quarta-feira, 9 de junho de 2010

Propagandas, desinformação e intolerância

Estamos em clima de Copa do Mundo e, como é de praxe neste período, assistimos a uma enxurrada de comerciais de tevê com mensagens de apoio à seleção brasileira, que pintam o Brasil de verde e amarelo, que ressaltam toda ‘nossa garra’, nossa força de superação, o orgulho de ser brasileiro, a tradição do futebol canarinho. Em meio a essa euforia toda, também há espaço nas publicidades para os "cutucões" em nossos rivais. Sempre sobra para os argentinos, os alvos preferidos da zombaria, como podemos constatar nas diversas inserções da publicidade de uma cervejaria. Poderíamos relevar o gracejo, tratá-lo como algo normal neste contexto de “clima de Copa” que paira, porém existem diversos elementos envolvidos nestas peças que vão além da simples ‘tiração de onda’ e camuflam conceitos que vão sendo enraizados pela desinformação e preconceito.

Vejamos as publicidades dessa cervejaria*. Apesar de todo “recall” das nossas agências de publicidade (premiadíssimas pelo mundo afora), boa parte das peças nacionais produzidas para tevê faz uso de um tom apelativo que abusa da tagarelice, histeria e repetição exaustiva de slogans. Com essa tática do “bombardeamento”, fica mais fácil a fixação das campanhas na mente do telespectador e essas conseguem dar grande visibilidade ao “produto” em questão. A opção pelo apelativo e tolo é a estratégia perfeita para ocultar a falta de idéias originais e de inspiração por parte dos publicitários. Quando confrontamos os comerciais nacionais com os de outros países percebemos a diferença no tratamento das idéias. Para ficar apenas no mundo das cervejas, basta compararmos os comerciais brasileiros da Skol com os argentinos da Quilmes. Fica nítida a diferença entre a exploração exacerbada e apelativa de um produto e o tratamento mais refinado de uma idéia, que alavanca por si mesma a popularidade da peça e, por conseqüência, do produto (o amigo jornalista André Augusto tratou do tema em post recente no blog Opinião FC).

Em seus comerciais, a cervejaria em questão apostou nas galhofas com argentinos como tema desta Copa. As piadas apresentam personagens estereotipados, débeis, ridículos, os “argentinos perfeitos” para os brasileiros. Utilizam o cômico como fator de desconstrução, por vezes de modo ofensivo. A máxima da rivalidade no futebol é usada para dar a idéia de superioridade dos brasileiros e, neste caso, inferiorizar os argentinos e tachá-los como meros cabeludos, chatos, prepotentes, mal humorados, briguentos, e que, de modo algum, podem ganhar do Brasil no futebol. Na lógica do “vale tudo”, estes comerciais disseminam uma série de preconceitos, da mesma forma como ocorre no tratamento da imagem das mulheres nas publicidades de bebidas alcoólicas, reproduzidas como simples objetos de “consumo”.

Essa tentativa de desconstrução da imagem dos argentinos por meio da rivalidade no futebol não é exclusiva das publicidades, mas também impera nos diversos meios de informação.

No Jornal da Globo, durante a abertura de uma matéria sobre as primeiras entrevistas dos jogadores argentinos, a jornalista Cristiane Pelajo dizia que aqueles “continuavam prepotentes”, pois Lionel Messi havia dito que a seleção argentina é a que possui “os melhores jogadores”. No decorrer da reportagem, Messi realmente dizia que acreditava na seleção argentina por esta possuir os melhores jogadores, mas em sua fala não havia menosprezo algum para com as outras seleções. Mascherano falava sobre as dificuldades que a seleção enfrentaria na Copa. Palermo relatava a felicidade de pertencer àquele grupo. Nada na reportagem remetia à versão que o JG queria passar ao público sobre os argentinos. A idéia era plantar animosidade.

Já o programa Pânico na TV preferiu deixar a cargo do público o “método” de desconstrução. Os internautas deveriam enviar idéias de “vingança” contra os argentinos, como uma revanche do episódio em que o humorista Ceará quebrou o braço num “rachão” disputado nos arredores de La Boca, em Buenos Aires. A “melhor” idéia seria escolhida para ser executada pelos humoristas em nova viagem à capital argentina.

O mais lamentável disso tudo é constatar que o brasileiro médio, que reproduz estes preconceitos, pouco ou nada conhece sobre o povo argentino, sua cultura, sua história. Se falarmos de América Latina, o desastre é ainda maior. As poucas informações sobre nossos vizinhos que chegam a essa massa são fornecidas em quase sua totalidade pela “grande mídia” (tevê aberta, principalmente) e, dependendo do interesse destes grupos, chegam distorcidas ou são apresentadas fora de contexto. Esse brasileiro médio pouco ou nada recebe de informação honesta sobre Paraguai, Honduras, Venezuela, Bolívia, Cuba, mas apenas conteúdo tendencioso sobre Zelaya, Chavez, Morales, Fidel. Basta lembrarmos como essa mesma mídia vibrou com a vitória do conservador Piñera no Chile, pois seria uma demonstração do que poderia acontecer na campanha eleitoral brasileira.

Quando estive na Argentina, pude perceber que essa hostilidade é uma coisa fabricada apenas do nosso lado. Lá conheci um povo que gosta muito de futebol e que consegue tratar essa “rivalidade” na base da ironia, do sarcasmo, sem estereótipos, sem ridicularizações. Conseguem transitar bem entre a autopromoção e o ponto de vista caricato (vide o comercial da TyC Sports que postei semanas atrás). A não ser pelas derrotas da seleção argentina frente à brasileira, não havia qualquer sinal de revanchismo, tampouco qualquer tentativa de desconstrução da imagem do brasileiro, até porque os argentinos conhecem bem sobre América Latina, sobre o Brasil, mais até do que muitos brasileiros. A grande diferença entre um e outro é que “eles” sabem mais sobre “nós” do que “nós” sobre “eles”, ou sobre “nós mesmos”.

Não é necessário desconstruir o outro para enxergarmos nossas qualidades. Foi-se o tempo em que a seleção brasileira precisava ganhar títulos no futebol para que o brasileiro pudesse se autoafirmar. Nos últimos anos, com o fortalecimento do Estado brasileiro e por meio de uma política externa eficiente, o país vem superando esse “complexo de vira-lata”. Porém, ainda há um abismo quando pensamos em um nivelamento de conhecimento e informações, sobretudo honestas, entre Brasil, Argentina e os demais países latinoamericanos. Essa maneira torta e tendenciosa de tratamento aos argentinos, sejam nas publicidades, no jornalismo ou nos programas de tevê diversos, em nada ajuda e só faz despertar a intolerância para com os nossos vizinhos, que pouco conhecemos a respeito. Só serve para expor nossas contaminadas veias abertas.


*Não sou formado em publicidade e minhas impressões não possuem qualquer embasamento científico. Apenas impressões de um jornalista.

2 comentários:

Andre de P.Eduardo disse...

Belo post, mais uma vez!! Abraços!

Cláudio Coração é jornalista disse...

E tem, ainda, a Fátima Bernardes no JN (argh!!