terça-feira, 2 de março de 2010

Os Jogos Olímpicos de Inverno e os tropeços da Record




O monopólio da Rede Globo nos direitos de transmissão dos principais eventos esportivos sempre foi motivo de reclamação. E com toda razão. A emissora dos Marinho sempre exibe o que lhe é mais conveniente, no horário em que bem entender, sem falar das vezes em que não transmite os eventos na TV aberta mesmo sendo detentora dos direitos. Sempre fez pouco caso das opiniões dos telespectadores. Aquele que quisesse assistir algo a mais deveria pagar pelos seus canais da TV por assinatura.

Entretanto, esse reinado absoluto foi abalado após a Globo levar uma ‘rasteira’ da sua rival Rede Record, que adquiriu os direitos exclusivos para a transmissão em TV aberta dos Jogos Olímpicos de Inverno de Vancouver, do Panamericano de Guadalajara, em 2011, e das Olimpíadas de Londres, em 2012. A lógica é simples: pagou mais e levou, e dinheiro não é problema para a emissora de Edir Macedo. Se já havia ‘pinçado’ bons jornalistas das concorrentes e investido em um canal de notícias para a TV aberta, também chegara a hora de disputar espaço nas transmissões esportivas, cenário dominado pela rival há décadas. Na verdade, não podemos nem falar em disputa, uma vez que os direitos de transmissão continuam exclusivos e apenas migraram de lado.

Todo monopólio é ruim e antidemocrático, seja da Globo, Record ou qualquer emissora. Quando há ‘exclusividade’, ficamos dependentes do acesso restrito a uma única fonte que é a ‘emissora oficial’. Já as TVs que não têm os direitos simplesmente boicotam o evento, sonegando informações ao público. Vide a Rede Globo, que omitiu de seu noticiário a morte do atleta georgiano Nodar Muaritashvili durante os treinamentos para a prova do luge dos Jogos Olímpicos de Inverno, num exemplo abjeto de mau jornalismo. Para obter outras fontes de informação, o recurso acaba sendo recorrer à internet ou aos canais por assinatura. Seria ideal que tivéssemos diversas emissoras cobrindo o mesmo evento, que pudéssemos escolher a melhor cobertura, que tivéssemos multiplicidade de opiniões, mais vozes.

Contudo, havia uma certa expectativa em torno das transmissões da Record para os Jogos Olímpicos de Inverno no Canadá. Com a Globo fora da jogada, surgia a chance para a emissora de Macedo testar sua capacidade na área esportiva. Uma chance também do telespectador ‘sentir’ a Record na transmissão de um grande evento esportivo, ver como seria a cobertura, observar seus bons jornalistas, já que a emissora em si não possuía muita tradição nesta área. Seria um bom termômetro para os Jogos Olímpicos de Londres, daqui a dois anos.

A impressão era de que chegaria forte ao escalar Ana Paula Padrão e Paulo Henrique Amorim como enviados. Para as transmissões das provas escolheram Maurício Torres e Álvaro José, este último com uma bagagem enorme em Jogos Olímpicos. A equipe de jornalismo até fez boas reportagens, os Jogos renderam boas audiências. No entanto, as transmissões das provas e modalidades ficaram muito aquém do esperado. Não foi pela falta de experiência dos profissionais envolvidos ou pelo fato da emissora não ter o ‘recall’ de eventos anteriores, mas sim por utilizar os mesmos métodos de cobertura da Globo.

Explico. Brasileiro gosta de esporte, mesmo sendo modalidades de inverno e que nada tenham a ver com a nossa realidade. Soma-se a isso o fator da curiosidade, pois são esportes que não estamos acostumados a ver, muitos deles desconhecidos, como o curling, skeleton, luge ou salto de esqui. Fora isso, há modalidades tecnicamente muito bonitas, como a patinação artística, e desafiadoras, como o esqui downhill. Simpatizamos, por exemplo, com as habilidades do patinador russo Evgeni Plushenko ou da esquiadora norte-americana Lindsey Vonn. Nesse mundo de esportes e atletas pouco conhecidos, o espectador precisa ser abastecido de informações sobre esportistas e modalidades.

Contudo, informar não é sinônimo de enganar. A Record não entendeu a lógica das transmissões, da simultaneidade, e optou por tratar seus telespectadores como um bando de Homer Simpson, pensando por eles, decidindo por si mesma o gosto do público por este ou aquele atleta. Para quem ousou superar a Globo e ainda quer se tornar o canal do esporte olímpico, a Record deu um passo em falso com diversas atitudes equivocadas. Podemos citar algumas delas:

- não ser flexível na alteração da grade de programação, pois mesmo que as provas estivessem valendo medalhas, a emissora optou por manter suas novelas, Gugu, CSI, Pica-Pau, Fala Que Eu Te Escuto nos respectivos horários. Na verdade, ocorria o inverso: interrompiam a transmissão dos Jogos para exibição da programação normal.

- não havia os chamados ‘plantões’ nos intervalos da programação. Não atualizavam as informações aos telespectadores.

- não exibiam ao vivo as disputas por medalhas.

- Maurício Torres e Álvaro José abusavam da histeria para cada participação de atleta ou equipe, dizendo que estavam na briga por medalhas, quando não estavam. Não eram honestos com as imagens.

- a emissora abusou das reprises mesmo nos horários em que havia disputas ao vivo em baterias eliminatórias ou finais.

- escassas transmissões ao vivo. Aliás, quase não foram exibidas provas ao vivo, deixando esta tarefa a cargo da Record News. Então, porque a histeria da Record em se gabar de ser o único da TV aberta com os direitos dos jogos, se deixou a cargo do canal mais restrito ao público a transmissão de fato? Para fazer o mesmo que a Globo sempre fez?

No entanto, a maior picaretagem feita pela Record nas transmissões dos Jogos de Vancouver foi querer subestimar o intelecto do telespectador. Queria que acreditássemos que as modalidades estavam sendo transmitidas ao vivo quando não eram. Claramente, queriam enganar o espectador quando diziam ‘daqui a pouco, inédito, disputa por medalhas’, quando na verdade era só mais uma reprise de provas que ocorreram no dia anterior. Recordo-me que em uma tarde de reprises da patinação artística de duplas (não disseram em nenhum momento que era reprise para o público achar que era ao vivo), o locutor Álvaro José interrompeu a transmissão, pois naquele momento ‘ocorria’ a final do Snowboard feminino. Depois, entrou a locução do jornalista Maurício Torres já com o link do Snowboard, todo empolgado, dizendo que valia medalha e tal. Para minha surpresa, já havia assistido esta mesma final há cerca de duas horas na Record News. Não há coisa mais abominável que querer tapear o telespectador, como se não houvesse internet ou outra fonte de informação honesta.

A Record podia fazer uma transmissão melhor, honesta, seguindo um pouco o exemplo da Band, que sempre privilegiou o esporte na sua grade quando da transmissão de eventos importantes. Mas em vez de inovar, de tentar fazer algo realmente diferente, ou até mesmo criar um novo paradigma nas transmissões esportivas, a Record preferiu novamente copiar a Globo. Bancada por seu ‘direito exclusivo de transmissão’ (vulgo monopólio), utilizou-se da desonestidade para tentar enganar o espectador. Optou por tratá-los como otários. Perdeu a grande chance de mostrar ao público que não é só mais uma cópia da Globo. Mas, ao que parece, não ganharemos um novo ‘canal do esporte’. A intenção era apenas trocar o monopólio de mãos.

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