segunda-feira, 12 de julho de 2010

Apuntes da Copa (21) – El colectivo rojo

- Espanha 1 x 0 Holanda – Um time de respeito. Conquistou ainda mais agora. Depois do fracasso em 2006, quando levaram um baile de Zidane nas oitavas, os espanhois se reergueram, foram trabalhando e, pela primeira vez, montaram uma equipe com jogadores que se tornaram protagonistas dos principais clubes da Espanha. Deu certo. Campeões europeus em 2008, continuaram o mesmo trabalho pensando na Copa do Mundo. Atropelaram os adversários nas Eliminatórias, mas fracassaram na Copa das Confederações diante dos esforçados norte-americanos. Ficou a dúvida: será mesmo que vão agora? Foram.

Jogo final causa diferentes reações nos jogadores. Uns se sentem mais à vontade, outros menos. Uns ficam mais alterados, outros menos. O jogo em si foi truncado, fraco, ninguém se destacava, os jogadores estavam bastante nervosos, não conseguiam executar as jogadas, furavam, faltava giz no taco. Jogo estranho, travado, digno da primeira rodada do mundial, quando ninguém queria se arriscar para não perder. Mas era final. Releva-se, em parte. Valia título inédito.

Os espanhois começaram atacando, tiveram ótima chance numa cabeçada de Sergio Ramos, mas logo os holandeses esfriaram o jogo. Aí começou a sobrar botinada pra tudo que é lado. Van Bommel e De Jong pisoteavam os adversários. A arbitragem relevando, péssima, pra variar. Os holandeses cozinhavam o jogo, davam algumas pancadas, chegavam poucas vezes à frente, mas diminuiam o ritmo do time espanhol, que tocava a bola sem concluir as jogadas – esse time não chuta pro gol! Até que deu certo a estratégia. O jogo ficou tenso. Quem fizesse um gol praticamente selaria a vitoria. Os holandeses tiveram o título na mão e nos pés de Robben, por duas vezes, em incríveis arrancadas. Faltou-lhe tranquilidade na definição, esbarrou em Casillas. Os espanhois tiveram a melhor chance com Villa, sempre ele, sempre esperando a rebarba, depois de uma furada do holandês Heitinga. Não deu também. O jogo estava com cara de disputa por pênaltis. Mas ainda tinha a prorrogação.

Os espanhois dominavam as ações, tiveram ótima chance com Fábregas, mas estava duro de sair um gol. Os holandeses já não tinham pernas, o time estava desfigurado. A arbitragem continuava péssima, até escanteio o juiz errava. E lá pela bacia das almas, no bico do corvo, os econômicos espanhois tiveram um contra-ataque iniciado por Iniesta – melhor do jogo -, a bola ficou com Torres, que cruzou errado, pra variar, a bola sobrou com Fábregas, que lançou Iniesta, que fuzilou Stekelenburg. Estava de bom tamanho. Valia o caneco.

A Holanda teve seus méritos ao chegar até a final, ganhando todos os jogos antecedentes. Mas longe de ser um carrossel. Como um todo, os jogadores pareciam mais preocupados em exercer a função tática do que fazer o próprio jogo, dentro da própria qualidade. As peças não se encaixavam direito, não se aproximavam, estavam taticamente prejudicadas. O time havia mudado as características. Sobrava luta, mas faltava brilho. Era um time mais marcador, até decisivo, mas menos ofensivo. Na final, os holandeses estavam nervosos, não conseguiram jogar e ainda perderam as melhores chances do jogo. Poderiam até ser campeões, pois o jogo final não foi lá grande coisa. Seria interessante se voltassem a ser o que eram a partir de agora.

O título ficou nas mãos do time que tem chamado a atenção de todos nos últimos quatro anos. Um time que não possui um jogador de talento diferenciado, um craque que carrega o time, um “virtuoso” (acho que nunca vi um jogador espanhol “virtuoso”). Trata-se de um conjunto de bons jogadores que se completam no campo, que ocupam bem os espaços, que jogam coletivamente. Possuem mais técnica e menos “fúria”. Apesar da “latinidade”, os espanhois não têm aquele “sangue nos olhos”, aquele limiar entre emoção, garra e sofrimento, comuns aos sul-americanos e que costumamos apreciar. Ao mesmo tempo, invejamos o “sangue frio” dos espanhois que, aconteça o que acontecer, não alteram a característica do próprio jogo quando estão com a bola. Sabem ser pacientes, podem passar a partida toda tocando a bola e aguardando a melhor oportunidade. Às vezes, irritantes pela falta de conclusão. Tanto é que, apesar da superioridade no volume de jogo e posse de bola, os espanhois fizeram apenas oito gols nas sete partidas desta Copa, números inferiores aos dos outros semifinalistas (uruguaios, 11; alemães, 16; holandeses, 12). Enfim, os espanhóis souberam jogar como estão acostumados em seus clubes, tiveram um técnico que não atrapalhou, sem “filosofias” ou “ideologias” egocêntricas. Deixou-os jogar do jeito que sabem, sem brilho em excesso, sabendo controlar o jogo. Deu certo. Finalmente, Casillas pôde erguer a taça, mostrar a medalha,
ir ao encontro da jornalista, da namorada, ao vivo, para todo o mundo.

Para fazer uma análise geral do que foi o Mundial é melhor deixar passar este clima de Copa que ainda paira. Mas podemos dizer que foi merecida a escolha do uruguaio Forlán como o melhor jogador do torneio. Foi artilheiro, fez gols bonitos, jogou muito bem, foi o “cérebro” da equipe. Carregou um time totalmente desacreditado e o recolocou entre os melhores do mundo. Uma façanha e tanto.

6 comentários:

Andre de P.Eduardo disse...

Holanda, não deu. Mas poderia, assim como a França podia ter vencido a Itália numa boa.

Futebol cada vez mais pobre: os dois times jogando sempre em virtude do erro adversário, fechados, com pouco espaço. Pareciam duas Itálias, mas com talentos maiores dos dois lados.

Arbitragem ridícula. Até agora, arbitragem ruim ou ladrona fazia parte do futebol: apitou, acabou. Tem que ser assim, mas com mudanças de cunho tecnólogico, com sensor pra saber se a bola entrou, coisa desse tipo. Não dá pra ficar mais no amadorismo do "olho humano". A desculpe de boçais tipo Arnaldo (que nem todo mundo tem grana pra isso) é uma babaquice; dane-se se a série D do brasileirão não tem. Copa do Mundo e torneios importantes, outra coisa. Aqui no campo de várzea aqui do lado nem juiz tem...

Holanda distribui pontapé sem dó. Dos times europeus, a Holanda é o menos ingênuo: tem encenação, Van Bommel devolvendo bola no corner (hahaha!), Robben cavando falta, bicuda e puxão de camisa. Van Bommel tomou amarelo de cara, o que ótimo pra ele: ele pode assim passar o resto do jogo "imune", fazendo falta sem parar e sem cartão. De Jong se credenciou pra lutar kung fu com o Felipe Melo. Mas apesar disso, o time demonstrou garra na defesa (coisa que as Holandas antigas nunca precisaram). Como falei uma vez, é o time "menos bom" da Holanda desde 74.

A Holanda é pragmática, mas não acho que seu futebol perca as características de jogo aberto, jogo com pontas, troca de posições. Essa geração não tem gente assim, só figuras mais engessadas, caso do craque do time: Sneijder. Van der Vaart e, mais ainda, Bronckhorst, já jogaram de zagueiro a atacante, mas isso não é presença no time atual.

Opinião: Espanha se credencia pra ser a nova Inglaterra, com um time bem pior que o English team '66. Vai ficar com esse título, depois volta a ser o que sempre foi: nada.

Não é mera secação não. A Espanha tem defesa sólida e um raro bom meio campo. Iniesta e Xavi são muito bons, mas não chutam a gol, pra mim não dão um Rivaldo. Villa apareceu agora como Davor Sucker em 98. Sinceramente, nada de especial, só o elogio ao futebol coletivo. (continua, excedeu limite de carac.)

Andre de P.Eduardo disse...

(continuação)

A Holanda acabou com a ingenuidade no futebol em 74. Depois do Carrossel, dois aspectos passaram a ser relevantes e ganhar força total na década de 80: preparo físico e informação. Os times do Brasil nem sabiam direito contra quem iam jogar. Os alemães venceram a final de 74 pq estudaram a Holanda. Daí em diante jogar com linha de impedimento ficou coisa comum, os esquemas em campo passaram a ser mais voláteis, aparecem outros jogadores "curinga", que cobrem várias posições, atacantes passaram a voltar pra marcar, o futebol se enxadrezou mais - o que não impediu a existência de mestres como Zico, Platini, Gullit, Klismann, Romário, Van Basten, Bergkamp, Rui Costa, Zidane, e talvez o maior - Maradona, atacantes e meias ofensivos e geniais.

Tanto é que, Carrossel, só a Holanda de 74. Ela própria "esgotou" seu esquema, que inspira tanto até hoje.

Outros aspectos nasceram com aquele time, segundo uma teoria totalmente pessoal (hehe). Primeiro, a influência do patrocínio. Cruyff, estrela indiscutivel, vestia a Adidas da Holanda - mas a dele tinha só duas listras, porque seu contrato de imagem era com outra empresa. Todos atuavam na Holanda, exceto Cruyff, e daí isso tornou-se constante, e hoje dita a regra. Em 74 o dinheiro começou a fazer do futebol outra coisa.

Com Cruyff, que jogava em todas as posições e foi o maior jogador da Europa, talvez tenha se instaurado o conceito do "jogador-mala" (hehe). Dono do time, estrela do Barcelona, eleito melhor da Europa, podia destoar do uniforme e até escolher seu número da sorte, 14. O critério para as camisetas era a ordem alfabética do sobrenome, daí o Jongbloed usar a 8. Cruyff implica com o Romário quando técnico do Barça, mas ele próprio foi um dos precursores do romarismo. Mas o time da Holanda, como um todo, era muito especial.

Abraços! parabéns pela cobertura direto de Cape Town, com mais de vinte capítulos e ótimos textos.
Um pequeno livro que o sr. escreveu.

Abraços amigos!!!
Andre G. de Paula Eduardo

Pedro Leonardo disse...

O problema em si não é o esquema 4-3-3 que eles sempre jogaram, se bem que desta vez era mais um 4-2-3-1. O que ficou prejudicado taticamente foi o aproveitamento dos jogadores. Van Persie não é jogador de área. Kuyt não tem características de ponta. Além disso, os pontas ficavam muito isolados porque não recebiam apoio dos laterais, que tinham características defensivas. Van Bommel e De Jong eram brigadores, mas engessavam o meio de campo. Assim, o time ficava muito esparso, sem aproximação. Quando havia uma maior aproximação entre eles, os holandeses estiveram muito bem, como em parte do segundo tempo contra Eslováquia e Uruguai e em todo segundo tempo contra o Brasil, quando poderiam ter goleado o time do Dunga. Não precisa mudar o esquema, mas dá para utilizar melhor essas "peças".

Respeito o time espanhol, tem bons jogadores, mas não sou muito fã deles. O time tem boa organização, toca bem a bola, mas dificilmente acelera o ritmo, não chuta pro gol, não tem jogadores ousados, na maioria das vezes, fica irritante. A grande partida que eles jogaram foi contra os alemães, quando pressionaram o tempo todo e chutaram mais. Contra Honduras, por exemplo, era insuportável ver o time ficar trocando passes desinteressados diante de um adversário fraco. A Espanha não tem um jogador diferenciado, um destaque, que chame o jogo para ele, definidor, apesar do Villa ter sido um dos artilheiros. Tem no coletivo a sua força e foi assim durante toda a Copa, tocando a bola e fazendo um golzinho aqui, outro ali. Tanto é que fizeram apenas oito gols, pior que o Brasil de 1994. Mas o futebol tem suas circunstâncias. Os espanhois quase caíram diante dos paraguaios, mas passaram. Os alemães viraram favoritos. Perderam. Gana poderia ter eliminado o Uruguai no último minuto. Perderam. E assim vai. Falar a verdade, pra mim o Forlán sozinho é melhor que esses espanhois todos aí.

Andre de P.Eduardo disse...

Confesso que nunca achei que gostaria tanto do Diego Forlán como agora. Impressionado com o mancebo: fez de tudo pro seu time, artilheiro, meia, líder. Criador no meio da limitação.

Bert van Marwijk preferiu De Jong ao Van der Vaart. Uma opção defensiva. Achei uma estupidez...

Fiquei pensando na çelessão... Dunga seria mais inteligente se tivesse mantido Ramirez no time, e esquecido o Felipe Melo no banco. Ramirez joga mais bola que Felipe Melo, G. Silva, Kleberson, Josué e J. Batista juntos! rápido, versátil, cria jogadas e ajuda a marcar. Acho só que tem ser "limado". Talvez o melhor volante que o Brasil revelou nos últimos tempos (ah, se o Arouca e o Wesley jogarem sempre o que jogaram no Paulistão...).

Futebol dá papo hein!! hehe

Roberto (o gato) disse...

Vou pitacar também...
Não vi muito o Elija (não sei se é assim que escreve) jogar, mas o pouco que vi me agradou mais que as disparadas e trombadas do Kuyt.
Outra coisa, o Van der Vaart joga de volante e bate menos que o De Jong e arma muito mais.
Para jogar o que o Van Persie jogou era melhor o Van Nisteroy (lembram dele) ou o Babel...
Quanto à Espanha, o Marcos Sena fez falta sim... ele avançava muito mais que o Xabi Alonso e bate bem de fora...
Quanto ao Fórlan, joga muito, pena que está velho... muito melhor que Diego Milito, embora não tivesse tanta mídia... agora terá... o futebol não é tão injusto assim...

Roberto (o Belo) disse...

Outra coisa... hoje teremos jogo de salão em Getulina... estreia do Futebol Arte, time meu e do Moisés, conhecido como Morfi, o único técnico gago e que nunca chutou bola na vida...


Abreijos...