quinta-feira, 20 de maio de 2010

A coerência de Dunga

Coerência e comprometimento foram as palavras mais utilizadas pelo técnico Dunga durante sua coletiva de imprensa que anunciou os 23 jogadores selecionados para a disputa da Copa do Mundo. Quem esperava ansiosamente por alguma surpresa se decepcionou. De diferente, apenas a convocação de Grafite para o ataque e a preferência por Michel Bastos para a lateral esquerda. Apesar do clamor popular, as aspirações de Ronaldinho, Ganso e Neymar viraram água.

Não podemos dizer que faltou coerência a Dunga; pelo contrário, sobrou. O treinador sempre afirmou que não haveria surpresas na lista final, portanto, foi coerente. A opção por Grafite só aconteceu pelo desleixo de Adriano na atual temporada (faltou comprometimento), e o técnico da seleção se viu obrigado a procurar outro atacante com as mesmas características (de área, forte, goleador). Coerente, novamente. Mesmo que tenham ocorrido algumas alterações e adaptações, não pretende mexer no time que vem ganhando os torneios internacionais (Copa América e Copa das Confederações). O esquema tático permanece o mesmo desde sempre (4-3-1-2). Nova coerência. Nesse quesito, Dunga nunca faltou com a verdade.

As críticas se dão justamente pela falta de abertura de Dunga a um componente novo, ao jogador que possa modificar a situação, que possa fazer o inesperado. Conhecemos de cor as variações táticas do treinador da seleção, com seus três volantes, a opção por Daniel Alves no meio ou na esquerda, a entrada surpresa de Elano. Dunga aposta naquilo que vem dando certo e não cobra ‘show’ de seus jogadores, mas comprometimento. Nunca prometeu ou fez questão pelo melhor futebol, tanto é que levará apenas um meia de origem (Kaká) e mais outros tantos volantes ‘versáteis’ que podem exercer diferentes funções, dependendo do andamento do jogo. O técnico fez a opção por jogadores que carregam algo do ‘Dunga jogador’, daquele espírito guerreiro e ‘comprometido’ com a seleção. Apostará no conjunto, uma vez que, dos escolhidos, não possui nenhum jogador acima da média ou que esteja jogando barbaridades.

E Dunga estava sossegado, uma vez que não havia nenhum craque brasileiro fazendo algo ‘extraordinário’ e que pudesse mexer com a opinião pública para uma convocação. De repente, Ronaldinho voltou a jogar bem, Ganso e Neymar trucidavam seus adversários e o sossego do comandante se foi. Porém, o gaúcho é durão e não convocaria um jogador pelo clamor da opinião pública. Jamais aceitaria a fama de ter sido ‘pressionado’ a convocar este ou aquele jogador. Ganhando ou perdendo, Dunga poderá dizer que sua opinião sempre prevaleceu, que nunca houve interferências, que a responsabilidade por não levar Ganso é toda dele. Por nada alteraria seu projeto. Se tivesse um Romário disponível, provavelmente ficaria de fora da lista por mau comportamento.

Se o Brasil ganhar a Copa, o discurso será algo parecido com a fala de Zagalo, do “vocês vão ter que me engolir”. Se perder, há grandes chances de Dunga se tornar um novo Lazaroni, para ser esquecido. Há talentos nesta seleção, mas falta brilho, alguém capaz de surpreender, aquele toque inesperado, mágico, impossível. Não há mais Zico, Romário, que faziam o impensável. Dunga aposta em sua receita de bolo. A ver.

P.S. Maradona foi ousado. Deixou de fora Gaby Milito, Zabaleta, Zanetti, Cambiasso, Gago, Lucho Gonzales (e Riquelme que já havia abdicado). Optou por Otamendi, Bolatti, Pastore, Clemente Rodriguez, Garcé. Messi e os demais atacantes terão que se desdobrar.

3 comentários:

Andre de P.Eduardo disse...

Maradona talvez seja o maior rival da Argentina nessa Copa. Se não abusar da maluquice, Argentina Tri.
Eu colocaria Messi, Aguero, Higuaín e Tevez.

Roberto disse...

Nada justifica a ausência de Zanetti e Cambiasso. Jogam e jogaram muito na Champions. Quanto ao Riquelme, será uma pena ele ficar de fora do ataque mais poderoso da Copa...

CrápulaMor disse...

Acho que a justificativa para não chamar Neymar e Ganson - de que são muito jovens, inexperientes, e poderiam não aguentar a pressão - é até válida. Ou, no mínimo, coerente, para usar o termo preferido de Dunga. Não entendi muito bem o Pato ter ficado de fora... Brilho individual, futebol arte pode fazer falta, ser bonito de se ver, mas não é indispensável para vencer, né? Vamos ver no que vai dar a metodologia de Dunga...