domingo, 27 de março de 2011

O jornalismo “fake”, personagens e um pouquinho assim de esporte

Reproduzo abaixo dois textos do jornalista Marco Aurélio Mello, editor especial do Jornal da Record, sobre o “abandono” do apresentador Tiago Leifert de sua conta no Twitter. Na verdade, Leifert não excluiu ou abandonou sua conta. Estava irritado com as cobranças de seus seguidores, que reclamavam da postura da Rede Globo ao não dar informações sobre a disputa dos direitos de transmissão do Brasileirão e sobre a possível instalação de uma CPI da CBF. Não adianta os jornalistas fingirem que nada acontece, pois serão cobrados pela postura da emissora. Aí, o universo “fake” cai por terra e precisarão demonstrar o que de fato são. Clique aqui para ir ao DoLaDoDeLá.


Sobre Castelos de Areia

Por Marco Aurélio Mello

Até ontem não havia meios de se cobrar um apresentador de TV. Ele era inalcançável. Um deus no panteão da emissora. Mas eu digo, as coisas estão mudando muito rapidamente. Começou com o "poderoso" apresentador do telejornal da noite daquela que já foi a maior e mais influente emissora de televisão do país, mas que hoje não consegue eleger um síndico de prédio. Em maio de 2010 ele surpeendeu mais de 500 mil seguidores no twitter ao anunciar que estava deixando o microblog. A decisão causou surpresa ainda mais porque ele tinha acabado de receber a maior comenda do gênero dois meses antes: o Shorty Awards, uma espécie de "Oscar". A culpa teria sido da hérnea de disco. Curiosamente outro astro acaba de deixar o universo mágico virtual, o apresentador do programa de esportes do horário do almoço. No caso dele foi até mais explícito: estava com medo de “perder a linha” com seus seguidores. O fato é que as pressões estavam enormes e o rapaz ainda é moço para aguentar o "peso das escolhas nas costas". Portanto, acaba de deixar orfãos 840 mil seguidores. O fato é que ninguém aguenta mais uma emissora de televisão torcendo o noticiário para beneficar seus negócios escusos. As pessoas começaram a entender que televisão é uma concessão de serviço público e que essa turma aí tem sim que prestar contas ao telespectador. Brasileirão, obras da Copa de 2014, nova CPI da Bola, o público quer notícia isenta e com qualidade. Se não encontrar lá vai procurar em outro lugar. Simples assim. Por isso, é bom que quem não esteja acostumado a prestar contas de suas escolhas fique mesmo encastelado. Só que uma hora a torre pode sucumbir. E quase sempre toda solidez se desmancha como areia diante da força do mar.


Sobre Castelos de Areia (segunda parte)

Por Marco Aurélio Mello

Alguém pode dizer: que implicância a sua com apresentadores. Não é pela pessoa deles, é pelo que eles viraram. Explico. A televisão projeta você para o mundo. Uma televisão com muito alcance transforma uma pessoa em celebridade da noite para o dia. Só que ela não é o que é de fato. Ela é uma projeção daquilo que lê para a câmera, emoldurada pelos traços físicos que tem. A partir dessa combinação cria-se um outro "eu", uma terceira pessoa, um híbrido. O problema é que muitos começam a confundir esse novo "eu" com o que são de fato. É como se emprestassem o corpo para essa outra alma que não conhecem por inteiro. Por isso, quando um profissional que aparece na telinha tenta ser ele mesmo numa rede de relacionamentos como o twitter, por exemplo, vai ter que, obrigatoriamente, encarar seu "eu" original. E é aí que a coisa pega. Pega porque seus seguidores não querem o "eu" original, mas sim a projeção consagrada pela telinha. Então, por mais que queiram ser quem são isso se torna impossível. É quando surge uma enorme crise de identidade. Um feitiço, que só pode ser desfeito se a projeção da sua imagem for rigorosamente a imagem que ele tem de si próprio e isso é raro. Com os artistas é diferente porque o público sabe que na ficção eles estão descolados de seu "eu" original. No jornalismo não funciona assim. Para o público, jornalismo não é ficção, é realidade. Por esse raciocínio talvez fique mais fácil entender porque há tantos repórteres e apresentadores que vem e vão e ninguém nota. Eles são robotizados nos gestos, no figurino, na voz e na entonação. Eles são apenas a imagem projetada pela TV que, com o tempo, darão lugar a outra parecida. Só os que conseguem ser o que são de fato sobrevivem, independentemente do meio em que estão. Para todos os outros vale a metáfora do castelo de areia do post anterior.

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