terça-feira, 20 de julho de 2010

A Copa que se foi e o futebol “pray same”


Um Mundial que começou muito mal, ruim mesmo. Com raríssimas exceções, a primeira rodada foi de nível lastimável, de dar saudade dos nossos campeonatos locais. Aos poucos, foi melhorando, à medida que os times relembravam da necessidade de ganhar ao menos um jogo para conseguir a classificação. E o melhor mesmo ficou por conta de algumas partidas das fases eliminatórias, quando as equipes precisam demonstrar algo mais para superar os adversários, tempos extras e disputas por penalidades (que desta vez foram apenas duas).

Um Mundial sem nenhuma revolução tática, nenhum “supertime”, nenhum jogador fora do comum, ninguém “comendo a bola” pra valer. Tivemos mais decepções e menos surpresas ou revelações. Messi, Cristiano Ronaldo, Rooney não fizeram o que se esperava deles. Fiasco total de franceses, brigados com o treinador e pouco interessados em jogar, e italianos, precisando de uma renovação completa. Seleções e mais seleções frustrantes, mais interessadas em destruir do que construir, contando com o acaso para uma vitória improvável. Boas equipes jogando apenas para o gasto.

Os espanhois foram campeões com o melhor toque de bola no meio de campo (às vezes, muito “de lado”) e um ataque pífio de apenas oito gols. Os holandeses foram vice, com um bom elenco, com um time mais brigador e um futebol sem muito brilho. As maiores surpresas do torneio foram justamente o terceiro e quarto colocados. A Alemanha surpreendeu a todos com um time jovem, muito aplicado, seguro na defesa, fortíssimo no ataque. Uma molecada muito atrevida. O novato Müller foi uma aposta do treinador Löw – uma lição para a “coerência” de Dunga. Recompensou a confiança sendo um dos artilheiros da Copa e escolhido como a revelação do torneio. O Uruguai renasceu entre as grandes seleções do mundo, comandado pelo “maestro” Forlán, também artilheiro do torneio e escolhido como melhor jogador da Copa. Um time simples, que jogou um futebol simples, sem medo, pra frente, como um bicampeão deveria jogar.

Menções honrosas também ao ataque argentino, ao empenho de Maradona (apesar dos jogadores que não levou), aos valentes jogadores paraguaios, ao esforço dos ganenses, à evolução dos norte-americanos. Ao longo do torneio, foram seleções que arriscaram alguma coisa. De resto, algumas boas atuações individuais esparsas, como as do português Coentrão ou do japonês Honda. No mais, equipes negativamente parecidas, com a mesma proposta defensiva, sem ousadia, pouco inspiradas.

Chama atenção essa uniformização do futebol da maioria das seleções, que são taticamente iguais, acovardadas. Seleções que têm na força e nas bolas paradas o meio de sobrevivência. Um nivelamento baseado em muita marcação em detrimento da ofensividade. Não foi à toa que uma seleção como a da Nova Zelândia terminou a Copa sem perder um jogo. Não foi à toa que as seleções européias do “segundo escalão” e as africanas saíram quase todas na primeira fase. Mesmo com alguns bons jogadores em seus elencos, não havia diferenças na postura destas equipes. Uma falsa proposta de equilíbrio que foi logo enterrada quando tiveram pela frente um time mais interessado na vitória, que se preocupava mais em atacar.

Quando penso nessa padronização do futebol, lembro do técnico Joel Santana, quando este era treinador da África do Sul e dava uma entrevista em inglês após um jogo entre sul-africanos e iraquianos que terminou em 0 x 0. Para Joel, os times foram iguais, portanto, “Iraq and South Africa pray same”. No fundo, é isso mesmo. O “pray same” tornou-se padrão. Quase todo mundo está jogando igual, sem atrevimento. O próprio Dunga abdicou de formar uma seleção mais talentosa, baseada naquilo que sempre foi o diferencial do futebol brasileiro. Poderia ter Ganso e Neymar no auge, mas preferiu apostar no mesmo “pray same” das seleções menos técnicas, de muita briga e marcação. Uma pena esses treinadores todos não serem mais ousados. Acabam perdendo a grande oportunidade da vida por terem medo de arriscar, de montar uma equipe mais arrojada, justamente quando o planeta todo para diante da telinha para acompanhar as partidas. Perdem a grande chance de serem lembrados. Título é bom, mas futebol também conta. O mundo todo não deixa de comentar a “Máquina Húngara”, o “Carrossel Holandês” ou o “Brasil de Telê” porque não conquistaram a taça. Afinal, estas equipes tiveram mais méritos que os vencedores daqueles campeonatos.

Não foi a Copa dos sonhos, de futebol vistoso e craques brilhando. Parece difícil sonharmos com um torneio feito com estes “ingredientes”. Além do “pray same”, o Mundial está cada vez mais submetido à lógica do entretenimento, da distração, das câmeras. Jabulani, Mick Jagger, Larissa Riquelme e o polvo Paul dominaram a cobertura do evento. Só uma figura midiática como Maradona para equilibrar a pauta do lado do futebol. Aliás, os jogos são quase um apêndice do evento. Como disse o Flávio Gomes, “e, além do mais, Copa é festa. O futebol é quase detalhe”.

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