domingo, 4 de julho de 2010

Apuntes da Copa (17) – Adiós

- Alemanha 4 x 0 Argentina – Foi uma sova. Não deu pro cheiro. Os argentinos não resistiram nem três minutos ao poderio alemão. Não houve nada anormal ou diferente no padrão de jogo germânico. Toque de bola, por vezes parecem estar desinteressados e, quando o adversário vacila, vão lá na frente e não perdoam. Foi assim com australianos, ingleses e argentinos. O placar não foi nenhum absurdo, afinal os alemães estão bem precisos neste Mundial. Jogam bem e goleiam ou jogam mal e perdem. Ontem foi dia de goleada, dia bom.

Difícil pensar em um destaque ou no melhor jogador desta equipe alemã. Não há um talento diferenciado, um supercraque, um Matthäus, um Klinsmann. Há uma nova geração de jogadores bons que se completam. Quando alguém não está bem, algum outro aparece não se sabe de onde e preenche a lacuna. Paulo Miklos Özil estava apagado, mas havia Müller, Podolski, Khedira dando combate e abrindo espaços na defesa adversária. Schweinsteiger desarmando, indo à frente, tocando, fazendo as jogadas. Klose sempre debaixo do gol para empurrar a bola para as redes e agora somente um tento atrás de Ronaldo como artilheiro maior dos Mundiais. Um time muito equilibrado, que até deixa o adversário jogar, mas não se descontrola e dita o ritmo da partida. Sabem ser letais quando o outro time dá espaços demais, como foi a desordenada seleção de Maradona. Depois de ganhar dois clássicos, só pedreira mesmo, vão com todo favoritismo para as semifinais diante dos espanhois. Não há segredo neste time alemão. Eles jogam é bola, nada mais.

Quanto aos argentinos, nova desolação, ainda mais do modo como foi, tomando um vareio de bola. Era um ótimo ataque jogando contra um ótimo time. O ataque poderia até ter triunfado, afinal, era “o ataque”, mas os da frente precisariam jogar pelo time todo, o que não ocorreu. Messi sucumbiu diante da marcação alemã. Maradona até tentou montar um time, mas o fez de modo desequilibrado, pois o “peso” estava todo na frente. Contra seleções fracas, só os atacantes eram o suficiente para resolver o jogo, mas diante de uma seleção forte precisaria de todo um time. Perante os alemães, necessitaria de jogadores para gastar a bola, segurá-la, ter maior posse, sem afobação, como as equipes argentinas estão acostumadas a fazer. Nesta hora, faltou a tranqüilidade de jogadores como Zanetti, Cambiasso, Riquelme, para “esfriarem” a molecada alemã e ditarem o ritmo do jogo.

Nem Tevez, nem Higuaín. Tampouco Messi, de quem se esperava muito mais. O destaque argentino desta Copa foi mesmo Maradona e sua devoção à equipe, imagens muito bonitas mesmo. Pode ter faltado time ou uma resposta imediata do técnico no momento decisivo, mas os argentinos nunca devem ter recebido tanta confiança como receberam de Maradona. Por vezes, podia até soar piegas, mas era algo totalmente legítimo, era aquilo que Diego tinha de melhor para oferecer, seu apego, seu carinho com cada um antes, durante e depois das partidas. Um sentimento de torcedor mesmo, de quem vive intensamente o futebol, de alguém apaixonado pela bola, de um argentino exagerado, que externa toda sua alegria, que sofre de verdade. Os alemães, provavelmente, nunca vão entender o que é ser um hincha.

- Espanha 1 x 0 Paraguai – Por que simpatizamos com uma seleção que há três jogos não marcava um gol sequer? Que apesar de possuir bons jogadores na frente prefere apostar tudo na defesa? Não, também não é por conta da Larissa Riquelme. Jogo com paraguaios em Copas do Mundo virou sinônimo de sofrimento, de drama, de entrega dos jogadores, de gente se sacrificando ali no gramado, do time pequeno tendo a oportunidade da vida contra o time grande, da lembrança de Gamarra. O Paraguai é garantia absoluta de jogo emocionante em Mundiais. Contra os espanhois o roteiro foi o mesmo: jogavam contra um time melhor, mas marcaram muito, não davam espaços, não deixavam o adversário chegar à área e ainda arriscavam alguns contra-ataques. Os espanhois tocavam a bola, tocavam de volta, tocavam de novo, tocavam para frente, para trás e nada. O “tik-tik” de Xavi, Xabi Alonso e Iniesta não surtia efeito. E os paraguaios dando o sangue, tiveram um gol de Valdez anulado, o script reservava algo mais sofrido, dolorido.

Na segunda etapa, os paraguaios tiveram a chance de suas vidas, no pênalti cometido por Piqué em Barreto. Cardozo teve a bola do jogo aos seus pés, a chance de mandar os espanhois para casa, de colocar o Paraguai entre as melhores seleções do mundo, de fazer o que brasileiros e argentinos não conseguiram. Mas Cardozo bateu mal a penalidade, nos braços de Casillas. O futebol conspirava pela emoção. No lance seguinte, o paraguaio Alcaraz fez pênalti em Villa. Emoção. Xabi Alonso anotou, o juiz mandou voltar, Xabi Alonso bateu de novo, Villar defendeu, fazendo os paraguaios sonharem novamente. Os espanhois avançavam mais, criavam chances perigosas e os paraguaios lutavam bravamente, eram só coração. Jogo que certamente teria prorrogação, pênalti. Mas eis que Iniesta partiu em uma arrancada espetacular, tocou para Pedro, que chutou na trave. E na rebarba quem estava lá? Villa, artilheiro e pegador de rebotes. Foi sofrido, um gol chorado, a bola bateu nas duas traves.

Os espanhois seguem, jogando um “futebol de lado”, mas seguem. Possuem talentos e um goleador. Vão precisar mais do que nunca deles contra os alemães. Os paraguaios novamente foram eliminados em um jogo dramático. Chegaram longe, devem ter enchido Cabañas de orgulho. As lágrimas de Cardozo no final do jogo são as lágrimas de todos. Dos paraguaios, de Larissa, dos sul-americanos e dos inúmeros simpatizantes angariados mundo afora nos últimos doze anos.

3 comentários:

André Augusto disse...

Lamento pela Larissa, mas ela vai sair pelada de qualquer jeito e a eliminação do Paraguai fez pouca diferença qto a isso. E apesar da surra, coisa linda a recepção ao time (leia-se Diego) em Ezeiza!

Pedro Leonardo disse...

Não deu para os argentinos. Era um ótimo ataque contra um time de verdade. Mas as cenas com Maradona nesta Copa foram muito bonitas. Claro que ele poderia ter montado uma equipe melhor, mas fica um certo reconhecimento pela forma como Diego se doou ao time. No entanto, ganhou quem jogou mais bola e os alemães estão impossíveis.

Já minha torcida pelos paraguaios vem muito antes de Larissa aparecer por aí. Fora a questão familiar, aquele jogo contra os franceses foi um dos mais emocionantes que já vi. Gamarra jogando com o ombro machucado. Esse era ídolo! Sempre é uma pena quando o Paraguai é eliminado.

Andressa disse...

É impossível não perceber a superioridade alemã nos jogos.
Ao mesmo tempo envolvente, é um time frio, calculista, que espera para dar o bote, como uma cobra arisca. E quando se aproxima ... já era!
E nenhum momento durante o Mundial pensei em torcer para os alemães, mas caso sejam campeões, não nego que será mais que merecido.
Abs!