domingo, 25 de abril de 2010

O que vale na comemoração do gol? (4)

Muito bom ver um time que joga pra frente, tocando a bola, buscando o gol, sem se importar com o placar do jogo, sem piedade alguma do adversário. Garanto que as gerações mais recentes nunca viram placares tão ‘gordos’ em sequência, 10 x 0, 9 x 1, 8 x 1, remetendo às linhas de ataque do Santos na década de 1960. Tem sido impossível parar estes meninos. Alguns já não são tão garotos assim, mas igualmente contribuem para o sucesso do time ao lado dos jovens Ganso*, Neymar e André.

Os novos ‘Meninos da Vila’ têm jogado tanto que deixaram Robinho, trazido para ser o destaque da equipe, como coadjuvante. Chamam a atenção pelo bom futebol, gols e também pelas brincadeiras nas comemorações, que, por vezes, geram reclamações dos adversários que se sentem menosprezados.

É normal que um time formado por garotos cometa suas molecagens, travessuras, diabruras, como queiram. Afinal, os meninos vivem grande momento, dão ‘show’ a cada jogo e sobra espaço para que façam suas brincadeiras. É péssimo para os adversários verem que o time do Santos é muito superior tecnicamente e, de sobra, ainda levarem dribles humilhantes (Chicão que o diga) e aturarem as comemorações dançantes. Compreendo, devem ficar fulos da vida. Mas nesse estágio atual, todos os adversários dos santistas já começam o jogo em patamar inferior**, pensando em não levar gols ou no que fazer para impedi-los de jogar, esquecendo-se de fazer seu próprio jogo. Se há algo nos jogos que inferiorize os adversários, estas são a técnica e a habilidade dos garotos da Vila. Assim, para os santistas, as comemorações são meras brincadeiras, enquanto para os adversários, inferiorizados tecnicamente dentro de campo e fragilizados emocionalmente, transformam-se em grande tormento.

Aliás, outros jogadores também tiveram seus bons momentos e fizeram suas brincadeiras no passado. Dos mais divertidos, os atacantes Viola e Túlio Maravilha sempre faziam suas gracinhas após balançarem as redes, pois era algo que vinha da própria personalidade, assumidamente brincalhões e provocadores. Falastrões, zombavam mesmo, era parte do ‘script’, mas assumiam a responsabilidade do jogo, pois eram peças-chaves em suas equipes. Fora isso, as irreverências deles, dentro e fora de campo, alegravam e muito as partidas.

Não acho que os gracejos santistas tenham o mesmo tom que os de Viola e Túlio, até porque os garotos possuem personalidades bem distintas. Ganso é bem tímido; Neymar, apesar das molecagens dentro e fora de campo, também não é dos mais desenvoltos diante dos microfones e câmeras; André, talvez por ser fluminense, é o mais falador, mas não um falastrão. Vejo que as brincadeiras surgem simplesmente porque são jogadores novos, alegres, garotos ainda, cheios de vida, aproveitando o bom momento, tirando onda de si mesmos e do treinador Dorival Junior.

Pelo que fazem nas comemorações, não há sinais de fanfarronice ou menosprezo. Podem até irritar os jogadores ou torcedores adversários, mas, com certeza, não são as brincadeiras o que mais os incomoda, e sim ter que admitir que o time santista é bem superior e vem jogando um futebol que encanta as platéias. Se amanhã ou depois deixarem de comemorar com as coreografias de agora, também será algo normal, pode ser sinal de amadurecimento, podem estar vivendo outro momento. Contudo, esperamos que não percam a alegria e a irreverência dentro de campo, com a bola nos pés, essas peças fundamentais que ajudam a salvar o futebol da mediocridade cotidiana e, com certeza, muito mais importantes e prazerosas que as galhofadas dos fanfarrões artilheiros de outrora.


P.S. *O garoto sempre foi o Ganso. Luxemburgo chegou ao time santista e determinou que o jogador fosse chamado de Paulo Henrique. Se dependesse de Luxa, o maior jogador de todos os tempos seria Edson Arantes. Não aceitaria nem Edson Pelé.

**O Santo André fez uma grande partida contra o Santos hoje. Foi pra cima, tocou a bola, teve grandes oportunidades, não se acovardou em nenhum momento. Ganharia de qualquer time que não fosse o Santos.

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