sábado, 3 de julho de 2010

Apuntes da Copa (16) – O time que virou suco

- Holanda 2 x 1 Brasil – Foi mais ou menos o que havia dito anteriormente. O jogo contra os chilenos não servia como parâmetro. Tanto foi assim que os brasileiros jogaram o primeiro tempo contra os holandeses de modo mais intenso e fulminante do que contra o time de Bielsa. Sejamos justos, pois, na primeira etapa, o time brasileiro marcou muito bem os holandeses, teve ótimas chances de gols, perdeu alguns, fez um, após passe longo e preciso de Felipe Melo e conclusão de Robinho. Domínio total brasileiro, não deu chance ao adversário, parecia fácil, talvez o mais fácil dos jogos até aqui.

Na segunda etapa, o jogo mudou, o fogo apagou, todo mundo errou, Julio Cesar falhou, Felipe Melo surtou, o futebol brasileiro declinou e o time laranja aproveitou. Os holandeses foram com tudo para cima dos brasileiros e conseguiram o empate após cruzamento de Sneijder e vacilação dupla de Felipe Melo e Julio Cesar. Gol contra do volante. Os brasileiros se complicaram, perderam a cabeça, não conseguiram demonstrar reação quando foi preciso. Faltaram opções no banco, faltou uma resposta do treinador. Os holandeses passaram a dominar o jogo, tocavam melhor a bola, criavam mais e os brasileiros não viam a cor da redonda. Robben, Van Persie e Sneijder davam canseira na zaga brasileira e os holandeses viraram o jogo após escanteio dado de graça por Juan. Sneijder, que nunca tinha marcado um gol de cabeça, fez o seu e deu tapas na testa. Depois, foi um chocolate só dos holandeses. Finalmente, Felipe Melo teve mais um momento de fúria: pisoteou Robben, foi expulso e terminou de afundar a nau brasileira. No fim das contas, sobrou futebol aos holandeses, que enfrentarão os intermináveis uruguaios na semifinal, e faltou uma série de coisas aos brasileiros, das quais falaremos um pouco agora.

Como dissera o doutor Sócrates, Dunga e o estilo de jogo desta seleção não representam o que é na essência o futebol brasileiro. O treinador brazuca preferiu armar a seleção com a sua “cara”, apostou forte em jogadores marcadores, fez um time “pegador”, sem estrelas, com alguns talentos entre eles e favorecido pelos “números” obtidos nestes quatro últimos anos. Não foi uma seleção dos melhores jogadores, mas sim uma relação de atletas de confiança elegidos pelo treinador, supostamente “comprometidos” com essa “filosofia”, dispostos a ganhar a qualquer preço, um grupo fechado, um time de “guerreiros”, como dizia a propaganda. Na verdade, um time pouco brasileiro, forte defensivamente, pouco imaginativo e sem inspiração na frente.

Uma seleção que praticamente abdicou do talento e achou que só o grupo fechado seria o suficiente para avançar nesta Copa, mas bastou aparecer um time bom pela frente, melhor tecnicamente e disposto a jogar, para o Scratch brasileiro “comprometido” se esfarelar. Após o empate holandês, o time brasileiro não ia mais ao ataque, perdia todos os rebotes, errava tudo, fazia jogadas medonhas, os zagueiros batiam cabeça, o treinador se desesperava e não sabia mais o que fazer, pois não tinha nenhuma sacada, nem boas opções no banco. Felipe Melo era o retrato da mudança do time: começou bem, mas passou a errar demais, se perdeu e, descontrolado, enterrou o time de vez. O retrato da mediocridade de um time sem reação. E não adianta colocar a culpa no Mick Jagger.

A derrota brasileira em 1982 serviu de argumento para a descaracterização do futebol brasileiro, da passagem do “futebol arte” para o futebol “competitivo”, marcador, tático etc. Nesse meio tempo, tivemos talentos, craques, Careca, Bebeto, Romário, Rivaldo, Ronaldo. Alguns foram campeões, outros não. As seleções nunca foram uma unanimidade. Desta vez, optou-se pelo comprometimento em detrimento do talento, da genialidade, do impensável. Um fiasco. Dunga quis transformar a equipe brasileira em algo comportado, pragmático, com o futebol em segundo plano. E o seu time virou suco. De laranja.

- Uruguai 1 (4) x (2) 1 Gana – Loco, y cómo fue! Assim poderão dizer os uruguaios sobre “Loco” Abreu, a penalidade cobrada por ele, a derrota iminente no final da prorrogação, a mão salvadora de Suárez (não, ele não era o goleiro) e sua expulsão, o pênalti batido no travessão por Gyan. Um jogo de Copa do Mundo mesmo. Os times em si não jogam um futebol brilhante, mas brigaram, lutaram, arriscaram, chutaram, tentaram até o final. Nestas fases, sempre fica uma ponta de pena pelos eliminados na prorrogação e nas penalidades.

Não sei o que acontece, mas parece regra os ganenses jogarem bem o primeiro tempo, mal o segundo e, pelo vigor físico, irem pra cima do rival na prorrogação. Conseguiram a vantagem num chutaço de Muntari no final da primeira etapa – a bola pegou uma curva danada. Os uruguaios voltaram mais interessados no segundo tempo e conseguiram o empate numa falta cobrada por Forlán – e a bola pegando curva de novo.

Chances perdidas de ambos os lados e o jogo foi para a prorrogação, aquele drama todo, os ganenses estavam mais inteiros, os uruguaios jogando aquela “Libertadores da América”, até que, no último minuto da prorrogação, uma bola alçada na área uruguaia, uma saída errada do goleiro Muslera, a bola sobrou para o ganense Appiah chutar, Suárez tirou em cima da linha, Asamoah cabeceou para o gol e só restou a Suárez colocar a mão na bola, apelar, era o último minuto, valia vaga. Foi expulso, saiu chorando. Gyan já tinha feito dois gols de pênalti nesta Copa, tinha a classificação aos seus pés. Mandou a bola no travessão e fez os uruguaios renascerem. Nos penais, Muslera defendeu duas cobranças dos ganenses. Só faltava ele, Loco Abreu para a cobrança. Cléber Machado falou: “será que ele é tão louco e vai dar a cavadinha?”. Certamente, o goleiro Kingson não acompanhou muito o Campeonato Carioca. Abreu foi para a bola, o goleiro caiu para o canto, El Loco meteu uma cavadinha e saiu pro abraço.

Suárez virou heroi. Jogo emocionante e os uruguaios seguem firme. Loco, y cómo fue!

2 comentários:

Andre de P.Eduardo disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Pedro Leonardo disse...

Eu disse talentos e craques, citando os principais atacantes brasileiros das últimas Copas. Não, não vou tirar o Bebeto daí. Para mim, Bebeto é melhor que Robinho, Fabiano, Nilmar e Grafite juntos. Melhor que Neymar e André juntos. Lógico que ele nunca foi meu atacante preferido. Mas a comparação com Bebeto revela o retrato da nossa "involução".