilo, quando acho que estou menos envolvido, basta ligar a tevê e ver o time de uniforme alvinegro em campo ou ouvir no rádio a narração acelerada de uma partida do Timão para que eu me transforme, que o coração bata mais rápido, que eu xingue a tudo e a todos, que fique alegre ou com raiva. Não sei de onde vem essa euforia que me paralisa durante noventa minutos. Tudo tão passageiro. Tudo volta ao normal sem que eu perceba. Não sei se há explicação, também não procuro mais por uma.

Talvez essa relação mude daqui a algum tempo. Se o clube um dia conquistar a Libertadores ou tiver seu próprio estádio, pode ser que já não tenha a mesma graça não ser mais tão “maloqueiro” ou “sofredor”. Talvez esse fanatismo que me acompanha há anos se dissolva finalmente. Sim, a história não se apaga, mas as coisas mudam.

Provavelmente, meu palpite estará errado mais uma vez.

P.S. Meu time de botão do Corinthians era idêntico ao da imagem. Acho que até a caixinha era a mesma. Que fim ele teve?

sábado, 7 de agosto de 2010

Carrinhos de outrora

Em nome da segurança dos pilotos, a F-1 foi ficando cada vez mais rígida em seu regulamento, principalmente nos últimos 15 anos, após a morte de Ayrton Senna. Carros e pistas estão cada vez mais padronizados, itens e equipamentos mais seguros. Há regras para tudo, ultrapassagens, uso de pneus, testes dos carros etc. Precauções que foram aumentando com o tempo, afinal, muitas vidas foram perdidas em acidentes trágicos, envolvendo carros que eram verdadeiras “bombas” sobre rodas, em pistas que ofereciam pouca segurança – inclusive aos fiscais e espectadores. São os riscos inerentes ao esporte e os pilotos sabem disso. Aliás, estas circunstâncias também são parte da emoção que os fazem se arriscar nas pistas em alta velocidade. E sabem também que eles mesmos e suas máquinas não são infalíveis. Por essa razão, para reduzir riscos e aumentar a confiabilidade, ao longo dos anos, a direção da categoria baniu circuitos ou obrigou que estes fossem totalmente reformulados. Além disso, as equipes passaram a obedecer critérios mais rigorosos no desenvolvimento de seus projetos.

Tudo bem, segurança é fundamental e ninguém mais quer ver pilotos levando a pior pelos circuitos mundo afora. Contudo, ao assistir a esta F-1 “moderna”, com muito mais grana, com pilotos de pouco carisma e carros um tanto “sem sal”, repleta de regras e normas pra tudo, deixaram saudades os tempos de maior “liberdade” na categoria. De quando pilotos e equipes faziam
a “pré-temporada” em Jacarepaguá, em pleno verão carioca, com pessoas tomando cerveja nos boxes, onde mecânicos e pilotos circulavam sem camisas, dividindo espaço com modelos de biquínis. De quando as equipes tinham liberdade para desenvolver o projeto de seus carros. Tudo era mais precário, é verdade, mas a F-1 também não era esse “show business” atual. Tinha uma aura mais “amadora”.

Para ilustrar esta F-1 “old school”, separei uma imagem bonita, que está no Blog do Flávio Gomes e também no F-1 Nostalgia, de uma corrida com os carrinhos de outrora perfilados. Entre eles a famosa Tyrrell Elf de seis rodas. Carrinhos diferentes de uma F-1 bem diferente.


terça-feira, 20 de julho de 2010

A Copa que se foi e o futebol “pray same”


Um Mundial que começou muito mal, ruim mesmo. Com raríssimas exceções, a primeira rodada foi de nível lastimável, de dar saudade dos nossos campeonatos locais. Aos poucos, foi melhorando, à medida que os times relembravam da necessidade de ganhar ao menos um jogo para conseguir a classificação. E o melhor mesmo ficou por conta de algumas partidas das fases eliminatórias, quando as equipes precisam demonstrar algo mais para superar os adversários, tempos extras e disputas por penalidades (que desta vez foram apenas duas).

Um Mundial sem nenhuma revolução tática, nenhum “supertime”, nenhum jogador fora do comum, ninguém “comendo a bola” pra valer. Tivemos mais decepções e menos surpresas ou revelações. Messi, Cristiano Ronaldo, Rooney não fizeram o que se esperava deles. Fiasco total de franceses, brigados com o treinador e pouco interessados em jogar, e italianos, precisando de uma renovação completa. Seleções e mais seleções frustrantes, mais interessadas em destruir do que construir, contando com o acaso para uma vitória improvável. Boas equipes jogando apenas para o gasto.

Os espanhois foram campeões com o melhor toque de bola no meio de campo (às vezes, muito “de lado”) e um ataque pífio de apenas oito gols. Os holandeses foram vice, com um bom elenco, com um time mais brigador e um futebol sem muito brilho. As maiores surpresas do torneio foram justamente o terceiro e quarto colocados. A Alemanha surpreendeu a todos com um time jovem, muito aplicado, seguro na defesa, fortíssimo no ataque. Uma molecada muito atrevida. O novato Müller foi uma aposta do treinador Löw – uma lição para a “coerência” de Dunga. Recompensou a confiança sendo um dos artilheiros da Copa e escolhido como a revelação do torneio. O Uruguai renasceu entre as grandes seleções do mundo, comandado pelo “maestro” Forlán, também artilheiro do torneio e escolhido como melhor jogador da Copa. Um time simples, que jogou um futebol simples, sem medo, pra frente, como um bicampeão deveria jogar.

Menções honrosas também ao ataque argentino, ao empenho de Maradona (apesar dos jogadores que não levou), aos valentes jogadores paraguaios, ao esforço dos ganenses, à evolução dos norte-americanos. Ao longo do torneio, foram seleções que arriscaram alguma coisa. De resto, algumas boas atuações individuais esparsas, como as do português Coentrão ou do japonês Honda. No mais, equipes negativamente parecidas, com a mesma proposta defensiva, sem ousadia, pouco inspiradas.

Chama atenção essa uniformização do futebol da maioria das seleções, que são taticamente iguais, acovardadas. Seleções que têm na força e nas bolas paradas o meio de sobrevivência. Um nivelamento baseado em muita marcação em detrimento da ofensividade. Não foi à toa que uma seleção como a da Nova Zelândia terminou a Copa sem perder um jogo. Não foi à toa que as seleções européias do “segundo escalão” e as africanas saíram quase todas na primeira fase. Mesmo com alguns bons jogadores em seus elencos, não havia diferenças na postura destas equipes. Uma falsa proposta de equilíbrio que foi logo enterrada quando tiveram pela frente um time mais interessado na vitória, que se preocupava mais em atacar.

Quando penso nessa padronização do futebol, lembro do técnico Joel Santana, quando este era treinador da África do Sul e dava uma entrevista em inglês após um jogo entre sul-africanos e iraquianos que terminou em 0 x 0. Para Joel, os times foram iguais, portanto, “Iraq and South Africa pray same”. No fundo, é isso mesmo. O “pray same” tornou-se padrão. Quase todo mundo está jogando igual, sem atrevimento. O próprio Dunga abdicou de formar uma seleção mais talentosa, baseada naquilo que sempre foi o diferencial do futebol brasileiro. Poderia ter Ganso e Neymar no auge, mas preferiu apostar no mesmo “pray same” das seleções menos técnicas, de muita briga e marcação. Uma pena esses treinadores todos não serem mais ousados. Acabam perdendo a grande oportunidade da vida por terem medo de arriscar, de montar uma equipe mais arrojada, justamente quando o planeta todo para diante da telinha para acompanhar as partidas. Perdem a grande chance de serem lembrados. Título é bom, mas futebol também conta. O mundo todo não deixa de comentar a “Máquina Húngara”, o “Carrossel Holandês” ou o “Brasil de Telê” porque não conquistaram a taça. Afinal, estas equipes tiveram mais méritos que os vencedores daqueles campeonatos.

Não foi a Copa dos sonhos, de futebol vistoso e craques brilhando. Parece difícil sonharmos com um torneio feito com estes “ingredientes”. Além do “pray same”, o Mundial está cada vez mais submetido à lógica do entretenimento, da distração, das câmeras. Jabulani, Mick Jagger, Larissa Riquelme e o polvo Paul dominaram a cobertura do evento. Só uma figura midiática como Maradona para equilibrar a pauta do lado do futebol. Aliás, os jogos são quase um apêndice do evento. Como disse o Flávio Gomes, “e, além do mais, Copa é festa. O futebol é quase detalhe”.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Apuntes da Copa (21) – El colectivo rojo

- Espanha 1 x 0 Holanda – Um time de respeito. Conquistou ainda mais agora. Depois do fracasso em 2006, quando levaram um baile de Zidane nas oitavas, os espanhois se reergueram, foram trabalhando e, pela primeira vez, montaram uma equipe com jogadores que se tornaram protagonistas dos principais clubes da Espanha. Deu certo. Campeões europeus em 2008, continuaram o mesmo trabalho pensando na Copa do Mundo. Atropelaram os adversários nas Eliminatórias, mas fracassaram na Copa das Confederações diante dos esforçados norte-americanos. Ficou a dúvida: será mesmo que vão agora? Foram.

Jogo final causa diferentes reações nos jogadores. Uns se sentem mais à vontade, outros menos. Uns ficam mais alterados, outros menos. O jogo em si foi truncado, fraco, ninguém se destacava, os jogadores estavam bastante nervosos, não conseguiam executar as jogadas, furavam, faltava giz no taco. Jogo estranho, travado, digno da primeira rodada do mundial, quando ninguém queria se arriscar para não perder. Mas era final. Releva-se, em parte. Valia título inédito.

Os espanhois começaram atacando, tiveram ótima chance numa cabeçada de Sergio Ramos, mas logo os holandeses esfriaram o jogo. Aí começou a sobrar botinada pra tudo que é lado. Van Bommel e De Jong pisoteavam os adversários. A arbitragem relevando, péssima, pra variar. Os holandeses cozinhavam o jogo, davam algumas pancadas, chegavam poucas vezes à frente, mas diminuiam o ritmo do time espanhol, que tocava a bola sem concluir as jogadas – esse time não chuta pro gol! Até que deu certo a estratégia. O jogo ficou tenso. Quem fizesse um gol praticamente selaria a vitoria. Os holandeses tiveram o título na mão e nos pés de Robben, por duas vezes, em incríveis arrancadas. Faltou-lhe tranquilidade na definição, esbarrou em Casillas. Os espanhois tiveram a melhor chance com Villa, sempre ele, sempre esperando a rebarba, depois de uma furada do holandês Heitinga. Não deu também. O jogo estava com cara de disputa por pênaltis. Mas ainda tinha a prorrogação.

Os espanhois dominavam as ações, tiveram ótima chance com Fábregas, mas estava duro de sair um gol. Os holandeses já não tinham pernas, o time estava desfigurado. A arbitragem continuava péssima, até escanteio o juiz errava. E lá pela bacia das almas, no bico do corvo, os econômicos espanhois tiveram um contra-ataque iniciado por Iniesta – melhor do jogo -, a bola ficou com Torres, que cruzou errado, pra variar, a bola sobrou com Fábregas, que lançou Iniesta, que fuzilou Stekelenburg. Estava de bom tamanho. Valia o caneco.

A Holanda teve seus méritos ao chegar até a final, ganhando todos os jogos antecedentes. Mas longe de ser um carrossel. Como um todo, os jogadores pareciam mais preocupados em exercer a função tática do que fazer o próprio jogo, dentro da própria qualidade. As peças não se encaixavam direito, não se aproximavam, estavam taticamente prejudicadas. O time havia mudado as características. Sobrava luta, mas faltava brilho. Era um time mais marcador, até decisivo, mas menos ofensivo. Na final, os holandeses estavam nervosos, não conseguiram jogar e ainda perderam as melhores chances do jogo. Poderiam até ser campeões, pois o jogo final não foi lá grande coisa. Seria interessante se voltassem a ser o que eram a partir de agora.

O título ficou nas mãos do time que tem chamado a atenção de todos nos últimos quatro anos. Um time que não possui um jogador de talento diferenciado, um craque que carrega o time, um “virtuoso” (acho que nunca vi um jogador espanhol “virtuoso”). Trata-se de um conjunto de bons jogadores que se completam no campo, que ocupam bem os espaços, que jogam coletivamente. Possuem mais técnica e menos “fúria”. Apesar da “latinidade”, os espanhois não têm aquele “sangue nos olhos”, aquele limiar entre emoção, garra e sofrimento, comuns aos sul-americanos e que costumamos apreciar. Ao mesmo tempo, invejamos o “sangue frio” dos espanhois que, aconteça o que acontecer, não alteram a característica do próprio jogo quando estão com a bola. Sabem ser pacientes, podem passar a partida toda tocando a bola e aguardando a melhor oportunidade. Às vezes, irritantes pela falta de conclusão. Tanto é que, apesar da superioridade no volume de jogo e posse de bola, os espanhois fizeram apenas oito gols nas sete partidas desta Copa, números inferiores aos dos outros semifinalistas (uruguaios, 11; alemães, 16; holandeses, 12). Enfim, os espanhóis souberam jogar como estão acostumados em seus clubes, tiveram um técnico que não atrapalhou, sem “filosofias” ou “ideologias” egocêntricas. Deixou-os jogar do jeito que sabem, sem brilho em excesso, sabendo controlar o jogo. Deu certo. Finalmente, Casillas pôde erguer a taça, mostrar a medalha,
ir ao encontro da jornalista, da namorada, ao vivo, para todo o mundo.

Para fazer uma análise geral do que foi o Mundial é melhor deixar passar este clima de Copa que ainda paira. Mas podemos dizer que foi merecida a escolha do uruguaio Forlán como o melhor jogador do torneio. Foi artilheiro, fez gols bonitos, jogou muito bem, foi o “cérebro” da equipe. Carregou um time totalmente desacreditado e o recolocou entre os melhores do mundo. Uma façanha e tanto.

domingo, 11 de julho de 2010

Apuntes da Copa (20) – Jogo de campeões

- Alemanha 3 x 2 Uruguai – Alemães em terceiro, uruguaios em quarto. Não são os postos que estes semifinalistas certamente almejavam. Afinal, ambos vinham de jogos memoráveis pelas quartas, tinham mais tradição em Copas que holandeses e espanhois. Não foi o suficiente. Mas ficou o reconhecimento pelas duas equipes que surpreenderam neste Mundial. Os germânicos estão quase sempre entre os quatro melhores e mesmo assim enfrentam a desconfiança. Desta vez, levaram um time jovem e que jogou um futebol bonito. Os uruguaios não chegavam tão longe há 40 anos e causaram espanto geral ao estarem entre os semifinalistas. Foram incansáveis em todos os jogos. E o último jogo foi novamente contra os alemães, numa disputa valendo o terceiro lugar, como no México, em 1970. E perderam de novo.

Não dá para fazer muitas análises deste jogo, pois a disposição e o ritmo dos jogadores não eram os mesmos das partidas anteriores. Sempre é um jogo mais aberto, franco, livre. Os uruguaios estavam mais interessados, jogavam pelo orgulho. Afinal, eram 40 anos! Os alemães estavam mais sisudos, ainda abatidos pela derrota frente aos espanhois. Era difícil não se enxergarem como finalistas depois de massacrarem ingleses e argentinos.

Mas foi um jogo bom, movimentado. Não muito técnico, mas cheio de emoção, com jogadores demonstrando muita vontade. Sem melancolia, com exceção de Klose, machucado, que não pode jogar e ultrapassar Ronaldo na artilharia dos Mundiais. Ficou perceptível também que Suárez e Müller fizeram muita falta às equipes nas semifinais. Os alemães começaram bem e fizeram o primeiro gol com Müller, após uma rebatida mal feita do goleiro Muslera no chute de Schweinsteiger. Os uruguaios equilibraram e empataram o jogo com Cavani e, na segunda etapa, viraram a partida num golaço de voleio do craque Forlán. Mas Muslera estava a fim de entregar mesmo e permitiu que Jansen empatasse o jogo. Pintava uma inédita prorrogação numa disputa de terceiro lugar. Porém, no final da partida, Khedira aproveitou uma rebarba na pequena área e, de cabeça, colocou os alemães novamente em vantagem. No último minuto, os uruguaios ainda tiveram uma falta perto da área e a chance da prorrogação inédita. Forlán bateu bem, mas a bola foi no travessão. Uma pena. Mereciam a prorrogação. Mereciam as medalhas também.

No final, foi possível ver os sorrisos dos alemães e o orgulho dos uruguaios. O jogo não valia o título, mas ali estava o reconhecimento pelo trabalho de ambos. Com certeza, os jogadores serão muito bem recebidos em seus países. Os treinadores Löw e Tabárez também. Os alemães saem muito fortalecidos desta Copa, com uma ótima impressão pelo futebol jogado. Esta geração de Özil, Müller, Khedira, Kroos, além dos já mais rodados Schweinsteiger e Podolski, promete para as próximas competições. Já os bravos uruguaios ressurgem para a elite do futebol ao estarem entre as quatro melhores seleções do mundo, à frente dos “badalados” brasileiros e argentinos. Forlán, que figura entre os artilheiros, Suárez, Cavani e companhia merecem nossos aplausos. Depois de passarem anos em Eliminatórias sofrendo e perdendo pontos importantes contra peruanos, venezuelanos e bolivianos, enfim, reconquistaram o merecido respeito. Lembraram ao mundo que são bicampeões do mundo.

No placar, três a dois. Ainda são três títulos para os alemães, dois para os uruguaios. Acima de tudo, um jogo de campeões.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Apuntes da Copa (19) – O mundo dá voltas

- Espanha 1 x 0 Alemanha – O que houve com os alemães dos últimos jogos? Irreconhecíveis, não saíam para o jogo, não se aproximavam, não tabelavam, não chutavam. Pareciam perdidos sem a presença de Müller. Talvez inibidos diante do volume de jogo e do toque de bola adversário. Os espanhois entenderam que só poderiam vencer a partida se sufocassem os alemães, se não os deixassem respirar, se fizessem melhor do que os alemães fizeram até aqui. Assim, não podiam continuar com aquele “futebol de lado” apresentado contra os paraguaios, pouco objetivo, dependente dos arremates de Villa. Mudaram a atitude, saíram da inércia. Tocavam a bola para frente, não davam espaços. Jogaram como um Barcelona. A entrada de Pedro deu outro fôlego ao time, que antes jogava com um a menos com Torres no ataque. Iniesta, Xavi e Xabi Alonso chegavam sempre com muito “apetite” na frente. Eram verdadeiros leões. Furiosos.

Foi um jogo duro, difícil, menos para os espanhois, mais para os alemães, que só demonstravam alguma força em raros contra-ataques. Mas apesar do amplo domínio, a Espanha desperdiçava as oportunidades. O gol só veio na bola parada, num escanteio, num vôo de Puyol sobre os zagueiros. Poderiam ter feito mais gols, o fominha Pedro desperdiçou a melhor chance de todas. Mas fizeram o suficiente para garantir a classificação diante da equipe que era apontada como a melhor do torneio.

Campeões da Europa, os espanhois disputarão a primeira final de Copa. Estão bem próximos, como nunca imaginaram. Uma geração de jogadores muito boa, talvez a melhor que já tiveram. Jogadores estes que deixaram de ser coadjuvantes dos estrangeiros nos principais clubes da Espanha. Hoje, são cortejados pelo mundo todo. E agora sonham com ele.

Mas não podemos deixar de parabenizar os alemães pelos serviços prestados ao futebol nesta Copa. O treinador Löw apostou na renovação, deu chance aos novatos, que não decepcionaram. Jogaram como gente grande. Nomes como Khedira, Özil e Müller vão infernizar muitas defesas por muito tempo. Acho que Löw foi duro consigo mesmo e com o time ao dizer que os espanhois mostraram o limite das possibilidades da sua equipe. A derrota foi dolorida, mas foi porque os alemães realmente estavam jogando o melhor futebol até então. A imagem da desolação de Schweinsteiger reflete o que foi esta semifinal. Como se tivesse levado uma tijolada no peito e olhado para trás. Difícil saber de onde veio o golpe.

Aliás, como as coisas são voláteis no futebol. Os alemães começaram como a “sensação” do torneio, depois perderam para os sérvios e poderiam ter caído na primeira fase. Mas ainda conseguiram se classificar em primeiro, moeram os ingleses e atropelaram os argentinos, que até aquela fase tinham o melhor ataque. Viraram favoritos ao título, o melhor futebol da Copa. Caíram. Os espanhois iniciaram o torneio como favoritos, perderam dos suíços logo na primeira rodada e tiveram que jogar a classificação diante dos chilenos. Classificaram-se em primeiro, mas o futebol apresentado não era lá essas coisas. Fizeram melhor diante dos portugueses, voltaram à inércia contra os paraguaios e ganharam com um gol chorado já na bacia das almas. Contra os alemães, futebol envolvente, vitória e novamente apontados como favoritos e melhores do mundo. O futebol dá voltas, é assim mesmo. Por isso o mundo para pra ver o joguinho.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Apuntes da Copa (18) – Se fueran todos

- Holanda 3 x 2 Uruguai - Os uruguaios lutaram bravamente, não se entregaram em nenhum momento, foram para cima dos holandeses, jogaram como uma seleção bicampeã do mundo deveria jogar. Faltou pouco para conseguirem uma nova prorrogação, outra disputa por penalidades. A grande vantagem dos holandeses estava na quantidade de jogadores capazes de fazer a diferença na partida, enquanto o Uruguai depositava todas as esperanças no craque Forlán, rodeado por 10 esforçados jogadores, tentando equilibrar o jogo na base da raça (tanto que Cáceres quase arranca a cabeça de De Zeeuw ao tentar uma bicicleta).

Os holandeses, pouco inspirados, fizeram por equiparar o certame com os uruguaios. Nada daquelas boas jogadas do jogo contra a Eslováquia, nada daquela firmeza do segundo tempo contra o Brasil. Talvez a pior partida da Holanda nesta Copa. Mas foi tudo muito preciso, certeiro, milimetricamente perfeito para os holandeses. Um “tirazo” de Van Bronckhorst na gaveta (na “forquilha” mesmo), um chute bem no cantinho de Sneijder (com uma ajudinha do bandeira que não marcou impedimento de Van Persie) e um cabeceio perfeito de Robben, no pé da trave. Fizeram só o suficiente mais uma vez. Pelo lado uruguaio, Forlán se esforçou, estava jogando com dores, mas errava a maioria dos passes e lançamentos. Ainda assim fez um gol numa bonita jogada, num peruzaço de Stekelenburg. Quando os holandeses todos já comemoravam a classificação, os uruguaios ainda tiveram forças para diminuir a diferença com Maxi Pereira já nos acréscimos. O Uruguai ainda teve mais três minutinhos para tentar alguma coisa, um sufoco, um lateral batido na área, uma rebarba, mas não foi desta vez. Mais uma final de Copa sem sul-americanos.

Depois de 32 anos, os holandeses voltam a uma final de Mundial. Poderiam ter disputado outras neste meio tempo, tiveram bons jogadores, bons times, muita expectativa. Mas a geração de Van Basten não conseguiu uma vitória sequer em 1990 e a de Bergkamp esbarrou no Brasil por duas vezes. Este grupo atual é, sem dúvidas, um dos melhores elencos deste Mundial. Boa parte deste time de 2010 já estava em 2006, naquela “briga de foices” com os portugueses, e na Euro em 2008, quando atropelaram italianos e franceses, mas foram parados pelos russos. Uma geração que já fez a fama pelos principais clubes europeus nesta década, com exceção de Bronckhorst que é o remanescente dos tempos de Bergkamp. O treinador Van Marwijk preferiu montar um time mais recuado, mais marcador, com pontas não tão pontas. Vale lembrar que os jogadores de ataque da Holanda também não ocupam as mesmas posições em seus clubes. Mas é um time forte, com ótimos jogadores, que não foram brilhantes, porém decidiram as partidas quando foi preciso. Um time que não empolga, mas respeitável por seus jogadores e pelo retrospecto – não perdem desde aquele jogo contra os russos, em 2008. Afinal, elenco serve para isso: ganhar uma Copa.

Mas ninguém sairá deste Mundial com o ânimo mais renovado que os uruguaios. Sim, os mesmos uruguaios que se classificaram para o Mundial lá na rabeta, atrás de brasileiros, argentinos, paraguaios e chilenos. Os mesmos que jogaram uma repescagem sofrida com os costarriquenhos e quase perderam a vaga no último jogo em Montevidéu. Os mesmos que eram apontados como meros coadjuvantes num grupo com franceses, mexicanos e sul-africanos. Nas últimas décadas, os uruguaios se distanciaram muito de brasileiros e argentinos, não conseguiram formar boas equipes e foram perdendo espaço para colombianos, chilenos, paraguaios, equatorianos. Perderam o respeito. Chegaram desacreditados para esta Copa, quando ninguém acreditava que esta equipe poderia chegar à segunda fase. Fizeram mais, classificaram-se em primeiro, eliminaram os franceses, passaram pelas oitavas, fizeram um jogo inesquecível pelas quartas, equilibraram um jogo improvável na semifinal. Nem Eduardo Galeano acreditaria.

Chegaram pensando em uma boa campanha, terminaram sonhando com o tricampeonato. Bonitas foram as palavras de Abreu ao dizer que o terceiro lugar será algo muito importante para os uruguaios. “Graças a Deus, somos uruguaios e não nos conformamos”, disse El Loco, já preocupado com o jogo de sábado e em manter o prestígio dos bicampeões do mundo.

domingo, 4 de julho de 2010

Apuntes da Copa (17) – Adiós

- Alemanha 4 x 0 Argentina – Foi uma sova. Não deu pro cheiro. Os argentinos não resistiram nem três minutos ao poderio alemão. Não houve nada anormal ou diferente no padrão de jogo germânico. Toque de bola, por vezes parecem estar desinteressados e, quando o adversário vacila, vão lá na frente e não perdoam. Foi assim com australianos, ingleses e argentinos. O placar não foi nenhum absurdo, afinal os alemães estão bem precisos neste Mundial. Jogam bem e goleiam ou jogam mal e perdem. Ontem foi dia de goleada, dia bom.

Difícil pensar em um destaque ou no melhor jogador desta equipe alemã. Não há um talento diferenciado, um supercraque, um Matthäus, um Klinsmann. Há uma nova geração de jogadores bons que se completam. Quando alguém não está bem, algum outro aparece não se sabe de onde e preenche a lacuna. Paulo Miklos Özil estava apagado, mas havia Müller, Podolski, Khedira dando combate e abrindo espaços na defesa adversária. Schweinsteiger desarmando, indo à frente, tocando, fazendo as jogadas. Klose sempre debaixo do gol para empurrar a bola para as redes e agora somente um tento atrás de Ronaldo como artilheiro maior dos Mundiais. Um time muito equilibrado, que até deixa o adversário jogar, mas não se descontrola e dita o ritmo da partida. Sabem ser letais quando o outro time dá espaços demais, como foi a desordenada seleção de Maradona. Depois de ganhar dois clássicos, só pedreira mesmo, vão com todo favoritismo para as semifinais diante dos espanhois. Não há segredo neste time alemão. Eles jogam é bola, nada mais.

Quanto aos argentinos, nova desolação, ainda mais do modo como foi, tomando um vareio de bola. Era um ótimo ataque jogando contra um ótimo time. O ataque poderia até ter triunfado, afinal, era “o ataque”, mas os da frente precisariam jogar pelo time todo, o que não ocorreu. Messi sucumbiu diante da marcação alemã. Maradona até tentou montar um time, mas o fez de modo desequilibrado, pois o “peso” estava todo na frente. Contra seleções fracas, só os atacantes eram o suficiente para resolver o jogo, mas diante de uma seleção forte precisaria de todo um time. Perante os alemães, necessitaria de jogadores para gastar a bola, segurá-la, ter maior posse, sem afobação, como as equipes argentinas estão acostumadas a fazer. Nesta hora, faltou a tranqüilidade de jogadores como Zanetti, Cambiasso, Riquelme, para “esfriarem” a molecada alemã e ditarem o ritmo do jogo.

Nem Tevez, nem Higuaín. Tampouco Messi, de quem se esperava muito mais. O destaque argentino desta Copa foi mesmo Maradona e sua devoção à equipe, imagens muito bonitas mesmo. Pode ter faltado time ou uma resposta imediata do técnico no momento decisivo, mas os argentinos nunca devem ter recebido tanta confiança como receberam de Maradona. Por vezes, podia até soar piegas, mas era algo totalmente legítimo, era aquilo que Diego tinha de melhor para oferecer, seu apego, seu carinho com cada um antes, durante e depois das partidas. Um sentimento de torcedor mesmo, de quem vive intensamente o futebol, de alguém apaixonado pela bola, de um argentino exagerado, que externa toda sua alegria, que sofre de verdade. Os alemães, provavelmente, nunca vão entender o que é ser um hincha.

- Espanha 1 x 0 Paraguai – Por que simpatizamos com uma seleção que há três jogos não marcava um gol sequer? Que apesar de possuir bons jogadores na frente prefere apostar tudo na defesa? Não, também não é por conta da Larissa Riquelme. Jogo com paraguaios em Copas do Mundo virou sinônimo de sofrimento, de drama, de entrega dos jogadores, de gente se sacrificando ali no gramado, do time pequeno tendo a oportunidade da vida contra o time grande, da lembrança de Gamarra. O Paraguai é garantia absoluta de jogo emocionante em Mundiais. Contra os espanhois o roteiro foi o mesmo: jogavam contra um time melhor, mas marcaram muito, não davam espaços, não deixavam o adversário chegar à área e ainda arriscavam alguns contra-ataques. Os espanhois tocavam a bola, tocavam de volta, tocavam de novo, tocavam para frente, para trás e nada. O “tik-tik” de Xavi, Xabi Alonso e Iniesta não surtia efeito. E os paraguaios dando o sangue, tiveram um gol de Valdez anulado, o script reservava algo mais sofrido, dolorido.

Na segunda etapa, os paraguaios tiveram a chance de suas vidas, no pênalti cometido por Piqué em Barreto. Cardozo teve a bola do jogo aos seus pés, a chance de mandar os espanhois para casa, de colocar o Paraguai entre as melhores seleções do mundo, de fazer o que brasileiros e argentinos não conseguiram. Mas Cardozo bateu mal a penalidade, nos braços de Casillas. O futebol conspirava pela emoção. No lance seguinte, o paraguaio Alcaraz fez pênalti em Villa. Emoção. Xabi Alonso anotou, o juiz mandou voltar, Xabi Alonso bateu de novo, Villar defendeu, fazendo os paraguaios sonharem novamente. Os espanhois avançavam mais, criavam chances perigosas e os paraguaios lutavam bravamente, eram só coração. Jogo que certamente teria prorrogação, pênalti. Mas eis que Iniesta partiu em uma arrancada espetacular, tocou para Pedro, que chutou na trave. E na rebarba quem estava lá? Villa, artilheiro e pegador de rebotes. Foi sofrido, um gol chorado, a bola bateu nas duas traves.

Os espanhois seguem, jogando um “futebol de lado”, mas seguem. Possuem talentos e um goleador. Vão precisar mais do que nunca deles contra os alemães. Os paraguaios novamente foram eliminados em um jogo dramático. Chegaram longe, devem ter enchido Cabañas de orgulho. As lágrimas de Cardozo no final do jogo são as lágrimas de todos. Dos paraguaios, de Larissa, dos sul-americanos e dos inúmeros simpatizantes angariados mundo afora nos últimos doze anos.

sábado, 3 de julho de 2010

Apuntes da Copa (16) – O time que virou suco

- Holanda 2 x 1 Brasil – Foi mais ou menos o que havia dito anteriormente. O jogo contra os chilenos não servia como parâmetro. Tanto foi assim que os brasileiros jogaram o primeiro tempo contra os holandeses de modo mais intenso e fulminante do que contra o time de Bielsa. Sejamos justos, pois, na primeira etapa, o time brasileiro marcou muito bem os holandeses, teve ótimas chances de gols, perdeu alguns, fez um, após passe longo e preciso de Felipe Melo e conclusão de Robinho. Domínio total brasileiro, não deu chance ao adversário, parecia fácil, talvez o mais fácil dos jogos até aqui.

Na segunda etapa, o jogo mudou, o fogo apagou, todo mundo errou, Julio Cesar falhou, Felipe Melo surtou, o futebol brasileiro declinou e o time laranja aproveitou. Os holandeses foram com tudo para cima dos brasileiros e conseguiram o empate após cruzamento de Sneijder e vacilação dupla de Felipe Melo e Julio Cesar. Gol contra do volante. Os brasileiros se complicaram, perderam a cabeça, não conseguiram demonstrar reação quando foi preciso. Faltaram opções no banco, faltou uma resposta do treinador. Os holandeses passaram a dominar o jogo, tocavam melhor a bola, criavam mais e os brasileiros não viam a cor da redonda. Robben, Van Persie e Sneijder davam canseira na zaga brasileira e os holandeses viraram o jogo após escanteio dado de graça por Juan. Sneijder, que nunca tinha marcado um gol de cabeça, fez o seu e deu tapas na testa. Depois, foi um chocolate só dos holandeses. Finalmente, Felipe Melo teve mais um momento de fúria: pisoteou Robben, foi expulso e terminou de afundar a nau brasileira. No fim das contas, sobrou futebol aos holandeses, que enfrentarão os intermináveis uruguaios na semifinal, e faltou uma série de coisas aos brasileiros, das quais falaremos um pouco agora.

Como dissera o doutor Sócrates, Dunga e o estilo de jogo desta seleção não representam o que é na essência o futebol brasileiro. O treinador brazuca preferiu armar a seleção com a sua “cara”, apostou forte em jogadores marcadores, fez um time “pegador”, sem estrelas, com alguns talentos entre eles e favorecido pelos “números” obtidos nestes quatro últimos anos. Não foi uma seleção dos melhores jogadores, mas sim uma relação de atletas de confiança elegidos pelo treinador, supostamente “comprometidos” com essa “filosofia”, dispostos a ganhar a qualquer preço, um grupo fechado, um time de “guerreiros”, como dizia a propaganda. Na verdade, um time pouco brasileiro, forte defensivamente, pouco imaginativo e sem inspiração na frente.

Uma seleção que praticamente abdicou do talento e achou que só o grupo fechado seria o suficiente para avançar nesta Copa, mas bastou aparecer um time bom pela frente, melhor tecnicamente e disposto a jogar, para o Scratch brasileiro “comprometido” se esfarelar. Após o empate holandês, o time brasileiro não ia mais ao ataque, perdia todos os rebotes, errava tudo, fazia jogadas medonhas, os zagueiros batiam cabeça, o treinador se desesperava e não sabia mais o que fazer, pois não tinha nenhuma sacada, nem boas opções no banco. Felipe Melo era o retrato da mudança do time: começou bem, mas passou a errar demais, se perdeu e, descontrolado, enterrou o time de vez. O retrato da mediocridade de um time sem reação. E não adianta colocar a culpa no Mick Jagger.

A derrota brasileira em 1982 serviu de argumento para a descaracterização do futebol brasileiro, da passagem do “futebol arte” para o futebol “competitivo”, marcador, tático etc. Nesse meio tempo, tivemos talentos, craques, Careca, Bebeto, Romário, Rivaldo, Ronaldo. Alguns foram campeões, outros não. As seleções nunca foram uma unanimidade. Desta vez, optou-se pelo comprometimento em detrimento do talento, da genialidade, do impensável. Um fiasco. Dunga quis transformar a equipe brasileira em algo comportado, pragmático, com o futebol em segundo plano. E o seu time virou suco. De laranja.

- Uruguai 1 (4) x (2) 1 Gana – Loco, y cómo fue! Assim poderão dizer os uruguaios sobre “Loco” Abreu, a penalidade cobrada por ele, a derrota iminente no final da prorrogação, a mão salvadora de Suárez (não, ele não era o goleiro) e sua expulsão, o pênalti batido no travessão por Gyan. Um jogo de Copa do Mundo mesmo. Os times em si não jogam um futebol brilhante, mas brigaram, lutaram, arriscaram, chutaram, tentaram até o final. Nestas fases, sempre fica uma ponta de pena pelos eliminados na prorrogação e nas penalidades.

Não sei o que acontece, mas parece regra os ganenses jogarem bem o primeiro tempo, mal o segundo e, pelo vigor físico, irem pra cima do rival na prorrogação. Conseguiram a vantagem num chutaço de Muntari no final da primeira etapa – a bola pegou uma curva danada. Os uruguaios voltaram mais interessados no segundo tempo e conseguiram o empate numa falta cobrada por Forlán – e a bola pegando curva de novo.

Chances perdidas de ambos os lados e o jogo foi para a prorrogação, aquele drama todo, os ganenses estavam mais inteiros, os uruguaios jogando aquela “Libertadores da América”, até que, no último minuto da prorrogação, uma bola alçada na área uruguaia, uma saída errada do goleiro Muslera, a bola sobrou para o ganense Appiah chutar, Suárez tirou em cima da linha, Asamoah cabeceou para o gol e só restou a Suárez colocar a mão na bola, apelar, era o último minuto, valia vaga. Foi expulso, saiu chorando. Gyan já tinha feito dois gols de pênalti nesta Copa, tinha a classificação aos seus pés. Mandou a bola no travessão e fez os uruguaios renascerem. Nos penais, Muslera defendeu duas cobranças dos ganenses. Só faltava ele, Loco Abreu para a cobrança. Cléber Machado falou: “será que ele é tão louco e vai dar a cavadinha?”. Certamente, o goleiro Kingson não acompanhou muito o Campeonato Carioca. Abreu foi para a bola, o goleiro caiu para o canto, El Loco meteu uma cavadinha e saiu pro abraço.

Suárez virou heroi. Jogo emocionante e os uruguaios seguem firme. Loco, y cómo fue!

terça-feira, 29 de junho de 2010

Apuntes da Copa (15) – Instinto coletivo

- Holanda 2 x 1 Eslováquia – Se estamos falando de instinto coletivo, o que Robben estaria fazendo aí sozinho? É que o jogador era a “peça” que faltava para fazer o time holandês se soltar um pouco mais. Só um pouco mais mesmo. Mas o time é outro com a presença de Robben, se movimenta mais, se aproxima mais, chuta mais. Robben anotou o seu, Sneijder também, não tiveram grandes preocupações defensivas durante o jogo, a não ser no finalzinho. Os eslovacos até que tentaram, mas faltou time para enfrentar um europeu bem melhor que a Itália. Mas cumpriram bem a meta, chegaram as oitavas, mandaram um belo “va fanculo” aos italianos e, por enquanto, ainda têm um dos artilheiros da Copa. Aliás, sensação estranha deve ter tido Vittek ao cobrar o pênalti, fazer o gol e, de imediato, ver o juiz encerrar a partida. Não deu tempo nem de pensar. E os holandeses terão novamente os brasileiros pelo caminho. Sempre jogos disputadíssimos, históricos. Mas para ganhar do Brasil, mesmo tendo um dos melhores elencos do campeonato, vão precisar colocar um pouco mais de sangue nesses olhos, vibrar um pouco mais. Robben é um ótimo alento. Esse rapaz dá um bom suco.

- Brasil três, Chile nada – os chilenos podem jogar umas cem partidas seguidas com os brasileiros e a chance de conseguir um resultado positivo ainda será menor que zero. Não adianta Bielsa fazer aquelas caras todas. Esses são fregueses convictos. O melhor adversário possível para o estilo de jogo da seleção de Dunga. Marcam pouco, dão espaços, perdem a bola toda hora na intermediária, erram muito. Resultado: vitória fácil, sem maiores surpresas aos brasileiros, jogando um futebol simples, sem muita onda, só o suficiente mesmo. Não dá para avaliar muito a seleção brasileira depois de um jogo contra o Chile. Jogando mal ou bem, vence quase 100% dos confrontos, muitos por fáceis goleadas. Se o Brasil perdesse para o Chile é porque precisaria trocar todo mundo mesmo. Mas o Brasil vai indo, no ritmo do treinador, com um conjunto forte, sem estrelas, sem muito brilho, levando poucos sustos. Robinho marcando o seu, Fabiano sempre atento, Dani Alves melhor, Ramires estava muito bem, mas levou amarelo e está fora do próximo jogo (quem será o novo volante nesse revezamento todo?). Agora um novo reencontro com os holandeses, um jogo pra valer mesmo, jogo de cabra bom. Porque contra os chilenos é covardia. Pode jogar com uns dois, três jogadores a menos que eles não ganham.

- Espanha 1 x 0 Portugal – Parecia que ia ser um jogão pelos primeiros minutos. Faltou darem continuidade. Mas, pela primeira vez, o tão falado conjunto espanhol compareceu – sim, mas na segunda etapa. Iniesta chegando, Xavi conduzindo, Xabi Alonso dando aquele suporte, Sergio Ramos ganhando todas, todos sem ficar só trocando passes, cozinhando o jogo. E Villa fazendo gol novamente. Parece que é só ele que faz mesmo. Os espanhóis não deram chances à turma de Cristiano Ronaldo, que só conseguiram jogar na primeira etapa. Depois, foram anulados por completo. Portugal tem um time bom e CR7 deveria ter chamado a “responsa”. Poxa, é Copa! Mas não assustou mesmo, saiu-se melhor nos telões dos estádios – até os telões esperavam algo mais. Os espanhóis seguem e terão pela frente os impávidos paraguaios. Jogo duro, os espanhóis são favoritos, mas precisarão fazer os gols que vêm perdendo. E como perdem! Ainda há tempo.

- Paraguai 0 (5) x (3) 0 Japão – Jogo sofrido. Os japoneses jogaram enquanto tinham velocidade. O “turbo” acabou, precisaram mostrar um pouco da técnica e deu para ver que não tinham muita. Os paraguaios tinham mais controle do jogo, uma técnica mais apurada, mas, como sempre, preferiram não arriscar muito. No geral, jogo pegado, disputado, com algumas chances de gol de ambos os lados, mas faltou vontade. Vontade de ganhar logo, pois parecia que os dois times já estavam aguardando os pênaltis desde o começo. Nos quesito penalidade, paraguaios irretocáveis, Komano mandando a bola no travessão. E, pela primeira vez, o Paraguai avança às quartas. Vão dar um trabalho danado ao time espanhol, pois sabem segurar um jogo como ninguém e, às vezes, até esquecem que tem uns bons atacantes lá na frente, ao contrário de outras épocas quando só tinham bons defensores. Logo me lembro de 1998, daquele duelo contra os franceses, sem Zidane, suspenso por ter pisoteado um saudita, aquela luta dos paraguaios para rechaçarem as bolas, os franceses não conseguiam criar jogadas, aquele Djorkaeff não jogava nada, os paraguaios resistindo, Gamarra jogando muito com o ombro machucado, até que Blanc encontrou o caminho das redes naquela prorrogação e eliminou os paraguaios no Golden Goal. Mas o Paraguai está aí novamente. E com uma torcida vibrante.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Apuntes da Copa (14) – Erros, shows, tradição e mudanças de comportamento

De trás para frente.

- Alemanha 4 x 1 Inglaterra – Não adianta ficar reclamando da arbitragem.
O juiz e o bandeira não viram o tanto que a bola entrou no chute de Lampard? Não. Erro absurdo? Sim. A Inglaterra poderia almejar algo mais? Talvez. Mas é assim mesmo, arbitragens não são infalíveis e a juizada costuma vacilar de vez em quando. Sorte para uns, azar para outros. E os alemães, no geral, foram muito melhores que os ingleses. Schweinsteiger marcando e saindo para o jogo, Müller e Podolski jogando certinho, Klose, como sempre, incomodando lá na frente e pegando as rebarbas, o garoto Paulo Miklos Özil, “sul-americanamente”, enfileirando os rivais - talvez seja a grande revelação desta Copa. O próprio Gerrard admitiu que os alemães estavam impossíveis. Se os ingleses tivessem se esforçado um pouquinho mais na primeira fase, teriam evitado o confronto precoce com os alemães. Voltarão para casa de cabeça cheia, com o sentimento de terem sido atropelados por um trem e com um gol absurdamente não marcado entalado na garganta. Mas é assim mesmo, afinal, já ganharam uma Copa com um gol que não foi. Os alemães são sempre assim, vão de mansinho, parecem não estar interessados no jogo, mas chegam lá e abocanham. A diferença é que agora há jogadores talentosos em maior número que os tradicionais tanques, como o desengonçado reserva Mario Gomez. Vão ter os argentinos novamente pela frente. Pelo que vêm jogando, ambos, alemães e argentinos, mereciam mais que só uma quartas-de-final. É assim mesmo, acontece.

- Argentina 3 x 1 México – Não adianta ficar reclamando da arbitragem. Foi impedimento escandaloso no primeiro gol de Tevez? Foi. O bandeira quase voltou atrás na marcação quando viu o lance no telão? Sim. Mas o que os mexicanos podiam fazer diante do fantástico ataque argentino? No mínimo não facilitar as coisas, como Osório fez no lance do gol de Higuain. Quando estão com a bola, Messi, Tevez e Higuain são impossíveis. Não foi uma boa partida tática dos argentinos, mas quando foi preciso decidir não falharam. Tevez estava inspiradíssimo, pressionou e atacou muito, fez um golaço-aço-aço e foi injustiçado por Maradona ao ser substituído. Higuain, goleador, Messi, só parado na falta, um espetáculo. Desta vez, a zaga argentina foi testada e levou susto a todo momento. Mas venceu o melhor, indiscutivelmente. Agora vem o clássico com os alemães, um jogaço de campeões, um duelo digno de final, mas pelas quartas. Mas é assim mesmo. Aos mexicanos fica a dica: não deixem mais os argentinos chutarem de fora da área. E aconteça o que acontecer, todos os olhos do mundo estão em Maradona.

- Uruguai 2 x 1 Coréia do Sul – E olha o Uruguai aí! Num jogo molhado, os uruguaios se mostraram mais técnicos e dominaram as ações do jogo. Com aquele aguaceiro caindo, não dava para os sul-coreanos jogarem em velocidade. Aí faltava técnica. Melhor para os uruguaios, que tocavam melhor a bola e chegaram à vitória com dois gols de Suárez, artilheiro da Celeste. Depois de 40 anos, os uruguaios voltarão a disputar uma quartas-de-final. O time chegou à África do Sul como o pior sul-americano das Eliminatórias, desacreditado, como provável eliminado num grupo com França e México. Mostrou força, garra, disposição, honrando a tradição das equipes de 1930 e 1950, renascendo para o futebol, lembrando a todos que são bi-campeões do mundo. E que tem camisa. Bonita, é verdade.

- Gana 2 x 1 EUA – A África segue. Sofrido, dramático, na prorrogação, mas os ganenses tiveram mais fôlego que os estadunidenses nos cento e vinte minutos. O time ganense estava mais solto, mais leve, menos afobado e marcou um gol relâmpago com Boateng. Os favoritos norte-americanos parecem só saber jogar no segundo tempo, quando empataram o certame com um gol de pênalti de Donovam. Depois, muitos lances foram perdidos pelos americanos e os ganenses conseguiram arrastar o jogo para a prorrogação. E no tempo extra não dá para esperar muito de tática, técnica, toque de bola, só coração na ponta da chuteira. E num balão da zaga ganense para o ataque, o “inderrubável” Gyan mostrou toda sua força após a trombada do zagueiro norte-americano Bocanegra e fuzilou o goleiro Howard. E os ganenses seguem, terão os bravos uruguaios pela frente e pretendem mostrar ao mundo que não vivem só de torneios sub-20. Vão na onda do artilheiro Gyan, o craque da camisa número 3. Número 3? Tudo bem, mas nunca vi artilheiro com a camisa 3. E fim da linha para os norte-americanos, que, aos poucos, vão se animando e mostrando ao mundo que futebol não é só coisa para meninas.

sábado, 26 de junho de 2010

Apuntes da Copa (13) – Patrícios

- Brasil 0 x 0 Portugal – Futebolzinho medíocre dos brasileiros. Futebolzinho acovardado dos portugueses. Do lado brasileiro, Lúcio louco (pleonasmo) para entregar o jogo e achando que é Beckenbauer, Felipe Melo trocando “gentilezas” com Pepe, Gilberto sem acertar um passe, Dani Alves sem acertar um escanteio, Batista em nível neozelandês, Michel Bastos, deixa pra lá. De bom mesmo, apenas a participação de Nilmar no primeiro tempo. Parece que não tem jeito, contra times fechados os brasileiros ficam sem saber o que fazer. Aos portugueses faltou objetividade, mas tiveram as melhores chances do jogo. Se tivessem um pouquinho mais de ousadia, poderiam ter vencido o nada inspirado time brasileiro. CR7, apesar da forte marcação brasileira, é quem mais levava perigo pelo lado português. Depois, também pensando no resultado, desistiram de atacar. E o jogo ficou lamentável. Com exceção de Nilmar, todos os outros reservas foram muito mal, não demonstraram que possuem condições de substituir os titulares. Na próxima fase, portugueses farão o clássico contra os espanhóis e os brasileiros pegarão os fregueses chilenos. O Brasil de Dunga segue o exemplo do de Parreira em 1994. Joga pro gasto, não leva muitos sustos e é extremamente dependente da individualidade dos jogadores. E assim vai indo.

- Costa do Marfim 3 x 0 Coreia do Norte – O melhor time africano vai embora pra casa. Muito melhor que nigerianos, camaroneses, sul-africanos, argelinos e os classificados ganenses, só não precisam bater tanto. Precisavam ganhar de uns 10 x 0 e torcer para uma derrota portuguesa. Não deu. Quem sabe numa próxima oportunidade possam cair num grupo mais fácil, sem argentinos, holandeses, brasileiros, portugueses. Aos norte-coreanos, uma honrosa 32ª colocação.

- Espanha 2 x 1 Chile – Não sei, mas esse time espanhol ou é muito confiante ou muito frio. Mas é um time muito técnico, com volantes e meias excelentes, e deu conta do recado contra os valentes chilenos. Villa, aproveitando uma bobeira do goleiro chileno Bravo, e Iniesta fizeram os gols espanhóis. Millar descontou para os chilenos, que agora terão novamente os brasileiros pela frente. Vão ter que jogar muito, já que Batista e Josué não estarão em campo para facilitar as coisas. Os espanhóis terão que correr um pouco mais para enfrentar os portugueses. Ainda falta “fúria”.

- Suíça 0 x 0 Honduras – Chega, né.

Apuntes da Copa (12) – O campeão voltou, literalmente

Antes tarde do que nunca. Mais análises dos certames passados:

- Eslováquia 3 x 2 Itália – Não teve jeito. A pior Itália dos últimos tempos se foi. E já vai tarde. Não dá para ficar lamentando muito por este time que sequer conseguiu ficar à frente do placar em nenhum jogo, nem contra os esforçados, mas fracos, eslovacos. Vittek fez a festa com dois gols e se tornou um dos artilheiros da competição. Os italianos só melhoraram com a entrada Pirlo e Quagliarella, que fez a jogada do primeiro gol italiano e ainda marcou um golaço nos descontos. O perna-de-pau Pepe ainda perdeu a chance de levar o jogo para a prorrogação. Os eslovacos seguem, mas não devem ter lá muitas chances contra os holandeses. Os italianos, por sua vez, depois da paulada que levaram, precisarão encontrar um novo caminho, buscar novos atletas, trabalhar uma nova geração, pois não possuem mais zagueiros, meias e atacantes bons como tiveram em outros tempos. A Inter de Milão é o maior sintoma dessa carência, pois há cinco anos domina o futebol italiano e não possui um jogador italiano sequer no time titular. Terão quatro anos para repensar o fiasco.

- Paraguai 0 x 0 Nova Zelândia – Já pensou se a Nova Zelândia vencesse o Paraguai? Terminaria na primeira colocação do grupo, situação a princípio inimaginável. Mas faltou qualidade para tentar alguma coisa contra o arrumado time paraguaio, que jogou o suficiente para garantir o empate e a primeira colocação. Se forçasse um pouquinho só, os paraguaios venceriam fácil, mas preferiram se poupar para a fase seguinte – vão ter que gastar o fôlego contra os aplicados japoneses. Os neozelandeses fizeram um bom papel, dentro das limitações do elenco quase amador. Saírem invictos é quase um título para eles. Basta lembrarmos que os neozelandeses ficaram à frente dos últimos campeões. Jogaram muito. Faltou o haka.

- Japão 3 x 1 Dinamarca – Os dinamarqueses não conseguiram segurar o aplicado time japonês. Foram para cima, mas vacilaram bastante. Os japoneses conseguiram anotar dois inéditos gols de falta, em boas cobranças de Honda e Endo. O viking Tomasson ainda descontou numa rebarba da penalidade mal cobrada por ele mesmo. Mas o gol de Okazaki terminaria com a esperança nórdica. Os nipônicos seguem e terão pela frente os valentes paraguaios. Uma pena a desclassificação dos dinamarqueses, pois, junto com o time, a torcida também vai embora.

- Holanda 2 x 1 Camarões – Holandeses e camaroneses fizeram só um amistoso. Van Persie e Huntelaar anotaram para os holandeses e Eto’o descontou para os camaroneses, na despedida dos leões. Sem mais o que comentar, a não ser a volta de Arjen Robben, o grande alento holandês para as fases seguintes. Em 17 minutos, jogou mais que muito holandês nos outros jogos e é certeza de melhora para o ataque. Como diria Silvio Santos, “aguardem”.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Apuntes da Copa (11) – Yes, we can!

- EUA 1 x 0 Argélia – A situação não era das mais difíceis para os norte-americanos: vencer a débil Argélia para garantir a classificação. Os ianques estavam tão à vontade no jogo que perdiam gols inacreditáveis. Contudo, o gol não saía, o tempo passava, o desespero aumentava, os torcedores se contorciam nas arquibancadas, o drama crescia, a Televisa já preparava o roteiro e os EUA iriam embora para casa invictos, com três míseros empates na bagagem. Quando tudo já parecia perdido, lá pela bacia das almas do segundo tempo, Donovam pegou uma rebarba do goleiro argelino M’bolhi e garantiu a festa ianque e de Bill Clinton, a tristeza de Glenn Beck da Fox News e a classificação norte-americana para as oitavas. Os argelinos ficarão sem comentários mais uma vez. Já os EUA enfrentarão Gana na próxima fase. Os norte-americanos vêm dando trabalho às grandes seleções do soccer e, por conta dos cruzamentos das chaves, podem ir longe nesta Copa. Mas ainda precisam aprender muito sobre o jogo com as mulheres, estas, sim, grandes vencedoras naquele país (yes, she can!).

- Inglaterra 1 x 0 Eslovênia – Os ingleses finalmente mostraram um pouco de futebol, esporte que dizem ter inventado ou organizado as regras. Gerrard e Lampard apareceram, Rooney estava mais disposto, mas foi só um golzinho michuruca de Defoe que deu a vitória aos ingleses. Tudo bem, tiveram outras chances, mas por terem marcado apenas dois gols nesta fase, terão que enfrentar os alemães nas oitavas. Aí é clássico. E é bom ir treinando a pontaria também. Quanto aos eslovenos, não jogaram muita coisa para merecerem a classificação. Fizeram um jogo horroroso com os argelinos e só ganharam por culpa do frango do goleiro; contra os americanos tinham a vantagem, mas se não fosse o juiz sairiam derrotados; diante dos ingleses pouco se impuseram e estavam esperando a sorte bater à porta com um empate entre EUA e Argélia. Preferia os russos.

- Austrália 2 x 1 Sérvia – Os sérvios precisavam vencer os australianos para se classificarem à próxima fase. Não parecia ser difícil envolver os kangoroos de cintura dura. Mas não é que os australianos resolveram jogar justo quando já não tinham mais muitas chances? Cahill e Holman anotaram para a Austrália. Pior para os sérvios, que alimentavam a esperança de passar à próxima fase depois da vitória sobre os alemães. Mas se comportaram como o Juventus ou a Lusa, que ganham dos grandes e se complicam diante dos pequenos. No final das contas, justa eliminação para ambos.

- Alemanha 1 x 0 Gana – um jogo parelho, com alemães partindo pra cima, precisando da vitória, e ganenses jogando mais soltos, se aproveitando do nervosismo do adversário. Boas chances de ambos os lados, porém só os alemães balançaram a rede, num chutaço de Mesut Özil. Para felicidade dos ganenses, quem venceu a outra partida foi a Austrália, que precisaria descontar muitos gols de saldo. Sim, os kangoroos lhe salvaram a pele. E de quebra não precisarão enfrentar nenhum gigante na próxima fase, mas sim o arrumado time dos norte-americanos, que ultimamente anda complicando a vida das grandes seleções. Para os alemães sobraram os ingleses, parada indigesta, clássico. Mas os germânicos se apresentaram melhor até aqui. E esse rapagote Özil joga fácil. Meu colega Alex me alertou que ele lembra muito o Paulo Miklos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Apuntes da Copa (10) – A loucura sul-americana


Com certo atraso, mas sempre em tempo de comentar os quebra-canelas.

- Uruguai 1 x 0 México – Que armação que nada, isso é coisa de alemães e austríacos. Uruguaios e mexicanos se enfrentaram para valer e honraram as vagas conquistadas para as oitavas. Os mexicanos foram pra cima e os uruguaios apostavam no contra-ataque. No final do primeiro tempo, Luís Suarez fez o gol que deixaria os uruguaios na primeira colocação do grupo, deixando os mexicanos preocupados, pois os sul-africanos demonstravam que atropelariam os franceses na outra partida. Não foi o que aconteceu. O Uruguai foi melhor que o México, atacou bastante, tem um belíssimo jogador, Forlán, que honra a tradição das gerações de 1930 e 1950. Depois de 20 anos, os uruguaios voltam a disputar um jogo de oitavas-de-final, contra os sul-coreanos, e têm grandes chances de chegar às quartas. Os mexicanos se garantiram em segundo, pelo saldo de gols. De castigo, terão os argentinos pela frente. É bom irem treinando desde já.

- África do Sul 2 x 1 França – O jogo do desconsolo. Do adeus. Da vergonha. Um pouco disso tudo. Os sul-africanos até que tentaram, chegaram a sonhar com a vaga quando abriram 2 x 0 no placar, com Khumalo e Mphela. Mas quando precisavam demonstrar força, quando a qualidade técnica foi necessária para ampliar o marcador, via-se claramente que a conquista da vaga estava muito além da conquista da honra, que foi a consolação para os sul-africanos. Ao menos, despediram-se com vitória, uma recompensa para os animados e vuvuzeleiros torcedores. Não sei como deve estar a cabeça dos jogadores franceses. Tristes pela eliminação? Com vergonha do papelão? Aliviados por se livrarem de Domenech? Apostaria na última opção. O lateral Evra disse que revelará “toda a verdade” e “tudo o que passou como capitão do time”. De acordo com o jogador, há uma razão para o fracasso. Não sei se os franceses vão aceitar os argumentos, mas se trata de uma atitude digna de Evra. Como capitão do time, vai dar a cara para bater, sem medo, pois deve uma satisfação aos torcedores e sabe que as coisas poderiam ter sido diferentes. E que há culpados nesse vexame, além da falta de um jogador como Fontaine, Platini ou Zidane.

- Nigéria 2 x 2 Coreia do Sul – Os nigerianos perderam gols demais nos três jogos. Apesar dos gols marcados contra a Coreia do Sul,
o perdido por Yakubu no segundo tempo definiu bem o que foi o ataque nigeriano nesta Copa. Faltou calibrar o pé. Mais uma seleção africana que se despede. Pela incompetência dos nigerianos e mediocridade dos gregos, os sul-coreanos ficaram com a segunda vaga do grupo e terão que se desdobrar contra os impávidos uruguaios. O interminável Park Ji-Sung comanda bem o time sul-coreano. Mas vai precisar de algo mais além da velocidade para repetir a ótima campanha de 2002.

- Argentina 2 x 0 Grécia – Os argentinos treinaram ataque contra defesa diante dos medonhos gregos, que só batiam, escorregavam e pisavam umas não sei quantas vezes na bola. Aliás, era o ataque reserva argentino, pois os botinudos gregos não faziam por merecer jogar contra o time titular. Os argentinos jogaram o suficiente, o time continuava muito técnico, Maradona pode testar jogadores como Otamendi, Bolatti e Clemente Rodriguez, que atuaram bem. Não havia muito entrosamento, mas o necessário para incomodar bastante o goleiro grego Tsorvas. O “capitão” Messi estava digno da braçadeira, com seus dribles e jogadas espetaculares. Por que a bola não entra? Melhor pegar alguma dica com Palermo. Nas oitavas, um reencontro com os mexicanos, que até agora lamentam aquele chutaço de Maxi Rodriguez. Por sua vez, os gregos terão que aguardar novos tempos áureos e continuar recordando a época de Péricles daquela Eurocopa. E como é legal ver Palermo marcar um gol. Sempre “optimista”, sempre uma loucura. Antes de entrar em campo, Maradona lhe disse: “Jugate la vida, matate”. Nem precisava dizer.