quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Fomos surpreendidos novamente

No meio da tarde, chegava-me a notícia de que o TP Mazembe, da República Democrática do Congo (antigo Zaire), ganhara do Internacional de Porto Alegre por 2 x 0 e, assim, pela primeira vez, uma equipe africana se classificava para a final do Mundial Interclubes da FIFA, despachando o favorito time brasileiro. Já tinha sido uma façanha o time congolês eliminar o mexicano Pachuca, que já era dado como adversário certo da equipe gaúcha na semifinal do torneio. São as agradáveis surpresas do esporte. São as situações que nos permitem sair do conforto do pensamento mais simples para conhecer, enxergar, aprender sobre aqueles de quem pouco sabemos ou pouco demos importância durante determinado período.

O TP Mazembe não é tão desconhecido assim. É o atual bicampeão africano e jogou a edição passada do Mundial. No entanto, naquela oportunidade, não ganhou um jogo sequer e saiu do torneio sem disputar as partidas de maior destaque, sem chamar atenção. Ainda era mais figurante que protagonista. De fato, costumamos mudar nossa percepção quando somos surpreendidos, positivamente ou negativamente. No caso do Mazembe, foi necessário eliminar um adversário “mais tradicional” e chegar, pela primeira vez, à final do Mundial de Clubes para que o mundo direcionasse o olhar aos seus jogadores, a sua grande proeza.

Por causa desta maior repercussão, aprendemos diversas coisas sobre o TP Mazembe. Trata-se de um clube bancado por milionários do ramo da mineração daquele país, que possui jogadores com passagens fracassadas por equipes europeias, que vem desbancando o Al Ahly, do Egito, da “supremacia” do futebol africano. Informações que surgem apenas quando novos personagens passam a disputar hegemonia de um processo.

Assisti aos melhores momentos da semifinal, aos dois belos gols do time congolês, à dança do goleiro Kidiaba. Foi uma atuação razoável, sem “encher os olhos”, objetiva, simples. Uma partida que chamou mais atenção pelo seu aspecto simbólico, pelo rompimento com a “ordem” estabelecida.

Guardadas as devidas proporções, de imediato, lembrei da seleção de Camarões na Copa de 1990, de algumas vagas memórias daquele time de camisas verdes, daquele jogo de estréia no Mundial contra os argentinos, que eram os atuais campeões, com o craque Maradona em campo. Aqueles homens de verde eram rápidos, tocavam bem a bola, gostavam de um bom drible e sabiam ser objetivos. Havia um veterano, um tal de Milla, que jogava como um garoto, sorrindo pra bola.

Aqueles homens de verde surpreenderam argentinos, romenos, colombianos, o mundo. Em uma Copa bem “chocha”, os camaroneses viraram a sensação do torneio. Lembro bem da partida contra os ingleses, a que melhor guardo na memória, um jogaço. Os ingleses saindo na frente do marcador, os camaroneses jogando muito, virando o placar, perdendo gols, os ingleses empatando no final, aquela batalha na prorrogação, até o gol de pênalti de Lineker encerrar a participação daqueles valentes homens de verde nas quartas-de-final do torneio. Houve ali uma ruptura. Aquele surpreendente time regido por Milla abriu caminho para que jogadores e seleções da África se tornassem mais conhecidos, mais respeitados. Hoje, com a globalização mais que presente no mundo do futebol, as gerações mais novas talvez não tenham a dimensão do feito de Camarões na Copa de 1990. Um time que rompeu com a antiga ordem do eixo América do Sul-Europa e colocou a África definitivamente no mapa do futebol.

O TP Mazembe também merece reconhecimento pelo seu feito. Quebraram o protocolo e se tornaram protagonistas deste Mundial. De certa forma, a “dancinha” do goleiro Kidiaba representa o mesmo gesto da dança de Milla junto à bandeira de escanteio. Gestos de certa graça, simples, para serem lembrados juntamente com as façanhas de cada um.

2 comentários:

André Augusto disse...

Além de Camarões, lembrei de Nigéria de 1996, a qual não tinha tantos jogadores conhecidos, e que depois se revelou como a melhor safra de uma seleção africana na história (na minha opinião). Kanu, Okocha, Babangida e cia. fizeram história em Atlanta, ao bater os favoritos Brasil e Argentina, recheados de craques.

Boa analogia. Abs

Pedro Leonardo disse...

Sim, aquele time da Nigéria também surpreendeu a todos, principalmente naquele jogo contra o Brasil, virando um jogo praticamente perdido. Kanu também teve sua façanha. Mas antes a Nigéria já tinha feito uma boa Copa em 1994 e, mesmo sendo estreante em um Mundial, chegou até às oitavas, perdendo na prorrogação para os italianos. Mas nenhum time africano havia chegado tão longe numa Copa do Mundo como Camarões em 1990, quase beliscaram uma semifinal.

Abs.