terça-feira, 20 de julho de 2010

A Copa que se foi e o futebol “pray same”


Um Mundial que começou muito mal, ruim mesmo. Com raríssimas exceções, a primeira rodada foi de nível lastimável, de dar saudade dos nossos campeonatos locais. Aos poucos, foi melhorando, à medida que os times relembravam da necessidade de ganhar ao menos um jogo para conseguir a classificação. E o melhor mesmo ficou por conta de algumas partidas das fases eliminatórias, quando as equipes precisam demonstrar algo mais para superar os adversários, tempos extras e disputas por penalidades (que desta vez foram apenas duas).

Um Mundial sem nenhuma revolução tática, nenhum “supertime”, nenhum jogador fora do comum, ninguém “comendo a bola” pra valer. Tivemos mais decepções e menos surpresas ou revelações. Messi, Cristiano Ronaldo, Rooney não fizeram o que se esperava deles. Fiasco total de franceses, brigados com o treinador e pouco interessados em jogar, e italianos, precisando de uma renovação completa. Seleções e mais seleções frustrantes, mais interessadas em destruir do que construir, contando com o acaso para uma vitória improvável. Boas equipes jogando apenas para o gasto.

Os espanhois foram campeões com o melhor toque de bola no meio de campo (às vezes, muito “de lado”) e um ataque pífio de apenas oito gols. Os holandeses foram vice, com um bom elenco, com um time mais brigador e um futebol sem muito brilho. As maiores surpresas do torneio foram justamente o terceiro e quarto colocados. A Alemanha surpreendeu a todos com um time jovem, muito aplicado, seguro na defesa, fortíssimo no ataque. Uma molecada muito atrevida. O novato Müller foi uma aposta do treinador Löw – uma lição para a “coerência” de Dunga. Recompensou a confiança sendo um dos artilheiros da Copa e escolhido como a revelação do torneio. O Uruguai renasceu entre as grandes seleções do mundo, comandado pelo “maestro” Forlán, também artilheiro do torneio e escolhido como melhor jogador da Copa. Um time simples, que jogou um futebol simples, sem medo, pra frente, como um bicampeão deveria jogar.

Menções honrosas também ao ataque argentino, ao empenho de Maradona (apesar dos jogadores que não levou), aos valentes jogadores paraguaios, ao esforço dos ganenses, à evolução dos norte-americanos. Ao longo do torneio, foram seleções que arriscaram alguma coisa. De resto, algumas boas atuações individuais esparsas, como as do português Coentrão ou do japonês Honda. No mais, equipes negativamente parecidas, com a mesma proposta defensiva, sem ousadia, pouco inspiradas.

Chama atenção essa uniformização do futebol da maioria das seleções, que são taticamente iguais, acovardadas. Seleções que têm na força e nas bolas paradas o meio de sobrevivência. Um nivelamento baseado em muita marcação em detrimento da ofensividade. Não foi à toa que uma seleção como a da Nova Zelândia terminou a Copa sem perder um jogo. Não foi à toa que as seleções européias do “segundo escalão” e as africanas saíram quase todas na primeira fase. Mesmo com alguns bons jogadores em seus elencos, não havia diferenças na postura destas equipes. Uma falsa proposta de equilíbrio que foi logo enterrada quando tiveram pela frente um time mais interessado na vitória, que se preocupava mais em atacar.

Quando penso nessa padronização do futebol, lembro do técnico Joel Santana, quando este era treinador da África do Sul e dava uma entrevista em inglês após um jogo entre sul-africanos e iraquianos que terminou em 0 x 0. Para Joel, os times foram iguais, portanto, “Iraq and South Africa pray same”. No fundo, é isso mesmo. O “pray same” tornou-se padrão. Quase todo mundo está jogando igual, sem atrevimento. O próprio Dunga abdicou de formar uma seleção mais talentosa, baseada naquilo que sempre foi o diferencial do futebol brasileiro. Poderia ter Ganso e Neymar no auge, mas preferiu apostar no mesmo “pray same” das seleções menos técnicas, de muita briga e marcação. Uma pena esses treinadores todos não serem mais ousados. Acabam perdendo a grande oportunidade da vida por terem medo de arriscar, de montar uma equipe mais arrojada, justamente quando o planeta todo para diante da telinha para acompanhar as partidas. Perdem a grande chance de serem lembrados. Título é bom, mas futebol também conta. O mundo todo não deixa de comentar a “Máquina Húngara”, o “Carrossel Holandês” ou o “Brasil de Telê” porque não conquistaram a taça. Afinal, estas equipes tiveram mais méritos que os vencedores daqueles campeonatos.

Não foi a Copa dos sonhos, de futebol vistoso e craques brilhando. Parece difícil sonharmos com um torneio feito com estes “ingredientes”. Além do “pray same”, o Mundial está cada vez mais submetido à lógica do entretenimento, da distração, das câmeras. Jabulani, Mick Jagger, Larissa Riquelme e o polvo Paul dominaram a cobertura do evento. Só uma figura midiática como Maradona para equilibrar a pauta do lado do futebol. Aliás, os jogos são quase um apêndice do evento. Como disse o Flávio Gomes, “e, além do mais, Copa é festa. O futebol é quase detalhe”.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Apuntes da Copa (21) – El colectivo rojo

- Espanha 1 x 0 Holanda – Um time de respeito. Conquistou ainda mais agora. Depois do fracasso em 2006, quando levaram um baile de Zidane nas oitavas, os espanhois se reergueram, foram trabalhando e, pela primeira vez, montaram uma equipe com jogadores que se tornaram protagonistas dos principais clubes da Espanha. Deu certo. Campeões europeus em 2008, continuaram o mesmo trabalho pensando na Copa do Mundo. Atropelaram os adversários nas Eliminatórias, mas fracassaram na Copa das Confederações diante dos esforçados norte-americanos. Ficou a dúvida: será mesmo que vão agora? Foram.

Jogo final causa diferentes reações nos jogadores. Uns se sentem mais à vontade, outros menos. Uns ficam mais alterados, outros menos. O jogo em si foi truncado, fraco, ninguém se destacava, os jogadores estavam bastante nervosos, não conseguiam executar as jogadas, furavam, faltava giz no taco. Jogo estranho, travado, digno da primeira rodada do mundial, quando ninguém queria se arriscar para não perder. Mas era final. Releva-se, em parte. Valia título inédito.

Os espanhois começaram atacando, tiveram ótima chance numa cabeçada de Sergio Ramos, mas logo os holandeses esfriaram o jogo. Aí começou a sobrar botinada pra tudo que é lado. Van Bommel e De Jong pisoteavam os adversários. A arbitragem relevando, péssima, pra variar. Os holandeses cozinhavam o jogo, davam algumas pancadas, chegavam poucas vezes à frente, mas diminuiam o ritmo do time espanhol, que tocava a bola sem concluir as jogadas – esse time não chuta pro gol! Até que deu certo a estratégia. O jogo ficou tenso. Quem fizesse um gol praticamente selaria a vitoria. Os holandeses tiveram o título na mão e nos pés de Robben, por duas vezes, em incríveis arrancadas. Faltou-lhe tranquilidade na definição, esbarrou em Casillas. Os espanhois tiveram a melhor chance com Villa, sempre ele, sempre esperando a rebarba, depois de uma furada do holandês Heitinga. Não deu também. O jogo estava com cara de disputa por pênaltis. Mas ainda tinha a prorrogação.

Os espanhois dominavam as ações, tiveram ótima chance com Fábregas, mas estava duro de sair um gol. Os holandeses já não tinham pernas, o time estava desfigurado. A arbitragem continuava péssima, até escanteio o juiz errava. E lá pela bacia das almas, no bico do corvo, os econômicos espanhois tiveram um contra-ataque iniciado por Iniesta – melhor do jogo -, a bola ficou com Torres, que cruzou errado, pra variar, a bola sobrou com Fábregas, que lançou Iniesta, que fuzilou Stekelenburg. Estava de bom tamanho. Valia o caneco.

A Holanda teve seus méritos ao chegar até a final, ganhando todos os jogos antecedentes. Mas longe de ser um carrossel. Como um todo, os jogadores pareciam mais preocupados em exercer a função tática do que fazer o próprio jogo, dentro da própria qualidade. As peças não se encaixavam direito, não se aproximavam, estavam taticamente prejudicadas. O time havia mudado as características. Sobrava luta, mas faltava brilho. Era um time mais marcador, até decisivo, mas menos ofensivo. Na final, os holandeses estavam nervosos, não conseguiram jogar e ainda perderam as melhores chances do jogo. Poderiam até ser campeões, pois o jogo final não foi lá grande coisa. Seria interessante se voltassem a ser o que eram a partir de agora.

O título ficou nas mãos do time que tem chamado a atenção de todos nos últimos quatro anos. Um time que não possui um jogador de talento diferenciado, um craque que carrega o time, um “virtuoso” (acho que nunca vi um jogador espanhol “virtuoso”). Trata-se de um conjunto de bons jogadores que se completam no campo, que ocupam bem os espaços, que jogam coletivamente. Possuem mais técnica e menos “fúria”. Apesar da “latinidade”, os espanhois não têm aquele “sangue nos olhos”, aquele limiar entre emoção, garra e sofrimento, comuns aos sul-americanos e que costumamos apreciar. Ao mesmo tempo, invejamos o “sangue frio” dos espanhois que, aconteça o que acontecer, não alteram a característica do próprio jogo quando estão com a bola. Sabem ser pacientes, podem passar a partida toda tocando a bola e aguardando a melhor oportunidade. Às vezes, irritantes pela falta de conclusão. Tanto é que, apesar da superioridade no volume de jogo e posse de bola, os espanhois fizeram apenas oito gols nas sete partidas desta Copa, números inferiores aos dos outros semifinalistas (uruguaios, 11; alemães, 16; holandeses, 12). Enfim, os espanhóis souberam jogar como estão acostumados em seus clubes, tiveram um técnico que não atrapalhou, sem “filosofias” ou “ideologias” egocêntricas. Deixou-os jogar do jeito que sabem, sem brilho em excesso, sabendo controlar o jogo. Deu certo. Finalmente, Casillas pôde erguer a taça, mostrar a medalha,
ir ao encontro da jornalista, da namorada, ao vivo, para todo o mundo.

Para fazer uma análise geral do que foi o Mundial é melhor deixar passar este clima de Copa que ainda paira. Mas podemos dizer que foi merecida a escolha do uruguaio Forlán como o melhor jogador do torneio. Foi artilheiro, fez gols bonitos, jogou muito bem, foi o “cérebro” da equipe. Carregou um time totalmente desacreditado e o recolocou entre os melhores do mundo. Uma façanha e tanto.

domingo, 11 de julho de 2010

Apuntes da Copa (20) – Jogo de campeões

- Alemanha 3 x 2 Uruguai – Alemães em terceiro, uruguaios em quarto. Não são os postos que estes semifinalistas certamente almejavam. Afinal, ambos vinham de jogos memoráveis pelas quartas, tinham mais tradição em Copas que holandeses e espanhois. Não foi o suficiente. Mas ficou o reconhecimento pelas duas equipes que surpreenderam neste Mundial. Os germânicos estão quase sempre entre os quatro melhores e mesmo assim enfrentam a desconfiança. Desta vez, levaram um time jovem e que jogou um futebol bonito. Os uruguaios não chegavam tão longe há 40 anos e causaram espanto geral ao estarem entre os semifinalistas. Foram incansáveis em todos os jogos. E o último jogo foi novamente contra os alemães, numa disputa valendo o terceiro lugar, como no México, em 1970. E perderam de novo.

Não dá para fazer muitas análises deste jogo, pois a disposição e o ritmo dos jogadores não eram os mesmos das partidas anteriores. Sempre é um jogo mais aberto, franco, livre. Os uruguaios estavam mais interessados, jogavam pelo orgulho. Afinal, eram 40 anos! Os alemães estavam mais sisudos, ainda abatidos pela derrota frente aos espanhois. Era difícil não se enxergarem como finalistas depois de massacrarem ingleses e argentinos.

Mas foi um jogo bom, movimentado. Não muito técnico, mas cheio de emoção, com jogadores demonstrando muita vontade. Sem melancolia, com exceção de Klose, machucado, que não pode jogar e ultrapassar Ronaldo na artilharia dos Mundiais. Ficou perceptível também que Suárez e Müller fizeram muita falta às equipes nas semifinais. Os alemães começaram bem e fizeram o primeiro gol com Müller, após uma rebatida mal feita do goleiro Muslera no chute de Schweinsteiger. Os uruguaios equilibraram e empataram o jogo com Cavani e, na segunda etapa, viraram a partida num golaço de voleio do craque Forlán. Mas Muslera estava a fim de entregar mesmo e permitiu que Jansen empatasse o jogo. Pintava uma inédita prorrogação numa disputa de terceiro lugar. Porém, no final da partida, Khedira aproveitou uma rebarba na pequena área e, de cabeça, colocou os alemães novamente em vantagem. No último minuto, os uruguaios ainda tiveram uma falta perto da área e a chance da prorrogação inédita. Forlán bateu bem, mas a bola foi no travessão. Uma pena. Mereciam a prorrogação. Mereciam as medalhas também.

No final, foi possível ver os sorrisos dos alemães e o orgulho dos uruguaios. O jogo não valia o título, mas ali estava o reconhecimento pelo trabalho de ambos. Com certeza, os jogadores serão muito bem recebidos em seus países. Os treinadores Löw e Tabárez também. Os alemães saem muito fortalecidos desta Copa, com uma ótima impressão pelo futebol jogado. Esta geração de Özil, Müller, Khedira, Kroos, além dos já mais rodados Schweinsteiger e Podolski, promete para as próximas competições. Já os bravos uruguaios ressurgem para a elite do futebol ao estarem entre as quatro melhores seleções do mundo, à frente dos “badalados” brasileiros e argentinos. Forlán, que figura entre os artilheiros, Suárez, Cavani e companhia merecem nossos aplausos. Depois de passarem anos em Eliminatórias sofrendo e perdendo pontos importantes contra peruanos, venezuelanos e bolivianos, enfim, reconquistaram o merecido respeito. Lembraram ao mundo que são bicampeões do mundo.

No placar, três a dois. Ainda são três títulos para os alemães, dois para os uruguaios. Acima de tudo, um jogo de campeões.

quinta-feira, 8 de julho de 2010

Apuntes da Copa (19) – O mundo dá voltas

- Espanha 1 x 0 Alemanha – O que houve com os alemães dos últimos jogos? Irreconhecíveis, não saíam para o jogo, não se aproximavam, não tabelavam, não chutavam. Pareciam perdidos sem a presença de Müller. Talvez inibidos diante do volume de jogo e do toque de bola adversário. Os espanhois entenderam que só poderiam vencer a partida se sufocassem os alemães, se não os deixassem respirar, se fizessem melhor do que os alemães fizeram até aqui. Assim, não podiam continuar com aquele “futebol de lado” apresentado contra os paraguaios, pouco objetivo, dependente dos arremates de Villa. Mudaram a atitude, saíram da inércia. Tocavam a bola para frente, não davam espaços. Jogaram como um Barcelona. A entrada de Pedro deu outro fôlego ao time, que antes jogava com um a menos com Torres no ataque. Iniesta, Xavi e Xabi Alonso chegavam sempre com muito “apetite” na frente. Eram verdadeiros leões. Furiosos.

Foi um jogo duro, difícil, menos para os espanhois, mais para os alemães, que só demonstravam alguma força em raros contra-ataques. Mas apesar do amplo domínio, a Espanha desperdiçava as oportunidades. O gol só veio na bola parada, num escanteio, num vôo de Puyol sobre os zagueiros. Poderiam ter feito mais gols, o fominha Pedro desperdiçou a melhor chance de todas. Mas fizeram o suficiente para garantir a classificação diante da equipe que era apontada como a melhor do torneio.

Campeões da Europa, os espanhois disputarão a primeira final de Copa. Estão bem próximos, como nunca imaginaram. Uma geração de jogadores muito boa, talvez a melhor que já tiveram. Jogadores estes que deixaram de ser coadjuvantes dos estrangeiros nos principais clubes da Espanha. Hoje, são cortejados pelo mundo todo. E agora sonham com ele.

Mas não podemos deixar de parabenizar os alemães pelos serviços prestados ao futebol nesta Copa. O treinador Löw apostou na renovação, deu chance aos novatos, que não decepcionaram. Jogaram como gente grande. Nomes como Khedira, Özil e Müller vão infernizar muitas defesas por muito tempo. Acho que Löw foi duro consigo mesmo e com o time ao dizer que os espanhois mostraram o limite das possibilidades da sua equipe. A derrota foi dolorida, mas foi porque os alemães realmente estavam jogando o melhor futebol até então. A imagem da desolação de Schweinsteiger reflete o que foi esta semifinal. Como se tivesse levado uma tijolada no peito e olhado para trás. Difícil saber de onde veio o golpe.

Aliás, como as coisas são voláteis no futebol. Os alemães começaram como a “sensação” do torneio, depois perderam para os sérvios e poderiam ter caído na primeira fase. Mas ainda conseguiram se classificar em primeiro, moeram os ingleses e atropelaram os argentinos, que até aquela fase tinham o melhor ataque. Viraram favoritos ao título, o melhor futebol da Copa. Caíram. Os espanhois iniciaram o torneio como favoritos, perderam dos suíços logo na primeira rodada e tiveram que jogar a classificação diante dos chilenos. Classificaram-se em primeiro, mas o futebol apresentado não era lá essas coisas. Fizeram melhor diante dos portugueses, voltaram à inércia contra os paraguaios e ganharam com um gol chorado já na bacia das almas. Contra os alemães, futebol envolvente, vitória e novamente apontados como favoritos e melhores do mundo. O futebol dá voltas, é assim mesmo. Por isso o mundo para pra ver o joguinho.

quarta-feira, 7 de julho de 2010

Apuntes da Copa (18) – Se fueran todos

- Holanda 3 x 2 Uruguai - Os uruguaios lutaram bravamente, não se entregaram em nenhum momento, foram para cima dos holandeses, jogaram como uma seleção bicampeã do mundo deveria jogar. Faltou pouco para conseguirem uma nova prorrogação, outra disputa por penalidades. A grande vantagem dos holandeses estava na quantidade de jogadores capazes de fazer a diferença na partida, enquanto o Uruguai depositava todas as esperanças no craque Forlán, rodeado por 10 esforçados jogadores, tentando equilibrar o jogo na base da raça (tanto que Cáceres quase arranca a cabeça de De Zeeuw ao tentar uma bicicleta).

Os holandeses, pouco inspirados, fizeram por equiparar o certame com os uruguaios. Nada daquelas boas jogadas do jogo contra a Eslováquia, nada daquela firmeza do segundo tempo contra o Brasil. Talvez a pior partida da Holanda nesta Copa. Mas foi tudo muito preciso, certeiro, milimetricamente perfeito para os holandeses. Um “tirazo” de Van Bronckhorst na gaveta (na “forquilha” mesmo), um chute bem no cantinho de Sneijder (com uma ajudinha do bandeira que não marcou impedimento de Van Persie) e um cabeceio perfeito de Robben, no pé da trave. Fizeram só o suficiente mais uma vez. Pelo lado uruguaio, Forlán se esforçou, estava jogando com dores, mas errava a maioria dos passes e lançamentos. Ainda assim fez um gol numa bonita jogada, num peruzaço de Stekelenburg. Quando os holandeses todos já comemoravam a classificação, os uruguaios ainda tiveram forças para diminuir a diferença com Maxi Pereira já nos acréscimos. O Uruguai ainda teve mais três minutinhos para tentar alguma coisa, um sufoco, um lateral batido na área, uma rebarba, mas não foi desta vez. Mais uma final de Copa sem sul-americanos.

Depois de 32 anos, os holandeses voltam a uma final de Mundial. Poderiam ter disputado outras neste meio tempo, tiveram bons jogadores, bons times, muita expectativa. Mas a geração de Van Basten não conseguiu uma vitória sequer em 1990 e a de Bergkamp esbarrou no Brasil por duas vezes. Este grupo atual é, sem dúvidas, um dos melhores elencos deste Mundial. Boa parte deste time de 2010 já estava em 2006, naquela “briga de foices” com os portugueses, e na Euro em 2008, quando atropelaram italianos e franceses, mas foram parados pelos russos. Uma geração que já fez a fama pelos principais clubes europeus nesta década, com exceção de Bronckhorst que é o remanescente dos tempos de Bergkamp. O treinador Van Marwijk preferiu montar um time mais recuado, mais marcador, com pontas não tão pontas. Vale lembrar que os jogadores de ataque da Holanda também não ocupam as mesmas posições em seus clubes. Mas é um time forte, com ótimos jogadores, que não foram brilhantes, porém decidiram as partidas quando foi preciso. Um time que não empolga, mas respeitável por seus jogadores e pelo retrospecto – não perdem desde aquele jogo contra os russos, em 2008. Afinal, elenco serve para isso: ganhar uma Copa.

Mas ninguém sairá deste Mundial com o ânimo mais renovado que os uruguaios. Sim, os mesmos uruguaios que se classificaram para o Mundial lá na rabeta, atrás de brasileiros, argentinos, paraguaios e chilenos. Os mesmos que jogaram uma repescagem sofrida com os costarriquenhos e quase perderam a vaga no último jogo em Montevidéu. Os mesmos que eram apontados como meros coadjuvantes num grupo com franceses, mexicanos e sul-africanos. Nas últimas décadas, os uruguaios se distanciaram muito de brasileiros e argentinos, não conseguiram formar boas equipes e foram perdendo espaço para colombianos, chilenos, paraguaios, equatorianos. Perderam o respeito. Chegaram desacreditados para esta Copa, quando ninguém acreditava que esta equipe poderia chegar à segunda fase. Fizeram mais, classificaram-se em primeiro, eliminaram os franceses, passaram pelas oitavas, fizeram um jogo inesquecível pelas quartas, equilibraram um jogo improvável na semifinal. Nem Eduardo Galeano acreditaria.

Chegaram pensando em uma boa campanha, terminaram sonhando com o tricampeonato. Bonitas foram as palavras de Abreu ao dizer que o terceiro lugar será algo muito importante para os uruguaios. “Graças a Deus, somos uruguaios e não nos conformamos”, disse El Loco, já preocupado com o jogo de sábado e em manter o prestígio dos bicampeões do mundo.

domingo, 4 de julho de 2010

Apuntes da Copa (17) – Adiós

- Alemanha 4 x 0 Argentina – Foi uma sova. Não deu pro cheiro. Os argentinos não resistiram nem três minutos ao poderio alemão. Não houve nada anormal ou diferente no padrão de jogo germânico. Toque de bola, por vezes parecem estar desinteressados e, quando o adversário vacila, vão lá na frente e não perdoam. Foi assim com australianos, ingleses e argentinos. O placar não foi nenhum absurdo, afinal os alemães estão bem precisos neste Mundial. Jogam bem e goleiam ou jogam mal e perdem. Ontem foi dia de goleada, dia bom.

Difícil pensar em um destaque ou no melhor jogador desta equipe alemã. Não há um talento diferenciado, um supercraque, um Matthäus, um Klinsmann. Há uma nova geração de jogadores bons que se completam. Quando alguém não está bem, algum outro aparece não se sabe de onde e preenche a lacuna. Paulo Miklos Özil estava apagado, mas havia Müller, Podolski, Khedira dando combate e abrindo espaços na defesa adversária. Schweinsteiger desarmando, indo à frente, tocando, fazendo as jogadas. Klose sempre debaixo do gol para empurrar a bola para as redes e agora somente um tento atrás de Ronaldo como artilheiro maior dos Mundiais. Um time muito equilibrado, que até deixa o adversário jogar, mas não se descontrola e dita o ritmo da partida. Sabem ser letais quando o outro time dá espaços demais, como foi a desordenada seleção de Maradona. Depois de ganhar dois clássicos, só pedreira mesmo, vão com todo favoritismo para as semifinais diante dos espanhois. Não há segredo neste time alemão. Eles jogam é bola, nada mais.

Quanto aos argentinos, nova desolação, ainda mais do modo como foi, tomando um vareio de bola. Era um ótimo ataque jogando contra um ótimo time. O ataque poderia até ter triunfado, afinal, era “o ataque”, mas os da frente precisariam jogar pelo time todo, o que não ocorreu. Messi sucumbiu diante da marcação alemã. Maradona até tentou montar um time, mas o fez de modo desequilibrado, pois o “peso” estava todo na frente. Contra seleções fracas, só os atacantes eram o suficiente para resolver o jogo, mas diante de uma seleção forte precisaria de todo um time. Perante os alemães, necessitaria de jogadores para gastar a bola, segurá-la, ter maior posse, sem afobação, como as equipes argentinas estão acostumadas a fazer. Nesta hora, faltou a tranqüilidade de jogadores como Zanetti, Cambiasso, Riquelme, para “esfriarem” a molecada alemã e ditarem o ritmo do jogo.

Nem Tevez, nem Higuaín. Tampouco Messi, de quem se esperava muito mais. O destaque argentino desta Copa foi mesmo Maradona e sua devoção à equipe, imagens muito bonitas mesmo. Pode ter faltado time ou uma resposta imediata do técnico no momento decisivo, mas os argentinos nunca devem ter recebido tanta confiança como receberam de Maradona. Por vezes, podia até soar piegas, mas era algo totalmente legítimo, era aquilo que Diego tinha de melhor para oferecer, seu apego, seu carinho com cada um antes, durante e depois das partidas. Um sentimento de torcedor mesmo, de quem vive intensamente o futebol, de alguém apaixonado pela bola, de um argentino exagerado, que externa toda sua alegria, que sofre de verdade. Os alemães, provavelmente, nunca vão entender o que é ser um hincha.

- Espanha 1 x 0 Paraguai – Por que simpatizamos com uma seleção que há três jogos não marcava um gol sequer? Que apesar de possuir bons jogadores na frente prefere apostar tudo na defesa? Não, também não é por conta da Larissa Riquelme. Jogo com paraguaios em Copas do Mundo virou sinônimo de sofrimento, de drama, de entrega dos jogadores, de gente se sacrificando ali no gramado, do time pequeno tendo a oportunidade da vida contra o time grande, da lembrança de Gamarra. O Paraguai é garantia absoluta de jogo emocionante em Mundiais. Contra os espanhois o roteiro foi o mesmo: jogavam contra um time melhor, mas marcaram muito, não davam espaços, não deixavam o adversário chegar à área e ainda arriscavam alguns contra-ataques. Os espanhois tocavam a bola, tocavam de volta, tocavam de novo, tocavam para frente, para trás e nada. O “tik-tik” de Xavi, Xabi Alonso e Iniesta não surtia efeito. E os paraguaios dando o sangue, tiveram um gol de Valdez anulado, o script reservava algo mais sofrido, dolorido.

Na segunda etapa, os paraguaios tiveram a chance de suas vidas, no pênalti cometido por Piqué em Barreto. Cardozo teve a bola do jogo aos seus pés, a chance de mandar os espanhois para casa, de colocar o Paraguai entre as melhores seleções do mundo, de fazer o que brasileiros e argentinos não conseguiram. Mas Cardozo bateu mal a penalidade, nos braços de Casillas. O futebol conspirava pela emoção. No lance seguinte, o paraguaio Alcaraz fez pênalti em Villa. Emoção. Xabi Alonso anotou, o juiz mandou voltar, Xabi Alonso bateu de novo, Villar defendeu, fazendo os paraguaios sonharem novamente. Os espanhois avançavam mais, criavam chances perigosas e os paraguaios lutavam bravamente, eram só coração. Jogo que certamente teria prorrogação, pênalti. Mas eis que Iniesta partiu em uma arrancada espetacular, tocou para Pedro, que chutou na trave. E na rebarba quem estava lá? Villa, artilheiro e pegador de rebotes. Foi sofrido, um gol chorado, a bola bateu nas duas traves.

Os espanhois seguem, jogando um “futebol de lado”, mas seguem. Possuem talentos e um goleador. Vão precisar mais do que nunca deles contra os alemães. Os paraguaios novamente foram eliminados em um jogo dramático. Chegaram longe, devem ter enchido Cabañas de orgulho. As lágrimas de Cardozo no final do jogo são as lágrimas de todos. Dos paraguaios, de Larissa, dos sul-americanos e dos inúmeros simpatizantes angariados mundo afora nos últimos doze anos.

sábado, 3 de julho de 2010

Apuntes da Copa (16) – O time que virou suco

- Holanda 2 x 1 Brasil – Foi mais ou menos o que havia dito anteriormente. O jogo contra os chilenos não servia como parâmetro. Tanto foi assim que os brasileiros jogaram o primeiro tempo contra os holandeses de modo mais intenso e fulminante do que contra o time de Bielsa. Sejamos justos, pois, na primeira etapa, o time brasileiro marcou muito bem os holandeses, teve ótimas chances de gols, perdeu alguns, fez um, após passe longo e preciso de Felipe Melo e conclusão de Robinho. Domínio total brasileiro, não deu chance ao adversário, parecia fácil, talvez o mais fácil dos jogos até aqui.

Na segunda etapa, o jogo mudou, o fogo apagou, todo mundo errou, Julio Cesar falhou, Felipe Melo surtou, o futebol brasileiro declinou e o time laranja aproveitou. Os holandeses foram com tudo para cima dos brasileiros e conseguiram o empate após cruzamento de Sneijder e vacilação dupla de Felipe Melo e Julio Cesar. Gol contra do volante. Os brasileiros se complicaram, perderam a cabeça, não conseguiram demonstrar reação quando foi preciso. Faltaram opções no banco, faltou uma resposta do treinador. Os holandeses passaram a dominar o jogo, tocavam melhor a bola, criavam mais e os brasileiros não viam a cor da redonda. Robben, Van Persie e Sneijder davam canseira na zaga brasileira e os holandeses viraram o jogo após escanteio dado de graça por Juan. Sneijder, que nunca tinha marcado um gol de cabeça, fez o seu e deu tapas na testa. Depois, foi um chocolate só dos holandeses. Finalmente, Felipe Melo teve mais um momento de fúria: pisoteou Robben, foi expulso e terminou de afundar a nau brasileira. No fim das contas, sobrou futebol aos holandeses, que enfrentarão os intermináveis uruguaios na semifinal, e faltou uma série de coisas aos brasileiros, das quais falaremos um pouco agora.

Como dissera o doutor Sócrates, Dunga e o estilo de jogo desta seleção não representam o que é na essência o futebol brasileiro. O treinador brazuca preferiu armar a seleção com a sua “cara”, apostou forte em jogadores marcadores, fez um time “pegador”, sem estrelas, com alguns talentos entre eles e favorecido pelos “números” obtidos nestes quatro últimos anos. Não foi uma seleção dos melhores jogadores, mas sim uma relação de atletas de confiança elegidos pelo treinador, supostamente “comprometidos” com essa “filosofia”, dispostos a ganhar a qualquer preço, um grupo fechado, um time de “guerreiros”, como dizia a propaganda. Na verdade, um time pouco brasileiro, forte defensivamente, pouco imaginativo e sem inspiração na frente.

Uma seleção que praticamente abdicou do talento e achou que só o grupo fechado seria o suficiente para avançar nesta Copa, mas bastou aparecer um time bom pela frente, melhor tecnicamente e disposto a jogar, para o Scratch brasileiro “comprometido” se esfarelar. Após o empate holandês, o time brasileiro não ia mais ao ataque, perdia todos os rebotes, errava tudo, fazia jogadas medonhas, os zagueiros batiam cabeça, o treinador se desesperava e não sabia mais o que fazer, pois não tinha nenhuma sacada, nem boas opções no banco. Felipe Melo era o retrato da mudança do time: começou bem, mas passou a errar demais, se perdeu e, descontrolado, enterrou o time de vez. O retrato da mediocridade de um time sem reação. E não adianta colocar a culpa no Mick Jagger.

A derrota brasileira em 1982 serviu de argumento para a descaracterização do futebol brasileiro, da passagem do “futebol arte” para o futebol “competitivo”, marcador, tático etc. Nesse meio tempo, tivemos talentos, craques, Careca, Bebeto, Romário, Rivaldo, Ronaldo. Alguns foram campeões, outros não. As seleções nunca foram uma unanimidade. Desta vez, optou-se pelo comprometimento em detrimento do talento, da genialidade, do impensável. Um fiasco. Dunga quis transformar a equipe brasileira em algo comportado, pragmático, com o futebol em segundo plano. E o seu time virou suco. De laranja.

- Uruguai 1 (4) x (2) 1 Gana – Loco, y cómo fue! Assim poderão dizer os uruguaios sobre “Loco” Abreu, a penalidade cobrada por ele, a derrota iminente no final da prorrogação, a mão salvadora de Suárez (não, ele não era o goleiro) e sua expulsão, o pênalti batido no travessão por Gyan. Um jogo de Copa do Mundo mesmo. Os times em si não jogam um futebol brilhante, mas brigaram, lutaram, arriscaram, chutaram, tentaram até o final. Nestas fases, sempre fica uma ponta de pena pelos eliminados na prorrogação e nas penalidades.

Não sei o que acontece, mas parece regra os ganenses jogarem bem o primeiro tempo, mal o segundo e, pelo vigor físico, irem pra cima do rival na prorrogação. Conseguiram a vantagem num chutaço de Muntari no final da primeira etapa – a bola pegou uma curva danada. Os uruguaios voltaram mais interessados no segundo tempo e conseguiram o empate numa falta cobrada por Forlán – e a bola pegando curva de novo.

Chances perdidas de ambos os lados e o jogo foi para a prorrogação, aquele drama todo, os ganenses estavam mais inteiros, os uruguaios jogando aquela “Libertadores da América”, até que, no último minuto da prorrogação, uma bola alçada na área uruguaia, uma saída errada do goleiro Muslera, a bola sobrou para o ganense Appiah chutar, Suárez tirou em cima da linha, Asamoah cabeceou para o gol e só restou a Suárez colocar a mão na bola, apelar, era o último minuto, valia vaga. Foi expulso, saiu chorando. Gyan já tinha feito dois gols de pênalti nesta Copa, tinha a classificação aos seus pés. Mandou a bola no travessão e fez os uruguaios renascerem. Nos penais, Muslera defendeu duas cobranças dos ganenses. Só faltava ele, Loco Abreu para a cobrança. Cléber Machado falou: “será que ele é tão louco e vai dar a cavadinha?”. Certamente, o goleiro Kingson não acompanhou muito o Campeonato Carioca. Abreu foi para a bola, o goleiro caiu para o canto, El Loco meteu uma cavadinha e saiu pro abraço.

Suárez virou heroi. Jogo emocionante e os uruguaios seguem firme. Loco, y cómo fue!