quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Há tempos: crônica de um alienado

Não tinha interesse por nenhum time específico. Mas a molecada da escola onde estudava já decidira desde cedo por qual time torcer. A maioria era de corinthianos, os “populares”. Havia também muitos são-paulinos, herdeiros da geração dos “Menudos” e da ótima fase do time do Telê. Alguns raros palmeirenses, que amargavam anos e anos de uma ingrata fila. Santistas eram os mais incomuns, quase um “achado”. Mas ainda não tinha me convencido a seguir por um lado. Gostava da cor azul do Cruzeiro, do craque Denner da Portuguesa, do “vovô garoto” Júnior do Flamengo. Eram muitas as opções. Ficava confuso. Um dia, fui com minha mãe lá no Bom Retiro para tentar escolher uma camisa de time. Já estava na hora de decidir. Voltamos com três camisas: uma do Internacional, uma do Fluminense e uma do Vasco. A decisão fora adiada por tempo indeterminado. Por que as pessoas torciam por apenas um time?


* * *

Até que um dia fiz amizade com um vizinho, o Bruno. Morávamos no mesmo prédio, no Centrão velho, na Boca do Lixo. Ele era corinthiano e tinha um irmão mais novo palmeirense. Eu, ainda sem time. Tínhamos a mesma idade, mas ele era muito mais fanático por futebol do que eu. Ele que me ensinou que os escudinhos dos times deviam ser colados por cima do botão, e não por baixo, do lado que desliza na mesa, como havia feito com todos os meus times. Era meu adversário no jogo de botão, meu parceiro de futebol na Princesa Isabel, no Largo do Arouche, no Liceu Coração de Jesus. Sempre dizia que eu devia torcer pelo Corinthians, tentava me convencer a todo custo. Até que um dia, motivado pela quantidade de corinthianos que havia na escola, disse para Bruno que eu ia “ser” corinthiano. Foi assim, de uma hora para outra, uma decisão rápida. Creio que me tornei corinthiano mais pela amizade dele do que por gosto pelo time, jogadores ou qualquer outro motivo. Foi assim que tudo começou.

De repente, já me via torcendo de verdade. Acompanhávamos juntos os resultados do Timão, que seguia bem naquele Campeonato Paulista. A final seria contra o Palmeiras, da “Era Parmalat”, um timaço com Roberto Carlos, Edilson, Edmundo, Evair. Mas o Corinthians tinha Ronaldo, Neto, Paulo Sérgio, Viola, jogadores de respeito. O primeiro jogo da final não ia passar na tevê, então fomos jogar bola no Largo do Arouche, aproveitar o domingo de sol. Jogamos algumas partidas até que um grito de gol ecoou numa das bancas que vendiam flores ali perto. A molecada toda correu até a banca para saber qual time havia marcado. Disseram que foi gol do Neto. Saímos todos comemorando. Um senhor passou com um rádio colado ao ouvido e gritou “Viola, Viola, Viola”. Afinal, quem marcara o gol: Neto ou Viola? Não demos muita importância e reiniciamos a partida interrompida. Ao voltarmos para casa, descobrimos que o gol foi mesmo do Viola, com imitação de porco e tudo.

O segundo jogo estava marcado para o sábado seguinte. Foi um dia nublado, bem frio. Era Dia dos Namorados, me recordo dos muitos casais passeando, vestidos com as cores do Corinthians. A impressão era de que só havia corinthianos naquela cidade. Era uma festa só. Aguardávamos ansiosos o horário da partida, que desta vez seria transmitida pela tevê. Estávamos confiantes, seria o primeiro título do Timão que eu acompanharia como torcedor. Mas algo deu errado. O time estava nervoso. Henrique foi expulso, Ronaldo também. Depois veio o massacre. Cada gol do Palmeiras era um duro golpe para a gente. Assim como o time dentro de campo, perdemos o rumo, perdemos a esperança do resultado ser revertido. No fim, não conseguíamos nem olhar mais para a tevê. Tivemos que aguentar a comemoração do irmão palmeirense. Foi a derrota mais dolorida de todas que já acompanhei. Foi o meu primeiro contato de torcedor com uma dura derrota. Mas agüentamos firmes, a vida seguia. Um dia ainda comemoraríamos um título.

Poucos meses depois, minha família se mudou de São Paulo. Nunca mais vi o Bruno, seu irmão, sua família. Não tenho a menor ideia de onde ele possa estar hoje. Recordo-me dele nas derrotas ou vitórias do “nosso” time. Saudades do tempo em que eu invertia o lado de colar os escudinhos no botão.


* * *

À medida que meu fanatismo aumentava, eu aprendia mais sobre a história do clube, sobre seus jogadores. Claudio, Luizinho, Rivelino, Sócrates. Sobre a fundação por operários naquele mesmo bairro do Bom Retiro, o tabu contra o Santos de Pelé, os quase vinte três anos sem títulos, a torcida que não parava de crescer, a “invasão corinthiana” no Maracanã em 1976, o movimento da Democracia Corinthiana. Era uma história interessante. Gostava dessa identificação com os setores populares, de também torcer pelo “time do povo”, de estar ao lado dos “sofredores”. Tudo tinha uma base de realidade.

Fui pouco aos estádios. Faltava companhia, um pouco de coragem, dinheiro. A maior das aventuras foi, com certeza, numa final contra o Brasiliense. Eu e um colega de trabalho. O jogo era no longínquo Morumbi, metrô e ônibus para chegar lá, ingressos comprados de cambista para o pior setor do estádio, aquela multidão toda, a polícia descendo o sarrafo naqueles que queriam passar para as numeradas subindo pelo placar eletrônico. O jogo foi bem fraco, 2 x 1. Mas a sensação de estar ali era indescritível. Depois, a sofrida volta para casa, nada de ônibus depois da meia-noite, somente vans clandestinas, itinerários que pouco nos ajudavam. Tínhamos que ir para algum lugar, não tinha jeito. Van até a Praça do Correio e depois mais uma hora “flanando” pelo Centrão até o Tietê. Mais quatro horas esperando, nos contorcendo, naquelas duras cadeiras da rodoviária até o horário da partida do primeiro ônibus para Atibaia. E oito horas da manhã deveríamos bater nosso ponto no serviço. Éramos sofredores mesmo.


* * *

Acompanhava o time pelo rádio, pela tevê, pelos jornais. Fiquei viciado em futebol, tornei-me um torcedor fanático. Convivia entre a alegria, a tristeza, a raiva. Tudo pelo joguinho. Às vezes, pensava que o futebol e o fanatismo me faziam mal. Então, veio a vontade de ser jornalista, movido pelo interesse nas reportagens e colunas do meio impresso, nas jornadas esportivas do rádio, nas matérias da tevê. Gostava de tudo aquilo, achava que poderia fazer igual um dia. O lado profissional poderia “neutralizar” o lado torcedor e, aos poucos, me entregaria a outros conhecimentos, outros gostos. Conheceria outras pessoas, outras paixões.

De fato, encontrei pessoas fantásticas, vivenciei momentos incríveis, conheci coisas novas, adquiri mais conhecimento, mais cultura. Fui “beber em outras fontes”. Foi bom. Mas não sei o que acontece. Quando tudo parece estar tranquilo, quando acho que estou menos envolvido, basta ligar a tevê e ver o time de uniforme alvinegro em campo ou ouvir no rádio a narração acelerada de uma partida do Timão para que eu me transforme, que o coração bata mais rápido, que eu xingue a tudo e a todos, que fique alegre ou com raiva. Não sei de onde vem essa euforia que me paralisa durante noventa minutos. Tudo tão passageiro. Tudo volta ao normal sem que eu perceba. Não sei se há explicação, também não procuro mais por uma.

Talvez essa relação mude daqui a algum tempo. Se o clube um dia conquistar a Libertadores ou tiver seu próprio estádio, pode ser que já não tenha a mesma graça não ser mais tão “maloqueiro” ou “sofredor”. Talvez esse fanatismo que me acompanha há anos se dissolva finalmente. Sim, a história não se apaga, mas as coisas mudam.

Provavelmente, meu palpite estará errado mais uma vez.

P.S. Meu time de botão do Corinthians era idêntico ao da imagem. Acho que até a caixinha era a mesma. Que fim ele teve?

2 comentários:

Roberto disse...

Beleza de texto... queria ser corintiano desde pequeno, já que meu pai e avô são... não sei... levado pela onda Parmalat... a zoeira de nunca ver meu time campeão (tinha cerca de 10 anos)... o sangue italiano... tornei-me palmeirense... talvez pelos meus primos e tios por parte de mãe...
Admiro o amor corintiano, mas penso que não durará mais de duas Libertadores...

Já tentei... mas a lealdade latina me impediu...

Pedro Leonardo disse...

Sempre achei que você era muito "maloca" pra ser palmeirense, rs.

Aquela derrota em 93 foi a pior de todas. Um tremendo sacode. Mas a vida seguiu.

Já estou desistindo de tentar entender o futebol. Por que perdemos tanto tempo com isso?