terça-feira, 29 de junho de 2010

Apuntes da Copa (15) – Instinto coletivo

- Holanda 2 x 1 Eslováquia – Se estamos falando de instinto coletivo, o que Robben estaria fazendo aí sozinho? É que o jogador era a “peça” que faltava para fazer o time holandês se soltar um pouco mais. Só um pouco mais mesmo. Mas o time é outro com a presença de Robben, se movimenta mais, se aproxima mais, chuta mais. Robben anotou o seu, Sneijder também, não tiveram grandes preocupações defensivas durante o jogo, a não ser no finalzinho. Os eslovacos até que tentaram, mas faltou time para enfrentar um europeu bem melhor que a Itália. Mas cumpriram bem a meta, chegaram as oitavas, mandaram um belo “va fanculo” aos italianos e, por enquanto, ainda têm um dos artilheiros da Copa. Aliás, sensação estranha deve ter tido Vittek ao cobrar o pênalti, fazer o gol e, de imediato, ver o juiz encerrar a partida. Não deu tempo nem de pensar. E os holandeses terão novamente os brasileiros pelo caminho. Sempre jogos disputadíssimos, históricos. Mas para ganhar do Brasil, mesmo tendo um dos melhores elencos do campeonato, vão precisar colocar um pouco mais de sangue nesses olhos, vibrar um pouco mais. Robben é um ótimo alento. Esse rapaz dá um bom suco.

- Brasil três, Chile nada – os chilenos podem jogar umas cem partidas seguidas com os brasileiros e a chance de conseguir um resultado positivo ainda será menor que zero. Não adianta Bielsa fazer aquelas caras todas. Esses são fregueses convictos. O melhor adversário possível para o estilo de jogo da seleção de Dunga. Marcam pouco, dão espaços, perdem a bola toda hora na intermediária, erram muito. Resultado: vitória fácil, sem maiores surpresas aos brasileiros, jogando um futebol simples, sem muita onda, só o suficiente mesmo. Não dá para avaliar muito a seleção brasileira depois de um jogo contra o Chile. Jogando mal ou bem, vence quase 100% dos confrontos, muitos por fáceis goleadas. Se o Brasil perdesse para o Chile é porque precisaria trocar todo mundo mesmo. Mas o Brasil vai indo, no ritmo do treinador, com um conjunto forte, sem estrelas, sem muito brilho, levando poucos sustos. Robinho marcando o seu, Fabiano sempre atento, Dani Alves melhor, Ramires estava muito bem, mas levou amarelo e está fora do próximo jogo (quem será o novo volante nesse revezamento todo?). Agora um novo reencontro com os holandeses, um jogo pra valer mesmo, jogo de cabra bom. Porque contra os chilenos é covardia. Pode jogar com uns dois, três jogadores a menos que eles não ganham.

- Espanha 1 x 0 Portugal – Parecia que ia ser um jogão pelos primeiros minutos. Faltou darem continuidade. Mas, pela primeira vez, o tão falado conjunto espanhol compareceu – sim, mas na segunda etapa. Iniesta chegando, Xavi conduzindo, Xabi Alonso dando aquele suporte, Sergio Ramos ganhando todas, todos sem ficar só trocando passes, cozinhando o jogo. E Villa fazendo gol novamente. Parece que é só ele que faz mesmo. Os espanhóis não deram chances à turma de Cristiano Ronaldo, que só conseguiram jogar na primeira etapa. Depois, foram anulados por completo. Portugal tem um time bom e CR7 deveria ter chamado a “responsa”. Poxa, é Copa! Mas não assustou mesmo, saiu-se melhor nos telões dos estádios – até os telões esperavam algo mais. Os espanhóis seguem e terão pela frente os impávidos paraguaios. Jogo duro, os espanhóis são favoritos, mas precisarão fazer os gols que vêm perdendo. E como perdem! Ainda há tempo.

- Paraguai 0 (5) x (3) 0 Japão – Jogo sofrido. Os japoneses jogaram enquanto tinham velocidade. O “turbo” acabou, precisaram mostrar um pouco da técnica e deu para ver que não tinham muita. Os paraguaios tinham mais controle do jogo, uma técnica mais apurada, mas, como sempre, preferiram não arriscar muito. No geral, jogo pegado, disputado, com algumas chances de gol de ambos os lados, mas faltou vontade. Vontade de ganhar logo, pois parecia que os dois times já estavam aguardando os pênaltis desde o começo. Nos quesito penalidade, paraguaios irretocáveis, Komano mandando a bola no travessão. E, pela primeira vez, o Paraguai avança às quartas. Vão dar um trabalho danado ao time espanhol, pois sabem segurar um jogo como ninguém e, às vezes, até esquecem que tem uns bons atacantes lá na frente, ao contrário de outras épocas quando só tinham bons defensores. Logo me lembro de 1998, daquele duelo contra os franceses, sem Zidane, suspenso por ter pisoteado um saudita, aquela luta dos paraguaios para rechaçarem as bolas, os franceses não conseguiam criar jogadas, aquele Djorkaeff não jogava nada, os paraguaios resistindo, Gamarra jogando muito com o ombro machucado, até que Blanc encontrou o caminho das redes naquela prorrogação e eliminou os paraguaios no Golden Goal. Mas o Paraguai está aí novamente. E com uma torcida vibrante.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Apuntes da Copa (14) – Erros, shows, tradição e mudanças de comportamento

De trás para frente.

- Alemanha 4 x 1 Inglaterra – Não adianta ficar reclamando da arbitragem.
O juiz e o bandeira não viram o tanto que a bola entrou no chute de Lampard? Não. Erro absurdo? Sim. A Inglaterra poderia almejar algo mais? Talvez. Mas é assim mesmo, arbitragens não são infalíveis e a juizada costuma vacilar de vez em quando. Sorte para uns, azar para outros. E os alemães, no geral, foram muito melhores que os ingleses. Schweinsteiger marcando e saindo para o jogo, Müller e Podolski jogando certinho, Klose, como sempre, incomodando lá na frente e pegando as rebarbas, o garoto Paulo Miklos Özil, “sul-americanamente”, enfileirando os rivais - talvez seja a grande revelação desta Copa. O próprio Gerrard admitiu que os alemães estavam impossíveis. Se os ingleses tivessem se esforçado um pouquinho mais na primeira fase, teriam evitado o confronto precoce com os alemães. Voltarão para casa de cabeça cheia, com o sentimento de terem sido atropelados por um trem e com um gol absurdamente não marcado entalado na garganta. Mas é assim mesmo, afinal, já ganharam uma Copa com um gol que não foi. Os alemães são sempre assim, vão de mansinho, parecem não estar interessados no jogo, mas chegam lá e abocanham. A diferença é que agora há jogadores talentosos em maior número que os tradicionais tanques, como o desengonçado reserva Mario Gomez. Vão ter os argentinos novamente pela frente. Pelo que vêm jogando, ambos, alemães e argentinos, mereciam mais que só uma quartas-de-final. É assim mesmo, acontece.

- Argentina 3 x 1 México – Não adianta ficar reclamando da arbitragem. Foi impedimento escandaloso no primeiro gol de Tevez? Foi. O bandeira quase voltou atrás na marcação quando viu o lance no telão? Sim. Mas o que os mexicanos podiam fazer diante do fantástico ataque argentino? No mínimo não facilitar as coisas, como Osório fez no lance do gol de Higuain. Quando estão com a bola, Messi, Tevez e Higuain são impossíveis. Não foi uma boa partida tática dos argentinos, mas quando foi preciso decidir não falharam. Tevez estava inspiradíssimo, pressionou e atacou muito, fez um golaço-aço-aço e foi injustiçado por Maradona ao ser substituído. Higuain, goleador, Messi, só parado na falta, um espetáculo. Desta vez, a zaga argentina foi testada e levou susto a todo momento. Mas venceu o melhor, indiscutivelmente. Agora vem o clássico com os alemães, um jogaço de campeões, um duelo digno de final, mas pelas quartas. Mas é assim mesmo. Aos mexicanos fica a dica: não deixem mais os argentinos chutarem de fora da área. E aconteça o que acontecer, todos os olhos do mundo estão em Maradona.

- Uruguai 2 x 1 Coréia do Sul – E olha o Uruguai aí! Num jogo molhado, os uruguaios se mostraram mais técnicos e dominaram as ações do jogo. Com aquele aguaceiro caindo, não dava para os sul-coreanos jogarem em velocidade. Aí faltava técnica. Melhor para os uruguaios, que tocavam melhor a bola e chegaram à vitória com dois gols de Suárez, artilheiro da Celeste. Depois de 40 anos, os uruguaios voltarão a disputar uma quartas-de-final. O time chegou à África do Sul como o pior sul-americano das Eliminatórias, desacreditado, como provável eliminado num grupo com França e México. Mostrou força, garra, disposição, honrando a tradição das equipes de 1930 e 1950, renascendo para o futebol, lembrando a todos que são bi-campeões do mundo. E que tem camisa. Bonita, é verdade.

- Gana 2 x 1 EUA – A África segue. Sofrido, dramático, na prorrogação, mas os ganenses tiveram mais fôlego que os estadunidenses nos cento e vinte minutos. O time ganense estava mais solto, mais leve, menos afobado e marcou um gol relâmpago com Boateng. Os favoritos norte-americanos parecem só saber jogar no segundo tempo, quando empataram o certame com um gol de pênalti de Donovam. Depois, muitos lances foram perdidos pelos americanos e os ganenses conseguiram arrastar o jogo para a prorrogação. E no tempo extra não dá para esperar muito de tática, técnica, toque de bola, só coração na ponta da chuteira. E num balão da zaga ganense para o ataque, o “inderrubável” Gyan mostrou toda sua força após a trombada do zagueiro norte-americano Bocanegra e fuzilou o goleiro Howard. E os ganenses seguem, terão os bravos uruguaios pela frente e pretendem mostrar ao mundo que não vivem só de torneios sub-20. Vão na onda do artilheiro Gyan, o craque da camisa número 3. Número 3? Tudo bem, mas nunca vi artilheiro com a camisa 3. E fim da linha para os norte-americanos, que, aos poucos, vão se animando e mostrando ao mundo que futebol não é só coisa para meninas.

sábado, 26 de junho de 2010

Apuntes da Copa (13) – Patrícios

- Brasil 0 x 0 Portugal – Futebolzinho medíocre dos brasileiros. Futebolzinho acovardado dos portugueses. Do lado brasileiro, Lúcio louco (pleonasmo) para entregar o jogo e achando que é Beckenbauer, Felipe Melo trocando “gentilezas” com Pepe, Gilberto sem acertar um passe, Dani Alves sem acertar um escanteio, Batista em nível neozelandês, Michel Bastos, deixa pra lá. De bom mesmo, apenas a participação de Nilmar no primeiro tempo. Parece que não tem jeito, contra times fechados os brasileiros ficam sem saber o que fazer. Aos portugueses faltou objetividade, mas tiveram as melhores chances do jogo. Se tivessem um pouquinho mais de ousadia, poderiam ter vencido o nada inspirado time brasileiro. CR7, apesar da forte marcação brasileira, é quem mais levava perigo pelo lado português. Depois, também pensando no resultado, desistiram de atacar. E o jogo ficou lamentável. Com exceção de Nilmar, todos os outros reservas foram muito mal, não demonstraram que possuem condições de substituir os titulares. Na próxima fase, portugueses farão o clássico contra os espanhóis e os brasileiros pegarão os fregueses chilenos. O Brasil de Dunga segue o exemplo do de Parreira em 1994. Joga pro gasto, não leva muitos sustos e é extremamente dependente da individualidade dos jogadores. E assim vai indo.

- Costa do Marfim 3 x 0 Coreia do Norte – O melhor time africano vai embora pra casa. Muito melhor que nigerianos, camaroneses, sul-africanos, argelinos e os classificados ganenses, só não precisam bater tanto. Precisavam ganhar de uns 10 x 0 e torcer para uma derrota portuguesa. Não deu. Quem sabe numa próxima oportunidade possam cair num grupo mais fácil, sem argentinos, holandeses, brasileiros, portugueses. Aos norte-coreanos, uma honrosa 32ª colocação.

- Espanha 2 x 1 Chile – Não sei, mas esse time espanhol ou é muito confiante ou muito frio. Mas é um time muito técnico, com volantes e meias excelentes, e deu conta do recado contra os valentes chilenos. Villa, aproveitando uma bobeira do goleiro chileno Bravo, e Iniesta fizeram os gols espanhóis. Millar descontou para os chilenos, que agora terão novamente os brasileiros pela frente. Vão ter que jogar muito, já que Batista e Josué não estarão em campo para facilitar as coisas. Os espanhóis terão que correr um pouco mais para enfrentar os portugueses. Ainda falta “fúria”.

- Suíça 0 x 0 Honduras – Chega, né.

Apuntes da Copa (12) – O campeão voltou, literalmente

Antes tarde do que nunca. Mais análises dos certames passados:

- Eslováquia 3 x 2 Itália – Não teve jeito. A pior Itália dos últimos tempos se foi. E já vai tarde. Não dá para ficar lamentando muito por este time que sequer conseguiu ficar à frente do placar em nenhum jogo, nem contra os esforçados, mas fracos, eslovacos. Vittek fez a festa com dois gols e se tornou um dos artilheiros da competição. Os italianos só melhoraram com a entrada Pirlo e Quagliarella, que fez a jogada do primeiro gol italiano e ainda marcou um golaço nos descontos. O perna-de-pau Pepe ainda perdeu a chance de levar o jogo para a prorrogação. Os eslovacos seguem, mas não devem ter lá muitas chances contra os holandeses. Os italianos, por sua vez, depois da paulada que levaram, precisarão encontrar um novo caminho, buscar novos atletas, trabalhar uma nova geração, pois não possuem mais zagueiros, meias e atacantes bons como tiveram em outros tempos. A Inter de Milão é o maior sintoma dessa carência, pois há cinco anos domina o futebol italiano e não possui um jogador italiano sequer no time titular. Terão quatro anos para repensar o fiasco.

- Paraguai 0 x 0 Nova Zelândia – Já pensou se a Nova Zelândia vencesse o Paraguai? Terminaria na primeira colocação do grupo, situação a princípio inimaginável. Mas faltou qualidade para tentar alguma coisa contra o arrumado time paraguaio, que jogou o suficiente para garantir o empate e a primeira colocação. Se forçasse um pouquinho só, os paraguaios venceriam fácil, mas preferiram se poupar para a fase seguinte – vão ter que gastar o fôlego contra os aplicados japoneses. Os neozelandeses fizeram um bom papel, dentro das limitações do elenco quase amador. Saírem invictos é quase um título para eles. Basta lembrarmos que os neozelandeses ficaram à frente dos últimos campeões. Jogaram muito. Faltou o haka.

- Japão 3 x 1 Dinamarca – Os dinamarqueses não conseguiram segurar o aplicado time japonês. Foram para cima, mas vacilaram bastante. Os japoneses conseguiram anotar dois inéditos gols de falta, em boas cobranças de Honda e Endo. O viking Tomasson ainda descontou numa rebarba da penalidade mal cobrada por ele mesmo. Mas o gol de Okazaki terminaria com a esperança nórdica. Os nipônicos seguem e terão pela frente os valentes paraguaios. Uma pena a desclassificação dos dinamarqueses, pois, junto com o time, a torcida também vai embora.

- Holanda 2 x 1 Camarões – Holandeses e camaroneses fizeram só um amistoso. Van Persie e Huntelaar anotaram para os holandeses e Eto’o descontou para os camaroneses, na despedida dos leões. Sem mais o que comentar, a não ser a volta de Arjen Robben, o grande alento holandês para as fases seguintes. Em 17 minutos, jogou mais que muito holandês nos outros jogos e é certeza de melhora para o ataque. Como diria Silvio Santos, “aguardem”.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Apuntes da Copa (11) – Yes, we can!

- EUA 1 x 0 Argélia – A situação não era das mais difíceis para os norte-americanos: vencer a débil Argélia para garantir a classificação. Os ianques estavam tão à vontade no jogo que perdiam gols inacreditáveis. Contudo, o gol não saía, o tempo passava, o desespero aumentava, os torcedores se contorciam nas arquibancadas, o drama crescia, a Televisa já preparava o roteiro e os EUA iriam embora para casa invictos, com três míseros empates na bagagem. Quando tudo já parecia perdido, lá pela bacia das almas do segundo tempo, Donovam pegou uma rebarba do goleiro argelino M’bolhi e garantiu a festa ianque e de Bill Clinton, a tristeza de Glenn Beck da Fox News e a classificação norte-americana para as oitavas. Os argelinos ficarão sem comentários mais uma vez. Já os EUA enfrentarão Gana na próxima fase. Os norte-americanos vêm dando trabalho às grandes seleções do soccer e, por conta dos cruzamentos das chaves, podem ir longe nesta Copa. Mas ainda precisam aprender muito sobre o jogo com as mulheres, estas, sim, grandes vencedoras naquele país (yes, she can!).

- Inglaterra 1 x 0 Eslovênia – Os ingleses finalmente mostraram um pouco de futebol, esporte que dizem ter inventado ou organizado as regras. Gerrard e Lampard apareceram, Rooney estava mais disposto, mas foi só um golzinho michuruca de Defoe que deu a vitória aos ingleses. Tudo bem, tiveram outras chances, mas por terem marcado apenas dois gols nesta fase, terão que enfrentar os alemães nas oitavas. Aí é clássico. E é bom ir treinando a pontaria também. Quanto aos eslovenos, não jogaram muita coisa para merecerem a classificação. Fizeram um jogo horroroso com os argelinos e só ganharam por culpa do frango do goleiro; contra os americanos tinham a vantagem, mas se não fosse o juiz sairiam derrotados; diante dos ingleses pouco se impuseram e estavam esperando a sorte bater à porta com um empate entre EUA e Argélia. Preferia os russos.

- Austrália 2 x 1 Sérvia – Os sérvios precisavam vencer os australianos para se classificarem à próxima fase. Não parecia ser difícil envolver os kangoroos de cintura dura. Mas não é que os australianos resolveram jogar justo quando já não tinham mais muitas chances? Cahill e Holman anotaram para a Austrália. Pior para os sérvios, que alimentavam a esperança de passar à próxima fase depois da vitória sobre os alemães. Mas se comportaram como o Juventus ou a Lusa, que ganham dos grandes e se complicam diante dos pequenos. No final das contas, justa eliminação para ambos.

- Alemanha 1 x 0 Gana – um jogo parelho, com alemães partindo pra cima, precisando da vitória, e ganenses jogando mais soltos, se aproveitando do nervosismo do adversário. Boas chances de ambos os lados, porém só os alemães balançaram a rede, num chutaço de Mesut Özil. Para felicidade dos ganenses, quem venceu a outra partida foi a Austrália, que precisaria descontar muitos gols de saldo. Sim, os kangoroos lhe salvaram a pele. E de quebra não precisarão enfrentar nenhum gigante na próxima fase, mas sim o arrumado time dos norte-americanos, que ultimamente anda complicando a vida das grandes seleções. Para os alemães sobraram os ingleses, parada indigesta, clássico. Mas os germânicos se apresentaram melhor até aqui. E esse rapagote Özil joga fácil. Meu colega Alex me alertou que ele lembra muito o Paulo Miklos.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

Apuntes da Copa (10) – A loucura sul-americana


Com certo atraso, mas sempre em tempo de comentar os quebra-canelas.

- Uruguai 1 x 0 México – Que armação que nada, isso é coisa de alemães e austríacos. Uruguaios e mexicanos se enfrentaram para valer e honraram as vagas conquistadas para as oitavas. Os mexicanos foram pra cima e os uruguaios apostavam no contra-ataque. No final do primeiro tempo, Luís Suarez fez o gol que deixaria os uruguaios na primeira colocação do grupo, deixando os mexicanos preocupados, pois os sul-africanos demonstravam que atropelariam os franceses na outra partida. Não foi o que aconteceu. O Uruguai foi melhor que o México, atacou bastante, tem um belíssimo jogador, Forlán, que honra a tradição das gerações de 1930 e 1950. Depois de 20 anos, os uruguaios voltam a disputar um jogo de oitavas-de-final, contra os sul-coreanos, e têm grandes chances de chegar às quartas. Os mexicanos se garantiram em segundo, pelo saldo de gols. De castigo, terão os argentinos pela frente. É bom irem treinando desde já.

- África do Sul 2 x 1 França – O jogo do desconsolo. Do adeus. Da vergonha. Um pouco disso tudo. Os sul-africanos até que tentaram, chegaram a sonhar com a vaga quando abriram 2 x 0 no placar, com Khumalo e Mphela. Mas quando precisavam demonstrar força, quando a qualidade técnica foi necessária para ampliar o marcador, via-se claramente que a conquista da vaga estava muito além da conquista da honra, que foi a consolação para os sul-africanos. Ao menos, despediram-se com vitória, uma recompensa para os animados e vuvuzeleiros torcedores. Não sei como deve estar a cabeça dos jogadores franceses. Tristes pela eliminação? Com vergonha do papelão? Aliviados por se livrarem de Domenech? Apostaria na última opção. O lateral Evra disse que revelará “toda a verdade” e “tudo o que passou como capitão do time”. De acordo com o jogador, há uma razão para o fracasso. Não sei se os franceses vão aceitar os argumentos, mas se trata de uma atitude digna de Evra. Como capitão do time, vai dar a cara para bater, sem medo, pois deve uma satisfação aos torcedores e sabe que as coisas poderiam ter sido diferentes. E que há culpados nesse vexame, além da falta de um jogador como Fontaine, Platini ou Zidane.

- Nigéria 2 x 2 Coreia do Sul – Os nigerianos perderam gols demais nos três jogos. Apesar dos gols marcados contra a Coreia do Sul,
o perdido por Yakubu no segundo tempo definiu bem o que foi o ataque nigeriano nesta Copa. Faltou calibrar o pé. Mais uma seleção africana que se despede. Pela incompetência dos nigerianos e mediocridade dos gregos, os sul-coreanos ficaram com a segunda vaga do grupo e terão que se desdobrar contra os impávidos uruguaios. O interminável Park Ji-Sung comanda bem o time sul-coreano. Mas vai precisar de algo mais além da velocidade para repetir a ótima campanha de 2002.

- Argentina 2 x 0 Grécia – Os argentinos treinaram ataque contra defesa diante dos medonhos gregos, que só batiam, escorregavam e pisavam umas não sei quantas vezes na bola. Aliás, era o ataque reserva argentino, pois os botinudos gregos não faziam por merecer jogar contra o time titular. Os argentinos jogaram o suficiente, o time continuava muito técnico, Maradona pode testar jogadores como Otamendi, Bolatti e Clemente Rodriguez, que atuaram bem. Não havia muito entrosamento, mas o necessário para incomodar bastante o goleiro grego Tsorvas. O “capitão” Messi estava digno da braçadeira, com seus dribles e jogadas espetaculares. Por que a bola não entra? Melhor pegar alguma dica com Palermo. Nas oitavas, um reencontro com os mexicanos, que até agora lamentam aquele chutaço de Maxi Rodriguez. Por sua vez, os gregos terão que aguardar novos tempos áureos e continuar recordando a época de Péricles daquela Eurocopa. E como é legal ver Palermo marcar um gol. Sempre “optimista”, sempre uma loucura. Antes de entrar em campo, Maradona lhe disse: “Jugate la vida, matate”. Nem precisava dizer.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Apuntes da Copa (9) – Red stars

- Portugal 7 x 0 Coreia do Norte – Cristiano Ronaldo & Cia. não sentiram pena alguma da Coreia do Norte. Contra equipes fracas tem que ser assim mesmo, gol neles. Os norte-coreanos até tentaram equilibrar a partida atacando os portugueses, chutando a gol, impondo um ritmo rápido ao jogo. Mas é aquilo, conseguiram se segurar contra o Brasil montando um paredão defensivo, mas diante do bom time português, atacando daquele jeito, corriam o risco de levar uma sova. E levaram. E foi pouco. O primeiro tempo terminou só 1 x o, com um gol de Raul Meireles. No segundo, os portugueses bateram sem dó nos norte-coreanos, fazendo boas triangulações no ataque e ótimas assistências àqueles que chegavam à área. E, praticamente, quem chegou à área fez gol. Até Cristiano Ronaldo, que não fazia gol há quase um ano e meio pela seleção, deixou sua marca numa jogada esquisita – será que ele quis mesmo matar aquela bola na nuca? Palmas para o treinador do time português Queiroz, que não hesitou ao trocar quatro jogadores da equipe que começou o jogo passado, sendo que Tiago, Hugo Almeida e Simão também anotaram seus tentos. O futebol é engraçado mesmo nesta questão de simpatia pelos chamados “times pequenos”. No domingo, torci muito pelos neozelandeses para segurarem o empate contra os italianos. Ontem, não tive pena alguma dos norte-coreanos e queria mais gols dos portugueses. No final das contas, acho que torço pelo bom futebol mesmo. Por que será que é assim?

- Chile 1 x 0 Suíça – os sul-americanos seguem invictos e bem que os chilenos podiam ter terminado a rodada praticamente classificados. Tudo bem que o time suíço é bem chato, tanto para os que estão jogando contra quanto para quem está somente assistindo, mas os chilenos desperdiçaram chances demais. Os suíços facilitaram tudo, Behrami foi expulso por um lance tolo na lateral e, desta vez, a zaga nem estava tão sólida assim. Mas o Chile só conseguiu o gol aos 30’ da segunda etapa, em boa jogada de Paredes concluída por Mark Gonzales. Os suíços, que nada fizeram o jogo inteiro, perderam a única oportunidade que tiveram aos 44’ do segundo tempo, quando Derdiyok, grosso que só ele, chutou para fora uma bola recebida na marca do pênalti. “El Mago” Valdívia entrou muito bem no segundo tempo, mas continua com o velho hábito de se atirar ao chão. Líder do grupo, o time chileno poderia estar tranquilo, deixando a preocupação para espanhóis e suíços, porém os placares magros podem deixá-lo de fora da fase seguinte. Mas convenhamos, a mídia fica falando das estatísticas do time suíço, que não levava um gol a não sei quantos minutos, mas essa equipe que ganhou acidentalmente da Espanha vai ter que jogar muito para vencer os hondurenhos por uma boa margem de gols. Para o bem do futebol, poderiam avançar chilenos e espanhóis. Retranca, no.

- Espanha 2 x 0 Honduras – chega a dar raiva a displicência dos espanhóis. Poxa, façam como os vizinhos portugueses, façam os gols! Há elenco para isso. O time hondurenho é fraquíssimo e as oportunidades de gols surgiam aos montes para a Espanha. Mas tinha sempre um toque a mais, uma finta a mais, uma força a menos na hora do chute. Os espanhóis sabiam do resultado do Chile e da importância de ganhar por uma boa diferença de gols. Villa fez dois, perdeu um pênalti e outras várias chances de marcar. Seus companheiros também não estavam lá muito inspirados. Agora vão para o jogo contra os chilenos precisando da vitória e o time sul-americano vai ser osso. Ou tiram o futebol do armário e jogam pra valer ou podem amargar outra eliminação na primeira fase, como em 1998, quando perderam para os nigerianos, empataram com os paraguaios e golearam inutilmente os búlgaros no último jogo. Não duvido que possam fazer uma excelente partida contra os chilenos, talvez a melhor da Copa. Futebol tem dessas coisas. Mas que fiquem espertos, pois sempre há um azarão para desgraçar uma bela geração de jogadores.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Apuntes da Copa (8) – A mão que cura

- Paraguai 2 x 0 Eslováquia – Os paraguaios deixaram para trás a “síndrome de coitadinhos” e foram para o ataque contra os eslovacos. Valdez, Barrios e Santa Cruz formaram um ótimo trio ofensivo e deram uma canseira danada no fraquíssimo time da Eslováquia. Mostraram bom toque de bola, tramas envolventes, lembrando a equipe que fez bela campanha nas eliminatórias. Bonitos os gols de Vera e Riveros, depois de ótimas jogadas do ataque paraguaio. Tinham time de sobra para encurralar e vencer os italianos na primeira rodada, mas respeitaram demais a Azurra. Agora dependem de si mesmos para terminar em primeiro lugar do grupo. Apesar do pouco futebol, os eslovacos ainda seguem com chances de classificação caso vençam os italianos na última rodada e os neozelandeses “tropecem” diante dos paraguaios. A julgar pela partida que viria a seguir, a missão não é impossível. Gostei do Paraguai. Já pensou se pudessem contar com “ El Gordo” Cabañas?

- Itália 1 x 1 Nova Zelândia – Uma partida para o torcedor simpatizar com o time mais fraco. Só o futebol mesmo pode proporcionar equilíbrio entre um time quatro vezes campeão do mundo e outro acanhadíssimo – numa visão muito otimista. Falta tudo ao time italiano: ousadia, inspiração, qualidade, técnica. Assim, fica fácil para um time fraquíssimo, como o neozelandês, nivelar o jogo contra um suposto gigante. Na única bola que foi ao gol italiano durante todo o jogo, Smeltz deixou a Nova Zelândia em vantagem, logo aos seis minutos da primeira etapa. Os italianos chegaram ao empate por meio de um pênalti em De Rossi e convertido por Iaquinta.

Depois disso, era o time grande contra o time pequeno. O time grande atacava, mandava bola na trave, fazia jogadas na raça, chutava, cruzava bolas na área, mas não adiantava. O goleiro do time pequeno salvava, a zaga do time pequeno tirava em cima da linha, o time pequeno mandava a bola pro mato, o time pequeno ainda quase conseguia o gol da vitória. Realmente, não tinha como não torcer para a Nova Zelândia. Se os italianos vencessem seria injusto, pois nada jogaram para merecer, e já que fizeram por nivelar um jogo contra um time quase amador, o empate era o resultado mais justo. Ainda há chances de classificação para os italianos, que são acostumados a conquistar a vaga na bacia das almas e depois brigar pelo título. Os neozelandeses têm chances mínimas contra os paraguaios, mas poderão dizer a todos que jogaram de “igual para igual” contra os campeões do mundo.

- Brasil 3 x 1 Costa do Marfim – O campeão voltou? Ainda é cedo para dizer, mas o jogo de hoje segue a lógica dos últimos quatro anos da seleção de Dunga: se o adversário vacilar, é caixa. A Costa do Marfim tinha mais volume de jogo, mas deu liberdade aos jogadores brasileiros. Kaká e Luís Fabiano estavam mais acesos e resolveram o jogo para o Brasil. Não teve jeito, vacilou contra o Brasil, é cerol. No lance mais curioso e bonito da partida,
Luís Fabiano disputou uma bola no alto com a defesa marfinense, arrancou, deu dois chapéus seguidos, matou a bola no braço e fuzilou o goleiro Barry. Uma jogada digna de Romário, com um leve “toque” de Túlio Maravilha. Curioso foi o árbitro interpelar o atacante brasileiro se a jogada tinha sido com a mão
. Se o juiz achou que foi com a mão, por que não anulou? O bom moço Kaká ainda foi expulso por uma jogada boba, juvenil até, pois era evidente que os adversários provocariam a sua expulsão.

Os marfinenses marcaram menos que contra os portugueses, mas bateram mais. Perderam-se no jogo, não conseguiam fazer a bola chegar com qualidade a Drogba. Quando conseguiram, o saldo foi uma cabeçada para fora e outra para dentro. Dentre as seleções africanas, e também entre várias de outros continentes, com certeza é a melhor, mas também deve voltar para casa mais cedo. Vai pagar o preço por ter caído no grupo mais forte.

Quanto ao volume de jogo brasileiro, muitos erros de passes e dificuldades na criação de jogadas, tanto pelo meio, como pelas laterais. Mas, no geral, os brasileiros estavam mais soltos que na estreia e fizeram três gols num forte adversário. Porém, é fato que, com a bola nos pés, o time brasileiro é melhor na individualidade do que na coletividade. O time de Dunga lembra muito o Brasil de 1994, firme na marcação, com poucos lances de brilho. Ao menos, Luís Fabiano lembrou um pouco daquele Romário, inusitado, decisivo. Tudo bem que foi escandalosamente com a ajuda do braço, mas, até a próxima rodada, será o lance mais comentado e livrará um pouco a pele de Dunga, totalmente descontrolado ao final da partida e na coletiva com os jornalistas. Será que a mão de Luís Fabiano é a mão que cura?

domingo, 20 de junho de 2010

Apuntes da Copa (7) – O viking é melhor do que o Eto’o

- Holanda 1 x 0 Japão – Os holandeses estão econômicos demais. Jogam só dez minutinhos, fazem um golzinho numa paulada de Sneijder, com uma pequena colaboração do goleiro Kawashima, e enrolam para passar o tempo. Esqueceram do jogo, uma pena para um time com tantos talentos. O Japão até que tem um time organizado, consegue segurar bem o jogo, mas os holandeses passariam fácil pelos japoneses gastando só um pouquinho mais do futebol. Só no final do jogo o time holandês chegaria novamente com perigo ao ataque, com Van Persie e Afellay, mas faltou afinação na arte de chutar “jabulaninhas”. No geral, classificação sem maiores sustos aos holandeses, que poderão poupar jogadores na última rodada. Mas a pergunta que não quer calar: quando Robben volta?

- Austrália 1 x 1 Gana – Australianos e ganenses disputaram um nada agradável “rachão” por intoleráveis 90 minutos. Parecia que a Austrália reagiria à goleada sofrida na estréia, pois, logo aos 11 minutos da primeira etapa, Holman aproveitou uma rebarba do goleiro Kingson e colocou os Kangoroos na frente. Mas parece que os jogadores desta Copa andam muito inspirados em Júnior Baiano, e o atacante kangoroo Kewell, que os australianos tanto queriam em campo, evitou um gol de Gana com o braço e foi expulso. Gyan, ele de novo, converteu a penalidade para os ganenses. Depois disso, somente erros de ataque, perdas de gols, lançamentos, cruzamentos, chutões e faltas (algumas feias). Gana jogou um tempo e meio com um homem a mais e não conseguiu aproveitar – ô, cintura dura destes ganenses, pareciam os australianos! O duro vai ser decidir contra os alemães, que virão com tudo. Por sua vez, os australianos precisarão reverter quatro gols negativos de saldo contra os sérvios, ou seja, as chances que os kangoroos têm de passar para a próxima fase são as mesmas dos camaroneses serem campeões.

- Dinamarca 2 x 1 Camarões – O melhor jogo do dia. Sim, tivemos os erros de sempre, mas camaroneses e dinamarqueses se esforçaram bastante para fazer um jogo bom. Em nada lembravam as equipes da estréia, pois os times se movimentavam e atacavam bastante. Logo no começo, Christian Poulsen (sempre um Poulsen) entregou a bola de graça para Webo, que deixou Eto’o na cara do gol para anotar seu primeiro tento na Copa. Os leões perderam outras chances de ataque e deixaram a seleção nórdica dominar o meio de campo. Numa dessas, após um lançamento longo e bela arrancada de Rommedahl, Bendtner só empurrou para as redes. Na segunda etapa, o jogo continuava equilibrado, mas novamente Rommedahl fez boa jogada individual e anotou um merecido gol. As duas equipes poderiam ter vencido a partida, ou ainda terminado num bom empate com gols. Depois do jogo, Eto’o estava desolado com a eliminação. Mas não dá para jogar sozinho. Uma pena ver todas essas seleções africanas descaracterizadas, sem a ginga de outrora, parecem todas iguais. Desta vez, a seleção viking foi melhor que o Eto’o e vai disputar a vaga com os japoneses. Para a alegria da torcida dinamarquesa (e que torcida!).

P.S. Anelka deu uma de Gil Brother e mandou o treinador Domenech "tomar no cu tranquilo". Foi desligado do elenco. Pelo futebol da seleção francesa, Domenech mereceu.

sábado, 19 de junho de 2010

Apuntes da Copa (6) – O futebol saindo de trás do armário

Para amenizar a ausência destes dias, vou tentar resumir como foram os últimos quebra-canelas. Parece que o pessoal ficou um pouco mais animado após o fim da primeira rodada. Repito, um pouco só.

- Honduras 0 x 1 Chile – “El loco” Bielsa colocou o time chileno para frente e seus comandados não decepcionaram diante da fraca seleção hondurenha. Tudo bem, decepcionaram um pouco nas finalizações. Mas fizeram o trabalho direitinho. Destaques? O bom chileno Alexis Sánchez, o autor do gol, Beausejour, e o goleiro hondurenho Valladares que fez ótimas defesas e evitou maiores vexames. Quem marcar mais gols em Honduras dará grande passo para classificação.

- Espanha 0 x 1 Suíça – Os espanhóis atacaram, tentaram, tocaram a bola, tiveram umas não sei quantas chances, mas tiveram de se contentar com o gosto do chocolate suíço. Um amargo e suficiente 1 x 0 para os azarões dos Alpes. O badalado time espanhol não conseguiu furar o bloqueio suíço e levou um gol no contra-ataque, numa rebarba apanhada por Fernandes. Os espanhóis formam um bom grupo com Xavi, Iniesta, Villa, Piqué e companhia, mas precisam ser decisivos. Ou vão ficar pelo caminho mais uma vez.

- África do Sul 0 x 3 Uruguai – A segunda rodada do torneio começou e as equipes parecem estar mais animadas. Deram-se conta que precisam ganhar pelo menos um joguinho para pensar na classificação. Os uruguaios não deram espaços para os sul-africanos e foram para o ataque. Forlán marcou duas vezes, Álvaro Pereira também deixou o seu e o Uruguai ficou próximo das oitavas. Já os anfitriões desta Copa, provavelmente, terão que se contentar só com a festa dos torcedores (se bem que muitos deles foram embora decepcionados antes mesmo da partida terminar). Com uma equipe limitadíssima, e ainda comandada por Parreira, não havia muito mesmo o que esperar. Só lhes restaram as vuvuzelas.

- Argentina 4 x 1 Coréia do Sul – Desta vez o ataque funcionou. Os sempre velozes coreanos não puderam segurar Messi, Tevez, Di Maria, Agüero e Higuaín. As trocas de passes não funcionaram tão bem como contra a Nigéria, mas os gols desta vez vieram. “Pipita” Higuaín foi o destaque da partida ao marcar três vezes. Messi teve menos espaços, mas foi capaz de fazer ótimas jogadas, como nas arrancadas nos dois gols da segunda etapa e a bola por cobertura que não entrou. A zaga continua dando sustos, como na vacilação de Demichelis no lance do gol de Lee Chung-Yong. Maradona precisa acertar a linha da defesa argentina, muito atrapalhada. Os argentinos seguem bem, apostando no ótimo ataque para não depender dos “lá de trás”. E Messi jogando o fino.

- Grécia 2 x 1 Nigéria – Quem disse que os gregos não ganhariam um jogo? Tudo bem que a expulsão do nigeriano Kaita colaborou para que a Grécia enfim apresentasse alguma força ofensiva. Criaram boas chances e viraram o jogo na segunda etapa. O goleiro nigeriano Enyeama, mais uma vez, operava seus milagres, era o melhor jogador em campo, até soltar uma bola nos pés do grego Torosidis. O futebol é muito injusto com os goleiros. Lá na frente, seu companheiro nigeriano Obasi perdia gol sem goleiro. No futebol não existe maior vilão que o “guarda-metas”. E Enyeama ficou caído lá no gramado, lamentando o “dia ruim”.

- França 0 x 2 México – os mexicanos não se intimidaram e foram para cima dos franceses. Logo notaram que sem Fontaine, Platini e Zidane, os franceses seriam adversários comuns. Criaram chances e decidiram o jogo no segundo tempo com Hernández e Blanco. Agora os mexicanos vão decidir com os uruguaios a classificação, sendo que o empate resolve a vida das duas equipes – esperamos que não repitam o legado de alemães e austríacos em 1982. Sobre os franceses, creio que o problema maior é o treinador Domenech, que deveria ter sido demitido logo após o fiasco na Eurocopa. Além dos problemas de relacionamento com os jogadores, Domenech posiciona e escala mal a equipe. O que se vê é um time desfigurado, sem um mínimo de vontade e aplicação. Talvez não seja um ótimo time, mas possui um elenco bom o suficiente para não dar vexame diante de uruguaios e mexicanos. Henry cantando após o jogo resume bem como está o ânimo e o respeito que os jogadores têm por Domenech. Estão à beira de novo fiasco. Zidane estava lá assistindo. Poderia estar jogando.

- Alemanha 0 x 1 Sérvia – O que aconteceu com aquele “futebol moleque” dos alemães? Parece que foi neutralizado pelos sérvios, que correram e marcaram bastante. O jogo foi bom, movimentado, mas não houve aquele futebol envolvente que os alemães conseguiram fazer na primeira partida. O árbitro, para segurar o jogo, começou a distribuir cartões amarelos e acabou expulsando o alemão Klose injustamente. Os sérvios se aproveitaram e marcaram seu golzinho no lance seguinte com Jovanovic. Na segunda etapa, Júnior Baiano foi rememorado novamente, desta vez por Vidic, que colocou a mão na bola dentro da área. O “vilão” Podolski desperdiçou a penalidade, além de outras duas chances de igualar o marcador. Os alemães se complicaram e agora vão ter que ir com tudo contra Gana, no próximo jogo. Esperamos que seja com o mesmo futebol apresentado na estreia.

- Eslovênia 2 x 2 EUA – bom jogo entre eslovenos e estadunidenses. Resolveram mostrar o futebol que estavam escondendo. Não foi um jogo técnico, mas as equipes finalmente estavam com vontade de vencer. Os ianques estavam dormindo na primeira etapa e Birsa (golaço) e Ljubijankic aproveitaram para deixar os eslovenos numa condição favorável. Na segunda etapa, Donovam começou a reação dos EUA, mandando uma bomba quase sem ângulo. Bradley, meio de carrinho, meio de bico, empatou o jogo. No fim, o árbitro ainda garfou um gol de Edu, que seria a virada norte-americana. Os americanos vão para a última rodada precisando ganhar da Argélia, enquanto eslovenos vão ter uma parada dura contra os ingleses. O futebol vai ter que sair do armário.

- Inglaterra 0 x 0 Argélia – Sem comentários.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Apuntes da Copa (5) – Vacas magras

- Nova Zelândia 1 x 1 Eslováquia – Como diria o Neto, “falar a verrrdade”, não quis assistir ao duelo entre neozelandeses e eslovacos. Algo me dizia que nada perderia de relevante, a não ser os mesmos chutões, cruzamentos na área e passes errados que prevaleceram em outros jogos da Copa. Tive a sorte de apenas ver alguns momentos pela internet. Creio que o lance da furada bizarra do goleiro neozelandês Paston dá uma idéia do nível do futebol praticado. As exceções foram os gols de cabeça de Vittek (impedido) para os eslovacos e de Reid para os neozelandeses. De resto, mais gente que foi para a Copa só para maltratar a bola. Esperava-se mais dos eslovacos, que deixaram para trás nas eliminatórias seleções como Polônia, República Tcheca e Ucrânia. Frustrante. Já a Nova Zelândia deve comemorar muito este empate, pois se os seus jogadores achavam que seriam o saco de pancadas da Copa, agora devem estar muito contentes ao notar que estão no mesmo nível de uns 70% das seleções do torneio.

- Costa do Marfim 1 x 1 Portugal – Ufa! Um duelo em que as duas equipes estavam mais interessadas na vitória do que cuidar da defesa e não sofrer gols. Não queriam decidir a classificação contra o Brasil. Por ironia, o jogo terminou 0 x 0. Costa do Marfim e Portugal possuem jogadores talentosos, sabem tocar a bola, têm atacantes decisivos, mas não conseguiram executar a “jogada final”. Errava-se o último passe, o cruzamento saía errado, o chute ia torto. Com exceção de Drogba, um pouco sem ritmo, os marfinenses estavam com o vigor em dia, marcaram bastante, caçaram Cristiano Ronaldo em campo. Os portugueses tentavam as jogadas pelo meio e laterais, mas os passes esbarravam na marcação adversária – tiveram a melhor oportunidade num chutaço de Ronaldo, que acertou a trave. No geral, foi um jogo menos técnico e mais de pegada. Ao menos, havia jogadores que sabiam o que fazer com a bola. Vão dar bastante trabalho à seleção de Dunga.

- Brasil 2 x 1 Coreia do Norte – Não adianta criticar o Dunga, pois o time vai ser esse até o final, seja qual for o final. O time brasileiro é previsível, não é dos mais criativos e quase sempre se complica e joga mal quando tem um adversário retrancado. Kaká estava irreconhecível e o meio de campo sofria para ultrapassar os velozes norte-coreanos. De diferente, talvez as arrancadas de Lúcio, que estão cada vez mais bizarras. Apenas Robinho demonstrava algum brilho, com dribles e passes precisos. Um misto de chute com cruzamento de Maicon deu mais tranqüilidade ao Brasil, que ainda faria o segundo gol com Elano, após belo passe de Robinho.

Sobre o lado norte-coreano não há muito o que falar. Talvez sobre o choro de Tae-Se no momento do hino, não sei. Sobre futebol, o time joga numa retranca danada e tenta a sorte nos contra-golpes com seus jogadores velocistas, mas pouco habilidosos. Conseguiu a proeza de fazer um bonito gol, com Yun-Nam, o que já está de bom tamanho. E pode complicar a vida de marfinenses e portugueses, o que seria de bom grado aos brasileiros.

Da seleção brasileira não há muito o que esperar. O elenco não permite muitas variações de jogo, no máximo colocando mais um atacante ou o coringa Dani Alves. Mas assim como ocorre com as grandes seleções, fica a esperança do torcedor brasileiro de que o time “cresça” durante a competição. Pelo que se viu, Dunga não tem muito a esconder nos treinamentos, pois é sempre mais do mesmo daquilo que vem sendo demonstrado nos últimos quatro anos. Conforme a coerência do treinador, não deve ocorrer nenhuma mudança. No máximo, de comportamento.

segunda-feira, 14 de junho de 2010

Apuntes da Copa (4) – A beleza da seleção holandesa

- Holanda 2 x 0 Dinamarca - Mesmo sem a presença de Robben, a Holanda poderia ter feito uma partida melhor. O problema não é o esquema tático, que é o mesmo há décadas, mas a forma como os jogadores se adaptam a ele. Havia pouca aproximação entre o meio (Sneijder), os pontas (Kuyt e Van der Vaart) e o atacante mais centralizado (Van Persie). Nestes grandes espaços que a Holanda não ocupava, a Dinamarca passou a jogar e chegar com certo perigo, mas faltava qualidade para o “algo mais”. No começo do segundo tempo, ao melhor estilo Oséas, Simon Poulsen facilitou a coisa para os holandeses ao mandar um “cabezazo” contra a própria meta. Mas a Holanda continuava morna, muito distante, sonolenta. Só melhorou com a entrada de Elia, que ainda meteu uma bola na trave e Kuyt pegou a rebarba. Se tiver um pouquinho mais de empolgação, vai passar fácil pelos adversários da primeira fase, pois tem um dos melhores elencos desta Copa. Mas será preciso fazer melhor uso de seus jogadores. Para o próximo jogo, tomara que Robben coloque um pouco de óleo na engrenagem do Carrossel, que está mais para laranja de ferrugem.

- Japão 1 x 0 Camarões - E tome futebol chato, sem empolgação, duro de assistir, com chutões e ligação direta. Desta vez, o “quebra-canelas” foi entre camaroneses e japoneses, mais gente maltratando a bola. Honda salvou a lavoura para os japoneses, depois de aproveitar uma falha dos zagueiros dos leões. O tempo vai passando e parece que o futebol japonês em nada evolui, ou anda copiando o que há de pior. Muitos lançamentos e passes errados e só chuveirinho na área, como na jogada do gol. Do lado camaronês, Eto’o sozinho não conseguia fazer verão contra a defesa nipônica. Os leões ainda quase empataram numa bomba de M’bia, que acertou o travessão. Seria até justo, pelo equilíbrio de forças (ou fraquezas). Mas o que aconteceu com o futebol africano, daquela irresponsabilidade no drible, daquela ousadia no ataque, daquelas jogadas rápidas e toques de efeito que encantavam o público nas décadas de 80 e 90? Daquele Camarões de Roger Milla? Parece que se “europeizaram” ao pior estilo Irlanda, vivendo de chutões, bolas longas e inúmeros (e insuportáveis) cruzamentos na área. Uma pena.

- Itália 1 x 1 Paraguai - Se os paraguaios não fossem medrosos natos, passariam tranquilamente pelos italianos. Ô, medo de ser feliz! Se não se preocupassem tanto em se defender, poderiam ter complicado muito a vida dos italianos dentro de campo, e não somente nas bolas paradas, como no gol de Alcaraz. A Itália dominou as ações do jogo, ficou mais tempo com a bola, mas não tinha a menor idéia do que fazer com ela, a não ser jogá-la na área e ver no que dava. Nunca vi uma Itália tão medíocre, deve ser a pior geração dos últimos 30 anos. Só De Rossi apresenta alguma qualidade, mas não vai conseguir carregar o time sozinho. Montolivo, Criscito, Marchisio, Iaquinta não teriam lugar em nenhuma das grandes seleções desta Copa, se muito nas medianas. Se não fosse a falha do goleiro Villar no gol de De Rossi, amargariam uma vexatória derrota. Ao Paraguai falta um jogador mais abusado, como Cabañas era – ausência muito sentida. Já os italianos precisam repensar seriamente o mercado do seu futebol, que só importa jogadores para sua liga. Já não possuem substitutos para Totti e Del Piero, por exemplo. Como todos do grupo F devem atropelar a Nova Zelândia, as vagas serão decididas no confronto direto com a Eslováquia.

Mas fiquei impressionado com essa seleção da Holanda. De torcedoras, claro. Uma belezinha.
Mas a dinamarquesa também achei ótima.

domingo, 13 de junho de 2010

Apuntes da Copa (3) – Os “sul-americanos” alemães

- Argélia 0 x 1 Eslovênia - Nem a presença de Zidane conseguiu inspirar os jogadores. A bola parecia queimar nos pés de argelinos e eslovenos, que não conseguiam trocar três passos seguidos. Uma mediocridade só. O panorama do jogo era marcado por chutões, passes errados, cruzamentos imperfeitos, lançamentos que resultavam em lateral ou tiro de meta para o adversário. Destaque do jogo? Nenhum mesmo. Talvez o goleiro argelino Chaouchi que tomou um peruzaço no chute do esloveno Koren. Ou o torcedor maluco que subiu nos refletores do estádio. Resultado injusto, pois o empate sem gols ilustraria melhor o que foi o jogo. Um alento para ingleses e americanos se recuperarem nas próximas rodadas. O gênio Zidane deveria ter descido da tribuna e ido ao gramado para ensiná-los: “olhem, meus filhos, é assim que se bate na bola”.

- Gana 1 x 0 Sérvia - Na segunda partida do dia, Sérvia e Gana tinham condições de fazer um jogo com mais qualidade, tinham jogadores para isso, mas estavam numa “tiriça” braba. Muitos erros, poucas chances, de ambos os lados. O jogo só melhorou um pouco nos quinze minutos finais após a expulsão do sérvio Lukovic. Quando tudo já se encaminhava para um empate sem gols, o sérvio Kuzmanovic, literalmente, “deu uma mãozinha” para Gana vencer o jogo, cortando um cruzamento com o braço dentro da própria área. Lembrou o velho Júnior Baiano. Pênalti tolo, gol de Gyan para os ganenses. Mas se as duas equipes não melhorarem, vão sofrer muito com os alemães.

- Alemanha 4 x 0 Austrália - Ballack não fez falta alguma aos alemães (aliás, acho que não faz falta mesmo). Ficou barato aos fracos australianos os 4 x 0. A equipe alemã foi muito bem: movimentava-se, desarmava, articulava ótimas jogadas no ataque. Estava muito bem equilibrada taticamente. Os jovens rápidos e habilidosos Müller, Özil e Podolski jogaram um futebol “sul-americano”, com passes precisos e dribles. Lahn e Schweinsteiger ajudaram muito também. Quem destoava do time era Klose, que fez gol até, mas perdeu outros vários (parece ser bom mesmo só no jogo aéreo). A Argentina podia ter goleado ontem e não o fez. A Alemanha não perdoou, fez o que deve ser feito contra adversários fracos: gols. Se era considerada favorita só pela tradição, provou a todos que pode jogar com brilho. Molecada boa essa, não? Olho neles.

Apuntes da Copa (2) – Messi valeu o dia


- Coréia do Sul 2 x 0 Grécia - Do certame entre Grécia e Coréia do Sul não pude ver mais que o pontapé inicial e o apito final, literalmente. A aula de inglês começava às 8h30, com intervalo às 10h15. Mas pelos melhores momentos, e como era de se esperar, deu para ver que o time coreano é bem rápido, consegue articular jogadas no ataque, faz bons lançamentos em profundidade, e tem o veloz Park Ji-Sung, jogador do Manchester United, como condutor do time (fez um bonito gol). Pareceu ter ganhado com certa tranquilidade. Os dois gols coreanos saíram após bobeadas dos defensores gregos. Aliás, pelo futebolzinho apresentado hoje, difícil imaginar que um dia a Grécia tenha ganhado uma Eurocopa. Pelo andor, seguirá sem ganhar jogo em Copas do Mundo.

- Argentina 1 x 0 Nigéria - No duelo seguinte, a aguardada seleção argentina foi para cima da Nigéria desde o começo. Conseguiu um gol rápido, num cabeceio de Heinze, e seguiu fazendo ótimas jogadas no ataque. Messi fez de tudo: correu, driblou, arrancou, passou por cima dos adversários, deixou os companheiros na cara do gol, chutou. Brilhou, enfim. Se não fosse o goleiro nigeriano Enyeama, Messi terminaria o jogo como artilheiro do torneio. No geral, o ataque argentino conseguiu envolver os adversários facilmente com boa troca de passes, mas não foi bem nas finalizações. Tevez e Higuain não estavam inspirados. Na segunda etapa, os argentinos se acomodaram e poderiam ter sofrido o empate. A zaga, que já não é das melhores, precisa ser ajustada por Maradona. A Nigéria só oferecia perigo pelos erros de posicionamento da defesa argentina. O time é fraco, erra passes demais, nem a velocidade de outrora conseguem imprimir. Se os argentinos tivessem um pouquinho a mais de vontade, o jogo poderia ter sido uma tranquilidade só. Mas deu para ter uma idéia do que esse ataque mágico é capaz de fazer.

- Inglaterra 1 x 1 EUA - Esperava bem mais dos ingleses, que fizeram uma ótima troca de passes no lance do gol de Gerrard, logo no começo. Mas logo se acomodaram e deixaram os americanos tocar a bola durante todo o primeiro tempo. O castigo veio no peruzaço do goleiro Green. De resto, deu pra ver que os ingleses não se entendem no meio de campo, apesar do talento de Gerrard e Lampard, e deixavam Rooney isolado na frente. As chegadas pelos lados também não funcionavam e no final restou ao time alçar bolas para Crouch. Os americanos abusavam do jogo aéreo e tinham no contra-ataque a principal jogada. Num desses lances em velocidade, Altidore quase virou para os americanos – dessa vez Green fez boa defesa. Mas o jogo foi bem xoxo, com os ingleses bem apáticos. Cadê aquele “melhor futebol do mundo da Premier League”? Tomara que o “monstrinho” Rooney esteja mais inspirado na próxima partida.

Ainda assim, Messi fez valer o dia por pelo menos duas horinhas.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Apuntes da Copa (1)

Não costumo analisar jogos aqui neste espaço, mas é quase impossível não fazer isso em época de Copa. Para não me estender muito, serão pequenas notas e apanhados sobre as partidas do dia.

África do Sul e México fizeram o melhor jogo da rodada (não que isso seja grande coisa). Apesar dos muitos passes errados, lançamentos de goleiro a goleiro e erros incríveis de finalização de ambos os lados, as equipes, dentro das suas limitações, buscaram o resultado, tiveram chances de ganhar o jogo. México melhor no primeiro tempo, África do Sul no segundo. Tshabalala fez um golaço, a África do Sul parecia dominar o jogo, mas o zagueiro Mokoena, numa vacilação incrível, deu condições de jogo a Rafa Marques no lance do gol mexicano. A festa do jogo foi melhor que a partida em si. Não sei se as cornetas dos torcedores ou a bola sobrenatural atrapalharam tanto assim os jogadores. Faltou qualidade mesmo.

Já uruguaios e franceses maltrataram a bola durante intermináveis noventa minutos. A França, sem Fontaine, Platini e Zidane, e num ofensivo esquema 4-5-1, era incapaz de criar uma jogada, parecia um catado, e ainda com seu melhor jogador, Henry, no banco de reservas. Do Uruguai não dava para esperar muita coisa, a não ser de Forlan. De resto, o bom e velho estilo “Libertadores da América”: choques, faltas, expulsão de jogadores. As equipes não merecem nem imagem neste post.

Difícil apostar quais seleções deste grupo passam para a próxima fase. Pelo que apresentaram, não deveria passar nenhuma. Como diria Paulo Bonfá, “jogos duros... de assistir”.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Propagandas, desinformação e intolerância

Estamos em clima de Copa do Mundo e, como é de praxe neste período, assistimos a uma enxurrada de comerciais de tevê com mensagens de apoio à seleção brasileira, que pintam o Brasil de verde e amarelo, que ressaltam toda ‘nossa garra’, nossa força de superação, o orgulho de ser brasileiro, a tradição do futebol canarinho. Em meio a essa euforia toda, também há espaço nas publicidades para os "cutucões" em nossos rivais. Sempre sobra para os argentinos, os alvos preferidos da zombaria, como podemos constatar nas diversas inserções da publicidade de uma cervejaria. Poderíamos relevar o gracejo, tratá-lo como algo normal neste contexto de “clima de Copa” que paira, porém existem diversos elementos envolvidos nestas peças que vão além da simples ‘tiração de onda’ e camuflam conceitos que vão sendo enraizados pela desinformação e preconceito.

Vejamos as publicidades dessa cervejaria*. Apesar de todo “recall” das nossas agências de publicidade (premiadíssimas pelo mundo afora), boa parte das peças nacionais produzidas para tevê faz uso de um tom apelativo que abusa da tagarelice, histeria e repetição exaustiva de slogans. Com essa tática do “bombardeamento”, fica mais fácil a fixação das campanhas na mente do telespectador e essas conseguem dar grande visibilidade ao “produto” em questão. A opção pelo apelativo e tolo é a estratégia perfeita para ocultar a falta de idéias originais e de inspiração por parte dos publicitários. Quando confrontamos os comerciais nacionais com os de outros países percebemos a diferença no tratamento das idéias. Para ficar apenas no mundo das cervejas, basta compararmos os comerciais brasileiros da Skol com os argentinos da Quilmes. Fica nítida a diferença entre a exploração exacerbada e apelativa de um produto e o tratamento mais refinado de uma idéia, que alavanca por si mesma a popularidade da peça e, por conseqüência, do produto (o amigo jornalista André Augusto tratou do tema em post recente no blog Opinião FC).

Em seus comerciais, a cervejaria em questão apostou nas galhofas com argentinos como tema desta Copa. As piadas apresentam personagens estereotipados, débeis, ridículos, os “argentinos perfeitos” para os brasileiros. Utilizam o cômico como fator de desconstrução, por vezes de modo ofensivo. A máxima da rivalidade no futebol é usada para dar a idéia de superioridade dos brasileiros e, neste caso, inferiorizar os argentinos e tachá-los como meros cabeludos, chatos, prepotentes, mal humorados, briguentos, e que, de modo algum, podem ganhar do Brasil no futebol. Na lógica do “vale tudo”, estes comerciais disseminam uma série de preconceitos, da mesma forma como ocorre no tratamento da imagem das mulheres nas publicidades de bebidas alcoólicas, reproduzidas como simples objetos de “consumo”.

Essa tentativa de desconstrução da imagem dos argentinos por meio da rivalidade no futebol não é exclusiva das publicidades, mas também impera nos diversos meios de informação.

No Jornal da Globo, durante a abertura de uma matéria sobre as primeiras entrevistas dos jogadores argentinos, a jornalista Cristiane Pelajo dizia que aqueles “continuavam prepotentes”, pois Lionel Messi havia dito que a seleção argentina é a que possui “os melhores jogadores”. No decorrer da reportagem, Messi realmente dizia que acreditava na seleção argentina por esta possuir os melhores jogadores, mas em sua fala não havia menosprezo algum para com as outras seleções. Mascherano falava sobre as dificuldades que a seleção enfrentaria na Copa. Palermo relatava a felicidade de pertencer àquele grupo. Nada na reportagem remetia à versão que o JG queria passar ao público sobre os argentinos. A idéia era plantar animosidade.

Já o programa Pânico na TV preferiu deixar a cargo do público o “método” de desconstrução. Os internautas deveriam enviar idéias de “vingança” contra os argentinos, como uma revanche do episódio em que o humorista Ceará quebrou o braço num “rachão” disputado nos arredores de La Boca, em Buenos Aires. A “melhor” idéia seria escolhida para ser executada pelos humoristas em nova viagem à capital argentina.

O mais lamentável disso tudo é constatar que o brasileiro médio, que reproduz estes preconceitos, pouco ou nada conhece sobre o povo argentino, sua cultura, sua história. Se falarmos de América Latina, o desastre é ainda maior. As poucas informações sobre nossos vizinhos que chegam a essa massa são fornecidas em quase sua totalidade pela “grande mídia” (tevê aberta, principalmente) e, dependendo do interesse destes grupos, chegam distorcidas ou são apresentadas fora de contexto. Esse brasileiro médio pouco ou nada recebe de informação honesta sobre Paraguai, Honduras, Venezuela, Bolívia, Cuba, mas apenas conteúdo tendencioso sobre Zelaya, Chavez, Morales, Fidel. Basta lembrarmos como essa mesma mídia vibrou com a vitória do conservador Piñera no Chile, pois seria uma demonstração do que poderia acontecer na campanha eleitoral brasileira.

Quando estive na Argentina, pude perceber que essa hostilidade é uma coisa fabricada apenas do nosso lado. Lá conheci um povo que gosta muito de futebol e que consegue tratar essa “rivalidade” na base da ironia, do sarcasmo, sem estereótipos, sem ridicularizações. Conseguem transitar bem entre a autopromoção e o ponto de vista caricato (vide o comercial da TyC Sports que postei semanas atrás). A não ser pelas derrotas da seleção argentina frente à brasileira, não havia qualquer sinal de revanchismo, tampouco qualquer tentativa de desconstrução da imagem do brasileiro, até porque os argentinos conhecem bem sobre América Latina, sobre o Brasil, mais até do que muitos brasileiros. A grande diferença entre um e outro é que “eles” sabem mais sobre “nós” do que “nós” sobre “eles”, ou sobre “nós mesmos”.

Não é necessário desconstruir o outro para enxergarmos nossas qualidades. Foi-se o tempo em que a seleção brasileira precisava ganhar títulos no futebol para que o brasileiro pudesse se autoafirmar. Nos últimos anos, com o fortalecimento do Estado brasileiro e por meio de uma política externa eficiente, o país vem superando esse “complexo de vira-lata”. Porém, ainda há um abismo quando pensamos em um nivelamento de conhecimento e informações, sobretudo honestas, entre Brasil, Argentina e os demais países latinoamericanos. Essa maneira torta e tendenciosa de tratamento aos argentinos, sejam nas publicidades, no jornalismo ou nos programas de tevê diversos, em nada ajuda e só faz despertar a intolerância para com os nossos vizinhos, que pouco conhecemos a respeito. Só serve para expor nossas contaminadas veias abertas.


*Não sou formado em publicidade e minhas impressões não possuem qualquer embasamento científico. Apenas impressões de um jornalista.