terça-feira, 30 de março de 2010

Armando Nogueira e a crônica do jornalismo 'global'

Confesso que acompanhei apenas o Armando Nogueira cronista de futebol, de poesias bonitas, que contavam e ‘cantavam’ o futebol. Ótimo com as palavras. Com o passar do tempo, também fui conhecendo histórias dos ‘tempos que não vivi’ sobre o Armando diretor de jornalismo da Globo e de sua subserviência ao ideário dos Marinho. Armando estava no comando do jornalismo da emissora carioca nos anos da ditadura militar e, posteriormente, na redemocratização, marcados por episódios famosos de tentativas de fraude e manipulação orquestrados pela Globo: a armação contra Brizola para tentar eleger Moreira Franco, na eleição para governador do Rio em 1982, a “cobertura” das Diretas, a eleição de Collor no segundo turno, em 1989, entre outros. Só Brizola passou anos apanhando (e combatendo) do jornalismo dos Marinho.

Armando foi afastado da direção do jornalismo da Globo (Paulo Henrique Amorim explica o motivo), mas nunca se pronunciou sobre sua relação com os donos da emissora e os direcionamentos da redação sob seu comando. Preferiu silenciar-se, guardar segredo, não mexer com o passado, tocar a vida como cronista do mundo da bola. Agora sua morte ganha notória cobertura daqueles a quem serviu. Homenagem justa àquele que não só construiu um padrão de jornalismo na TV brasileira, mas ajudou como ninguém, por todas as vias e métodos, a defender os interesses do grupo empresarial ao qual era subordinado.

O jornalista Eliakim Araújo escreve um honesto relato sobre sua relação com Armando Nogueira e a cumplicidade deste com os interesses dos Marinho. O outro lado do cronista da bola.

Armando Nogueira, um sedutor irresistível

por Eliakim Araujo

Como jornalista, Armando Nogueira foi um excelente poeta e um prosista de texto refinado. Entrou no jornalismo da TV Globo em 1966, quando o golpe militar estava ainda fresquinho, e lá ficou até 1990, quando o novo presidente, Fernando Collor, convenceu Roberto Marinho a promover Alberico Souza Cruz ao posto máximo do jornalismo global, não que tivesse qualquer objeção a Armando, simplesmente porque precisava premiar o amigo Alberico que teve participação decisiva na edição do debate presidencial e ainda palpitou nos programas especiais que transformaram Collor no indômito “caçador de marajás”.

Armando não foi demitido, pior que isso, sofreu uma “capitis diminutio”. Foi “promovido” a assessor especial da presidência, o que a plebe chama carinhosamente de “aspone”. Dedicou-se então ao jornalismo esportivo, onde, aí sim, foi um verdadeiro mestre da palavra escrita e falada. Fui revê-lo anos mais tarde apresentando um programa de esportes num dos inúmeros canais a cabo da Globo.

De Armando, pessoalmente, guardo duas passagens. Eu estava há menos de um ano à frente do Jornal da Globo quando cruzamos no corredor onde ficava a redação do Globo Repórter. Ele me parou e disse: “olha, eu quero te cumprimentar porque desde Heron Domingues não aparecia aqui um apresentador como a mesma naturalidade dele”. Heron era o ícone de toda uma geração de telejornalistas e ser comparado a ele era um elogio e tanto que elevou meu ego às alturas. Hoje, honestamente, não sei se foi sincero ou apenas uma frase de efeito com a qual seduzia todos que estavam entrando no império global.

Doutra feita, estava eu no Eng, a sala da técnica que comanda a transmissão dos telejornais, quando alguém me chamou ao telefone. Era o Armando: “Tenho uma boa notícia para lhe dar, a partir de agora você vai passar a ganhar cinco mil cruzeiros por mês”. Entre surpreso e curioso, rebati de primeira: “e o que é que vocês vão querer em troca?” Armando ficou visivelmente decepcionado com minha reação, esperava talvez um emocionado agradecimento de quem ganhava dois mil reais. Ora, pensei naquele momento, onde já se viu um patrão mais que dobrar o salário do empregado sem um motivo especial? Depois se esclareceu que eu, e todos os demais apresentadores, perdiam ali o status de funcionários da Globo e passavam a Pessoa Jurídica com contrato de firma. Na época uma novidade, hoje uma prática comum no mercado televisivo.

Mas apesar de todas as virtudes de Armando, cantadas em prosa e verso nos depoimentos de personalidades das artes, da política e do jornalismo, não dá pra esquecer que ele esteve à frente do jornalismo mais comprometido do Brasil: o que foi praticado pela Globo durante os anos da ditadura militar. O JN era conhecido como “o porta-voz do regime”. As ordens que emanavam dos governos militares eram obedecidas sem questionamento. Não me lembro, sinceramente, de ter visto por parte dos profissionais da Globo alguma tentativa de desobediência ou de driblar a censura, como fez por exemplo o Jornal do Brasil, que saiu com aquela capa histórica no dia seguinte à decretação do AI-5, 13 de dezembro de 68, iludindo os militares fardados que ocuparam as redações assim que terminou a leitura do ato discricionário.

Eu estava na TV Globo durante o primeiro mandato de Leonel Brizola à frente do governo do Estado do Rio. Entrei em maio de 83, pouco depois da posse do novo governo, e o jornalismo da Globo passava por uma grave crise de credibilidade, com seus repórteres e carros ameaçados nas ruas pela população. Pesava sobre a emissora a acusação de, junto com a Proconsult, empresa contratada pelo TRE para apurar os votos da eleição direta para governador do Estado, em 1982, tentar fraudar o resultado para dar a vitória a Moreira Franco, o candidato do regime militar, apoiado pela família Marinho. Por engano ou má-fé, a emissora divulgava números que não refletiam a verdade da apuração.

Em 1984, no episódio das Diretas Já, onde atuei como narrador em off no comício da Candelária, no Rio, a postura da Globo foi a de ignorar por completo os movimentos populares que cresciam em todo país. Mas não bastava ignorar, era proibido usar a palavra “diretas” em qualquer situação, mesmo como notícia, contra ou a favor. Até que a pressão popular tornou-se irresístivel e a emissora foi obrigada a render-se ao apelo da população brasileira.

Em 1989, no segundo e último debate entre Collor e Lula nos estúdios da TV Bandeirantes, no Morumbi, quando eu tinha acabado de deixar a Globo e estava lá representando a Manchete, observei que Lula estava visivelmente cansado e abatido. Além do esforço da reta final da campanha, ele tinha sido acusado no programa de Collor por uma ex-namorada, Mirian, de tentar convencê-la a abortar uma criança (a filha dele, Lurian). Depois se soube que a estratégia (financeira) de colocar a enfermeira Mirian no foco da mídia a três dias da votação partiu de Leopoldo, o irmão de Collor e muito amigo dos Marinho. A família Collor é dona da emissora que retransmite a programação da Globo em Alagoas. Toda essa lembrança histórica é para dizer que Lula foi mal naquele segundo debate, mesmo assim a Globo, na edição da matéria, destacou os melhores momentos de Collor e os piores de Lula. Os que têm boa memória hão de se lembrar da severa campanha do Jornal Nacional contra o então ministro da Justiça do governo Figueiredo, Ibrahim Abi-Ackel, que ousou impedir a liberação de uma carga de equipamentos supostamente contrabandeados destinados à TV Globo.

Durante várias edições, o JN acusou o ministro de envolvimento no contrabando de pedras preciosas, no qual Abi-Ackel não teve, comprovou-se depois, nenhuma participação. Mas pouca gente lembra disso. É provável até que os jovens executivos da Globo “desconheçam” o fato ou, se souberem, contem uma história diferente. Armando Nogueira estava à frente do jornalismo em todos esses episódios nebulosos que narrei com absoluta fidelidade. De uma maneira ou de outra compactuou com esse tipo de jornalismo corporativo e subserviente.

Talvez tenha faltado em Armando a coragem de assumir sua responsabilidade como diretor de jornalismo da Globo que notoriamente era o braço da ditadura militar na mídia. Sua memória estaria resgatada para sempre se um dia ele tivesse contado toda a verdade, que apenas cumpria ordens que vinham do oitavo andar, mais precisamente da sala do Doutor Roberto. Armando, como eu e todos os que trabalharam na emissora nos anos de chumbo, fomos cúmplices do regime. Uns por total desinteresse político, outros por opção ideológica, outros ainda por necessidade profissional.

Deixo aqui minha homenagem ao Armando Nogueira, poeta, cronista e escritor de texto sensível. E um adjetivo que ainda não ouvi nos inúmeros depoimentos sobre ele: um sedutor irresistível.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Por uma trégua para o bem do futebol

Maradona não visitava La Bombonera desde seu desentendimento com Riquelme. Ontem, no “Superclásico”, na vitória do Boca por 2 x 0 sobre o River Plate, Dieguito voltou ao seu palco e viu um Román bárbaro. Não teve jeito. Teve que ouvir os pedidos da torcida pela volta de Riquelme à seleção e admitir para a imprensa que o meia do Boca Juniors fez a diferença na partida.

Abaixo, segue uma crônica do jornalista Adrian Piedrabuena, sempre com um texto excelente, na qual pede uma trégua entre os dois ídolos pelo bem maior da seleção argentina e do futebol. Mesmo com Messi jogando o fino, Riquelme não poderia ficar de fora da seleção. Faço das palavras de Piedrabuena as deste blogueiro.

“Para Riquelme, la Selección”

La Bombonera, el Templo de Román, le pidió a Diego que lo lleve al Mundial. El 10 de Boca jugó bárbaro y Maradona lo aplaudió. ¿La reconciliación es posible?

Adrian Piedrabuena

Dan ganas de parar todo, poner una mesa y dos sillas en el medio de la cancha y que de una buena vez le pongan un punto final a un enfrentamiento inútil, que nos perjudica a todos. Si se acepta la expresión, dan ganas de pedirles que se dejen de hinchar las pelotas, que el Mundial está acá nomás, que la Selección siempre debe quedar por encima de todo, que sólo hace falta una tregua de un mes y medio, que no hay que olvidar pero que tampoco hay que dejarse vencer por el rencor, que es una locura que el técnico se pierda la posibilidad de contar con un jugador tan valioso en un plantel de 23, que es una picardía que el jugador deje pasar la histórica chance de ser dirigido por el mejor de la historia en una Copa del Mundo.

Algunos hinchas de Boca se permiten algo impensado para ellos, se dejan atrapar por la piel de gallina. Y a los neutrales, ya sin culpa, les pasa lo mismo. El grito/reclamo/declaracióndeprincipios popular conmueve, emociona, moviliza. El mensaje nace en las plateas y se desparrama por toda la Bombonera, como una verdadera ola de pasión. En el pasto, con la número 10 y las palmas abiertas en agradecimiento está él. Y en el palco, después de mucho tiempo, oyendo al pueblo, está él, con la eterna número 10. El es Riquelme. El es Maradona. Están ahí, en el Templo de Román, como lo bautizó el mismísimo Diego metido apretadamente dentro de una camiseta de Boca, con el número y el nombre de Riquelme, en aquella inolvidable despedida. El fútbol, Boca en este caso, los vuelve a unir al menos por un rato. Los dos le quieren ganar a River. Uno hace maravillas en botines, controlándolo todo, enseñándoles el camino a sus compañeros, bajando deliciosamente una pelota con la zurda y, en el aire, tocándola con la derecha en lo que debió ser un gol mágico. El otro, deja por poco más de 80 minutos el buzo de entrenador de la Selección, y vuelve a ser tan hincha de Boca como él. Román abre los brazos y muestra todos sus dientes felices en el festejo de los goles.

Diego se da vuelta, se deja tragar por el palco, aprieta los puños y grita hacia adentro. Por primera vez en mucho tiempo, patean para el mismo lado. "Para Riquelme, la Selección", ruge el estadio. "Hay que alentar a Maradó", devuelve La 12, con una llamativa incondicionalidad. Diego aplaude, por momentos se tienta y hasta da saltitos cuando la orden es despegarse del piso para no ser una Gallina. Grita, vuelve a aplaudir a Román y hasta le pide a Baldassi una amarilla para Almeyda cuando lo baja a pura impotencia. Y, como si lo estuviera dirigiendo, le hace senãs de que encare por la izquierda, donde Ferrari nunca hace pie.

Dan ganas de pedirles un gesto patriótico (futbolero), un pacto. No importa quién llame primero, no importa si uno renunció una, dos o mil veces, y tampoco que el otro lo haya borrado. Y no importa que varios seleccionados prefieran tenerlo lejos del vestuario al 10 de Boca. El ejemplo más claro de convivencia por conveniencia la dieron y la siguen dando el propio Riquelme y el seguro mundialista Palermo. Ya nada importa más que lo que vaya a pasar desde el 11 de junio en Sudáfrica. Están a tiempo. Y si no nace de ellos, tienen que empezar a jugar los integrantes del famoso entorno. Alguna vez, por su bien, deben abandonar el sidieguismo y el siromanismo.

Vamos, muchachos, déjense de joder...

segunda-feira, 15 de março de 2010

Meninas, goleadas e sentimentos



Se há algo pior que perder um jogo é perder um jogo de goleada. A vontade é de cavar um buraco e se enterrar. Ninguém gostaria de estar na pele dos jogadores do Naviraiense, abatido sem dó pelo ótimo ataque do Santos por sonoros 10 x 0. Mesmo sabendo da superioridade do adversário, sempre há uma ponta de esperança para o ‘azarão’, que até tentou, buscou, mas não deu. O improvável não ocorreu. Seria menos pior se o time de Naviraí tivesse perdido o jogo de ida por uma diferença de dois gols, evitariam o massacre na Vila, não teriam que olhar a bola dentro do gol por tantas vezes, não entrariam para os ‘anais’ das maiores goleadas santistas. Mas faz parte do jogo. Foram honestos, não apelaram, mesmo que a vontade fosse sumir, desaparecer.

Perder de muito é horrível, principalmente quando estamos emocionalmente frágeis. Nossos transtornos vêm à tona e o choro, por vezes, é inevitável. E talvez o choro que mais nos comova seja aquele que ocorre de forma inusitada, inesperada, e que pode não estar necessariamente associado à vitória ou derrota em si. O ‘explosivo’ Paul Gascoigne, por exemplo, foi aos prantos quando levou cartão amarelo durante a semifinal contra a Alemanha, na Copa de 1990, pois estaria suspenso para a próxima partida. O fato de ficar de fora da finalíssima seria demais para ele (mas a Inglaterra perdeu nos pênaltis aquela semifinal). Com aquela cena, Gazza conquistara definitivamente o coração dos ingleses.

Uma cena emocionante envolvendo choro e goleada ganhou destaque no mundo na semana passada, protagonizada por duas jovens jogadoras. As seleções femininas sub 17 de Estados Unidos e Haiti se enfrentavam pelo campeonato da Concacaf, na Costa Rica, classificatório para o Mundial da categoria, e a seleção norte-americana ganhava o jogo por fáceis 9 x 0. Após o apito final, a goleira haitiana Alexandra Coby sentou-se no gramado e começou a chorar copiosamente. A derrota para os Estados Unidos era normal, o placar até justificável, mas estavam envolvidos outros ingredientes. Eram o jogo, sua vida, seu país destruído, tudo ali na sua cabeça, difícil de conter. A goleira norte-americana Brayane Heaberlin, em vez de comemorar a vitória com as companheiras, atravessou o campo e foi abraçar e consolar a goleira haitiana e logo foi seguida pelas demais companheiras americanas, cena que emocionou os torcedores presentes no estádio Alejandro Morera Soto, em Alajuela. O abraço de Coby era como um pedido de ajuda naquele momento. As jogadoras americanas também não conseguiram segurar as lágrimas.

Heaberlim disse em entrevista que foi difícil para ela ver a goleira haitiana chorando, pois sabia que a adversária provavelmente perdera pessoas próximas e que talvez nem tivesse para onde ir quando retornasse ao Haiti. Apesar de tudo, Coby tinha ido ao torneio para competir e Heaberlim tinha muito respeito por ela.

Palavras e gestos muito bonitos da jovem jogadora americana, que não tem culpa pelos terremotos, tornados, embargos, Georges Bushes e outras catástrofes que assolam países pelo mundo afora. A América de Brayane Heaberlin poderia ser diferente. A de Alexandra Coby também. Pode até soar piegas, mas são em momentos como estes que percebemos que o mundo é uma tragédia mesmo, repleto de guerras, intolerância e desastres, mas que, apesar das diferenças, ninguém precisa desaparecer por causa da suposta supremacia de alguém e é possível coexistir, que podemos nos reconhecer como iguais, entender que o sentimento que nos move é o mesmo, que podemos compreender e respeitar o outro.

Meninas de ouro.

terça-feira, 2 de março de 2010

Os Jogos Olímpicos de Inverno e os tropeços da Record




O monopólio da Rede Globo nos direitos de transmissão dos principais eventos esportivos sempre foi motivo de reclamação. E com toda razão. A emissora dos Marinho sempre exibe o que lhe é mais conveniente, no horário em que bem entender, sem falar das vezes em que não transmite os eventos na TV aberta mesmo sendo detentora dos direitos. Sempre fez pouco caso das opiniões dos telespectadores. Aquele que quisesse assistir algo a mais deveria pagar pelos seus canais da TV por assinatura.

Entretanto, esse reinado absoluto foi abalado após a Globo levar uma ‘rasteira’ da sua rival Rede Record, que adquiriu os direitos exclusivos para a transmissão em TV aberta dos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver, do Panamericano de Guadalajara, em 2011, e das Olimpíadas de Londres, em 2012. A lógica é simples: pagou mais e levou, e dinheiro não é problema para a emissora de Edir Macedo. Se já havia ‘pinçado’ bons jornalistas das concorrentes e investido em um canal de notícias para a TV aberta, também chegara a hora de disputar espaço nas transmissões esportivas, cenário dominado pela rival há décadas. Na verdade, não podemos nem falar em disputa, uma vez que os direitos de transmissão continuam exclusivos e apenas migraram de lado.

Todo monopólio é ruim e antidemocrático, seja da Globo, Record ou qualquer emissora. Quando há ‘exclusividade’, ficamos dependentes do acesso restrito a uma única fonte que é a ‘emissora oficial’. Já as TVs que não têm os direitos simplesmente boicotam o evento, sonegando informações ao público. Vide a Rede Globo, que omitiu de seu noticiário a morte do atleta georgiano Nodar Muaritashvili durante os treinamentos para a prova do luge dos Jogos Olímpicos de Inverno, num exemplo abjeto de mau jornalismo. Para obter outras fontes de informação, o recurso acaba sendo recorrer à internet ou aos canais por assinatura. Seria ideal que tivéssemos diversas emissoras cobrindo o mesmo evento, que pudéssemos escolher a melhor cobertura, que tivéssemos multiplicidade de opiniões, mais vozes.

Contudo, havia uma certa expectativa em torno das transmissões da Record para os Jogos Olímpicos de Inverno no Canadá. Com a Globo fora da jogada, surgia a chance para a emissora de Macedo testar sua capacidade na área esportiva. Uma chance também do telespectador ‘sentir’ a Record na transmissão de um grande evento esportivo, ver como seria a cobertura, observar seus bons jornalistas, já que a emissora em si não possuía muita tradição nesta área. Seria um bom termômetro para os Jogos Olímpicos de Londres, daqui a dois anos.

A impressão era de que chegaria forte ao escalar Ana Paula Padrão e Paulo Henrique Amorim como enviados. Para as transmissões das provas escolheram Maurício Torres e Álvaro José, este último com uma bagagem enorme em Jogos Olímpicos. A equipe de jornalismo até fez boas reportagens, os Jogos renderam boas audiências. No entanto, as transmissões das provas e modalidades ficaram muito aquém do esperado. Não foi pela falta de experiência dos profissionais envolvidos ou pelo fato da emissora não ter o ‘recall’ de eventos anteriores, mas sim por utilizar os mesmos métodos de cobertura da Globo.

Explico. Brasileiro gosta de esporte, mesmo sendo modalidades de inverno e que nada tenham a ver com a nossa realidade. Soma-se a isso o fator da curiosidade, pois são esportes que não estamos acostumados a ver, muitos deles desconhecidos, como o curling, skeleton, luge ou salto de esqui. Fora isso, há modalidades tecnicamente muito bonitas, como a patinação artística, e desafiadoras, como o esqui downhill. Simpatizamos, por exemplo, com as habilidades do patinador russo Evgeni Plushenko ou da esquiadora norte-americana Lindsey Vonn. Nesse mundo de esportes e atletas pouco conhecidos, o espectador precisa ser abastecido de informações sobre esportistas e modalidades.

Contudo, informar não é sinônimo de enganar. A Record não entendeu a lógica das transmissões, da simultaneidade, e optou por tratar seus telespectadores como um bando de Homer Simpson, pensando por eles, decidindo por si mesma o gosto do público por este ou aquele atleta. Para quem ousou superar a Globo e ainda quer se tornar o canal do esporte olímpico, a Record deu um passo em falso com diversas atitudes equivocadas. Podemos citar algumas delas:

- não ser flexível na alteração da grade de programação, pois mesmo que as provas estivessem valendo medalhas, a emissora optou por manter suas novelas, Gugu, CSI, Pica-Pau, Fala Que Eu Te Escuto nos respectivos horários. Na verdade, ocorria o inverso: interrompiam a transmissão dos Jogos para exibição da programação normal.

- não havia os chamados ‘plantões’ nos intervalos da programação. Não atualizavam as informações aos telespectadores.

- não exibiam ao vivo as disputas por medalhas.

- Maurício Torres e Álvaro José abusavam da histeria para cada participação de atleta ou equipe, dizendo que estavam na briga por medalhas, quando não estavam. Não eram honestos com as imagens.

- a emissora abusou das reprises mesmo nos horários em que havia disputas ao vivo em baterias eliminatórias ou finais.

- escassas transmissões ao vivo. Aliás, quase não foram exibidas provas ao vivo, deixando esta tarefa a cargo da Record News. Então, porque a histeria da Record em se gabar de ser o único da TV aberta com os direitos dos jogos, se deixou a cargo do canal mais restrito ao público a transmissão de fato? Para fazer o mesmo que a Globo sempre fez?

No entanto, a maior picaretagem feita pela Record nas transmissões dos Jogos de Vancouver foi querer subestimar o intelecto do telespectador. Queria que acreditássemos que as modalidades estavam sendo transmitidas ao vivo quando não eram. Claramente, queriam enganar o espectador quando diziam ‘daqui a pouco, inédito, disputa por medalhas’, quando na verdade era só mais uma reprise de provas que ocorreram no dia anterior. Recordo-me que em uma tarde de reprises da patinação artística de duplas (não disseram em nenhum momento que era reprise para o público achar que era ao vivo), o locutor Álvaro José interrompeu a transmissão, pois naquele momento ‘ocorria’ a final do Snowboard feminino. Depois, entrou a locução do jornalista Maurício Torres já com o link do Snowboard, todo empolgado, dizendo que valia medalha e tal. Para minha surpresa, já havia assistido esta mesma final há cerca de duas horas na Record News. Não há coisa mais abominável que querer tapear o telespectador, como se não houvesse internet ou outra fonte de informação honesta.

A Record podia fazer uma transmissão melhor, honesta, seguindo um pouco o exemplo da Band, que sempre privilegiou o esporte na sua grade quando da transmissão de eventos importantes. Mas em vez de inovar, de tentar fazer algo realmente diferente, ou até mesmo criar um novo paradigma nas transmissões esportivas, a Record preferiu novamente copiar a Globo. Bancada por seu ‘direito exclusivo de transmissão’ (vulgo monopólio), utilizou-se da desonestidade para tentar enganar o espectador. Optou por tratá-los como otários. Perdeu a grande chance de mostrar ao público que não é só mais uma cópia da Globo. Mas, ao que parece, não ganharemos um novo ‘canal do esporte’. A intenção era apenas trocar o monopólio de mãos.