sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

O futebol, seus donos e capangas

Parecia que a Rede Globo tinha levado um duro golpe quando o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) definiu que a emissora carioca não teria mais prioridade na aquisição dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro. Antes não havia disputa. Bastava à Globo cobrir o valor ofertado pelas rivais para levar todos os direitos de transmissão, na tevê aberta, fechada, pay-per-view e internet. Agora não. Com a deliberação do CADE, Clube dos 13 e Rede Globo assinaram um termo de compromisso definindo transparência no processo. Agora a emissora teria que brigar de igual para igual com as outras interessadas, como numa licitação pública, com ofertas apresentadas em envelopes fechados.

O reinado parecia ameaçado. Record e RedeTV poderiam entrar com força na disputa, oferecendo um valor mais alto e colocariam em sério risco a liderança de audiência da emissora dos Marinho. Isso apenas na tevê aberta. O Clube dos 13 já havia definido que os direitos de transmissão na tevê a cabo, pay-per-view e internet seriam licitados separadamente, ou seja, as teles (Oi e Telefônica) teriam grande oportunidade de fechar negócio. Pelo tratado, não se resolverá a questão do monopólio, uma vez que o ganhador terá os direitos exclusivos do torneio, mas seria quebrada uma longa hegemonia da Globo nas transmissões. Mas o que seria de uma grande emissora, que detém há décadas os direitos do principal campeonato nacional, se não fossem os amigos, parceiros e clientes angariados ao longo desse tempo.

A Globo dispõe de grandes aliados no “certame” e não jogaria a toalha tão facilmente. Entre os maiores aliados estão o presidente da CBF Ricardo Teixeixa e o presidente do Corinthians Andres Sanchez, que sempre deram tratamento privilegiado àquela emissora. A razão é simples: a Globo sempre foi uma ótima parceira comercial para ajudar a fechar contratos. Não seria agora que não estenderiam a mão a um grande amigo, a quem devem tantos favores

Assim, algumas movimentações nos bastidores (um tanto “estranhas”) trouxeram mais incertezas para a disputa dos direitos de transmissão e, também, para o futuro do Campeonato Brasileiro.

Já corria na imprensa que o valor mínimo estipulado pelo Clube dos 13 para aquisição dos direitos na tevê seria de R$ 500 milhões. Logo, a Globo blefou, dizendo que por aquele valor não entraria na disputa, uma vez que os ganhos não cobririam o valor pago. O edital ainda prevê um ágio de 10% a favor da Globo em relação às propostas das concorrentes, uma pequena vantagem para a emissora detentora da maior audiência, porém nada definitivo para uma licitação com propostas apresentadas em envelope fechado. Quando achávamos que, pela primeira vez, aconteceria uma disputa equilibrada, eis que a Globo traz seus parceiros à cena para “melar” o jogo.

Andres Sanchez foi o primeiro. Dizendo não concordar com os rumos da licitação encaminhada pelo Clube dos 13, solicitou a desfiliação da entidade. Negociaria os direitos do Corinthians separadamente, alegando conseguir um valor maior que o negociado pela entidade dos clubes (?). Depois, foi a vez de Ricardo Teixeira anunciar, para espanto geral, que a CBF passaria a reconhecer também o Flamengo como legítimo Campeão Brasileiro de 1987, sendo que há poucas semanas fora dada ao São Paulo a guarda definitiva da “Taça das Bolinhas”. Mas se a CBF teve 24 anos para reconhecer o título, por que o fez justo agora? Era o exato momento para reaproximar o Flamengo da CBF e afastá-lo do Clube dos 13. Rapidamente, a presidenta do Flamengo Patrícia Amorim também anunciou a debandada do grupo, levando consigo os outros grandes clubes do Rio de Janeiro. Há outros clubes pensando em debandar, mas querem esperar as propostas da licitação. Já os presidentes de Atlético Mineiro e São Paulo afirmam que todos os clubes ganharão se concordarem com o edital proposto do jeito que está e que a desagregação do grupo seria prejudicial para a negociação dos direitos de transmissão.

A Globo conseguiu o que queria: prejudicar todo o processo. Ao tentar esvaziar o Clube dos 13 e fazer com que os clubes queiram negociar os direitos separadamente, cria-se uma enorme incerteza sobre o futuro da própria competição e a emissora carioca sai de uma condição vulnerável para novamente demonstrar todo seu poder de cooptação. A abertura dos envelopes está marcada para 11 de março, mas talvez quem der o lance maior não leve o produto que realmente almejava. Talvez a licitação nem ocorra. A Globo, com ajuda dos principais “amigos” no futebol, tenta atravancar esse momento de definição de rumos da própria mídia. Em vez de futebol, a Globo impõe sua novela, manipulando seus personagens.

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Para enriquecer a discussão, há muitos textos interessantes pipocando na blogosfera. Luis Nassif fala sobre a primeira grande batalha da Globo para manter seu posto hegemônico. Rodrigo Vianna cita a disputa entre Globo, Record e membros do Clube dos 13, além de destacar o exemplo argentino do futebol na tevê pública. Marco Aurélio Mello traz discussões pontuais sobre o que há por trás das negociações pelos direitos de transmissão do futebol aqui, aqui e aqui, além dos bastidores do rompimento de Andres Sanchez com o Clube dos 13 aqui. Quem indicar outros textos, vou atualizando aqui também.

3 comentários:

Andre de P.Eduardo disse...

Belo texto. Depois parabenizá-lo-ei pessoalmente.

André Augusto disse...

Enquanto isso, transmissões estatizadas na Argentina. Esse balaio do futebol brasileiro é quase que um caso perdido. Pior para o torcedor, com jogos nefastos às 21h50, pq não vejo a Globo (respaldada pelos clubes) perdendo essa parada, mesmo individualmente.

Pedro Leonardo disse...

Comentei sobre isso lá no seu blog. Esse predomínio da Globo depende do futebol. Sem ele, deixará de reinar absoluta. O modelo argentino é interessante, ainda mais num país no qual só havia transmissão de futebol na tevê paga. Interessante também o governo argentino comprar briga com os conglomerados midiáticos.