quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

A dor pelo ídolo

O jogador paraguaio Salvador Cabañas segue internado em estado crítico depois de ter sido baleado na cabeça, dentro do banheiro de um bar na Cidade do México. Hoje, Cabañas é o ídolo máximo do futebol paraguaio. Graças ao seu bom futebol, a seleção paraguaia classificou-se para a Copa de modo tranquilo.

Os paraguaios acompanham, apreensivos, o drama de um ídolo entre a vida e a morte. Só querem saber de Cabañas. O esporte exerce um fascínio que não podemos compreender. Fica aqui minha torcida por ele e um ótimo texto do Rodrigo Vianna, que esteve no Paraguai e foi 'envolvido' pelo assunto que toma conta do país.

Madame Lynch, o Paraguai e a guerra de Cabañas

Por Rodrigo Vianna

Semana passada, escrevi aqui sobre minha passagem pelo infernal calor carioca. Adoro o Rio, mas dessa vez estava demais. Escapei, rumo à serra fluminense. Conheci São Pedro da Serra, pertinho de Nova Friburgo. Motivos familiares me levaram até lá. Que belíssimo lugar. Mas já estou na estrada de novo...

Depois de rápida passagem por São Paulo, voei para o Paraguai. De novo, são motivos familiares que me trazem a Assunção – de onde escrevo agora.

Aqui não se fala de política nem de economia. Mal desembarquei, e o taxista consternado já me perguntou: “o que dizem no Brasil sobre Cabañas?”. Eu, envergonhado, não sabia de nada.

O ótimo centro-avante paraguaio (que costuma infernizar o Brasil com seus gols contra nossa seleção) tem um biotipo improvável: é gorducho, daqueles que a gente costuma ver em “peladas” de meio de semana. Mas o físico é enganador. O cara joga muito. O nosso Ronaldo ficou gordinho. Cabañas – imagino – já nasceu gordinho. Físico improvável para um grande goleador.

Improvável, infelizmente, é também a triste história a envolver Cabañas esta semana: o jogador paraguaio levou um tiro na cabeça, quando estava num bar no México (ele atua num time mexicano), e segue em estado grave.

A história é nebulosa. Não se sabe se foi crime passional, assalto ou briga... O mais incrível: os médicos tentaram extrair a bala, mas não conseguiram. Dizem que Cabañas está consciente no hospital, mas com uma bala na cabeça!

Vejo que nos sites brasileiros não se fala muito nisso. No Paraguai, esse é “o” assunto.
Aqui em Assunção, hospedo-me num hotel antigo, construção com ares de “villa” espanhola: chama-se “Gran Hotel Del Paraguay” - http://www.granhoteldelparaguay.com.py/web_ingles/htmls/valor_hist.html.

A história do prédio é curiosa: pertenceu, no século XIX, a Elisa Lynch, a mulher de Solano Lopez (presidente que comandou o Paraguai na guerra sangrenta contra Argentina, Brasil e Uruguai).

Elisa Lynch tem, como Cabanas, uma história improvável. Nascida na Irlanda, foi casada com um oficial francês, antes de se apaixonar por Solano Lopez e virar a primeira-dama paraguaia. Dizem que tinha grande ascendência sobre o “Mariscal” (Marechal) Lopez – como Solano é chamado por aqui.

A história do hotel me fez comprar um livro para saber um pouco mais sobre Elisa Lynch. Ainda estou no começo da leitura.

Já aprendi que, após a “Guerra do Paraguai” (como se sabe, foi um massacre: brasileiros, argentinos e uruguaios – na Tríplice Aliança - fizeram o serviço desejado pelos ingleses, arrasando com o Paraguai, nação que tentava se desenvolver de forma independente do capitalismo inglês), Elisa Lynch foi exilada na Europa, e amaldiçoada por escritores brasileiros e argentinos. Tratada em muitos “ensaios” como “prostituta”, “oportunista”: sobre ela lançaram a pecha de ter influenciado Solano Lopez em seus planos expansionistas (?).

A obra que leio tenta desmistificar isso tudo.

É um prazer “viajar” na biografia dela, enquanto olho a antiga construção em que me hospedo, e que já foi a casa da ex-primeira-dama paraguaia.

O pé-direito nos quartos é inacreditável. As portas, janelas, os móveis, tudo lembra o passado no “Gran Hotel Del Paraguay”.

Claro que deve ter sido todo reformado por aqueles que ficaram com a propriedade depois que Madame Lynch se foi para a Europa, ao fim da Guerra em que Solano Lopez foi morto (ele lutou até o último homem, morreu ao lado do filho mais velho – também executado no campo de batalha por tropas brasileiras, segundo contam os paraguaios).

Saio do quarto, caminho até um corredor em estilo colonial, ladeado por lindos jardins. O corredor leva-me até o lobby, forrado por gravuras das “missiones” paraguaias (outro capítulo da atribulada história de nosso país vizinho). Sento-me num velho sofá, e mergulho de volta na leitura.

Penso em Madame Lynch, em Solano Lopez. Mas sou interrompido pela conversa do simpático garçon que , enquanto prepara as mesas para o jantar, pergunta ao rapaz da recepção: “notícias sobre Cabañas?”.

O Paraguai não quer saber de Madame Lynch. O Paraguai só pensa em Cabañas – o improvável. Também torço por ele.

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