segunda-feira, 15 de março de 2010

Meninas, goleadas e sentimentos



Se há algo pior que perder um jogo é perder um jogo de goleada. A vontade é de cavar um buraco e se enterrar. Ninguém gostaria de estar na pele dos jogadores do Naviraiense, abatido sem dó pelo ótimo ataque do Santos por sonoros 10 x 0. Mesmo sabendo da superioridade do adversário, sempre há uma ponta de esperança para o ‘azarão’, que até tentou, buscou, mas não deu. O improvável não ocorreu. Seria menos pior se o time de Naviraí tivesse perdido o jogo de ida por uma diferença de dois gols, evitariam o massacre na Vila, não teriam que olhar a bola dentro do gol por tantas vezes, não entrariam para os ‘anais’ das maiores goleadas santistas. Mas faz parte do jogo. Foram honestos, não apelaram, mesmo que a vontade fosse sumir, desaparecer.

Perder de muito é horrível, principalmente quando estamos emocionalmente frágeis. Nossos transtornos vêm à tona e o choro, por vezes, é inevitável. E talvez o choro que mais nos comova seja aquele que ocorre de forma inusitada, inesperada, e que pode não estar necessariamente associado à vitória ou derrota em si. O ‘explosivo’ Paul Gascoigne, por exemplo, foi aos prantos quando levou cartão amarelo durante a semifinal contra a Alemanha, na Copa de 1990, pois estaria suspenso para a próxima partida. O fato de ficar de fora da finalíssima seria demais para ele (mas a Inglaterra perdeu nos pênaltis aquela semifinal). Com aquela cena, Gazza conquistara definitivamente o coração dos ingleses.

Uma cena emocionante envolvendo choro e goleada ganhou destaque no mundo na semana passada, protagonizada por duas jovens jogadoras. As seleções femininas sub 17 de Estados Unidos e Haiti se enfrentavam pelo campeonato da Concacaf, na Costa Rica, classificatório para o Mundial da categoria, e a seleção norte-americana ganhava o jogo por fáceis 9 x 0. Após o apito final, a goleira haitiana Alexandra Coby sentou-se no gramado e começou a chorar copiosamente. A derrota para os Estados Unidos era normal, o placar até justificável, mas estavam envolvidos outros ingredientes. Eram o jogo, sua vida, seu país destruído, tudo ali na sua cabeça, difícil de conter. A goleira norte-americana Brayane Heaberlin, em vez de comemorar a vitória com as companheiras, atravessou o campo e foi abraçar e consolar a goleira haitiana e logo foi seguida pelas demais companheiras americanas, cena que emocionou os torcedores presentes no estádio Alejandro Morera Soto, em Alajuela. O abraço de Coby era como um pedido de ajuda naquele momento. As jogadoras americanas também não conseguiram segurar as lágrimas.

Heaberlim disse em entrevista que foi difícil para ela ver a goleira haitiana chorando, pois sabia que a adversária provavelmente perdera pessoas próximas e que talvez nem tivesse para onde ir quando retornasse ao Haiti. Apesar de tudo, Coby tinha ido ao torneio para competir e Heaberlim tinha muito respeito por ela.

Palavras e gestos muito bonitos da jovem jogadora americana, que não tem culpa pelos terremotos, tornados, embargos, Georges Bushes e outras catástrofes que assolam países pelo mundo afora. A América de Brayane Heaberlin poderia ser diferente. A de Alexandra Coby também. Pode até soar piegas, mas são em momentos como estes que percebemos que o mundo é uma tragédia mesmo, repleto de guerras, intolerância e desastres, mas que, apesar das diferenças, ninguém precisa desaparecer por causa da suposta supremacia de alguém e é possível coexistir, que podemos nos reconhecer como iguais, entender que o sentimento que nos move é o mesmo, que podemos compreender e respeitar o outro.

Meninas de ouro.

Um comentário:

Andre de P.Eduardo disse...

Cara, vc se superou. Demais!
Você fala em choro, primeira coisa que lembro, no futebol, foi Santos em 1995, com o time do Giovanni. É uma cena que tem seus vaievens, não posso ver o VT do Brasil contra a Itália em 82 (eu nem tinha nascido); nem o Holanda X Alemanha em 74, bate a sensação de mãos atadas, desespero. É meramente intuitivo, mas fazer o quê.
Outro momento que nunca mais revi mas ficou marcado pelos prantos foi a atuação guerreira do Paraguai contra a França em 98. Nunca vi aquilo, nem antes nem depois, um time inteiro se atirando na frente na bola, sabendo de suas limitações e arrastando o jogo pros penaltis. Foi o "anti-jogo" mais bonito que já vi. Com 8 do segundo tempo da prorrogação, saiu o gol do Laurent Blanc. Abraços.